O jegue capiau e o cavalo puro sangue inglês, por Sebastião Nunes

Como os tempos são outros e estamos livres (ou quase) dos aloprados, uma nova fábula servirá, pelo menos, para ajudar na tarefa de desanuviar o horizonte.

O jegue capiau e o cavalo puro sangue inglês

por Sebastião Nunes

            Vinha um jegue pela estrada acompanhado de sua jumenta quando deparou, vindo da direção oposta, um cavalo puro sangue tendo ao lado a consorte.

            – Bom dia, senhor cavalo – cumprimentou o capiau. – Seria ofensivo de minha parte pedir emprestada sua égua para que eu possa gerar um burro ou uma mula?

            – Ofensa nenhuma, senhor jegue – respondeu o inglês, com agradável sorriso. – Empresto numa boa, desde que em troca eu possa gerar um bardoto com sua jumenta.

            – Feito! – ripostou prontamente o capiau.

            – Oba! – exclamou o inglês. – Sempre quis ter um filho estéril.

            – Mas, ocorre um porém – disse o capiau. – Se o senhor levar consigo a égua prenha, como faço para recuperar o burrico ou a mulita depois do parto?

            – Bem pensado – concordou o inglês. – E caso o senhor leve a jumenta, de que modo terei meu bardotozinho?

            Encafifados, puseram-se a matutar jegue e cavalo, aproveitando para mascar um pouco do macio capim-gordura que por ali abundava.

            Paradas ali perto, a jumenta e a mula não estavam nem aí para o papo dos dois machos. De focinho empinado, discutiam algumas das proposições mais abstratas de Ludwig Wittgenstein no “Tractatus Logico-Philosophicus”. Sabedoras, porém, de que não se deve dar asa a cobra nem amarrar cachorro com linguiça, suspenderam o juízo ao perceber serem alvo da atenção dos respectivos parceiros e se puseram a assuntar.

            Enquanto isso os dois marmanjos, sem dar fé da espionagem, continuavam se esbaldando no capim-gordura, abanando os rabos e sonhando seus rasos sonhos.

            – Que tal trocar as madamas até o parto? – sugeriu o inglês. – Você fica com a minha égua e eu fico com a sua jumenta.

            – E depois do parto a gente destroca? – perguntou ressabiado o capiau.

            – Exatamente – confirmou o inglês.

            Concordes, felizes da vida, deram-se um grande abraço e foram levar a novidade às caras metades.

            Cadê elas?

            Sumiram.

            Ouvindo o que acabavam de ouvir, deram no pé e, em sociedade, fundaram uma escola de filosofia feminista, que faz o maior sucesso entre os intelectuais brasileiros.

            MORAL AMORALISTA

            Nunca abuse da sorte ou você pode cair do cavalo (ou do jegue).

Sebastião Nunes é um escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.

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Sebastiao Nunes

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