Angra dos Reis na rota do contrabando internacional de pepinos-do-mar

Pesca ilegal de pepinos-do-mar pode fazer com que a região de Angra dos Reis e Ilha Grande percam o principal ativo - as belezas naturais das praias - antes mesmo de Bolsonaro legalizar o turismo predatório

FOTO: WILLIAM DANIELS, NATIONAL GEOGRAPHIC

Jornal GGN – Angra dos Reis, região que Jair Bolsonaro quer explorar e transformar em uma “Cáncun” brasileira, pode estar na rota do mercado negro internacional de compra e venda de pepinos-do-mar, com uma ocorrência observada, em janeiro passado, na Vila do Abraão, que fica em Ilha Grande.

O caso foi relatado ao GGN na terça (13) pelo guia turístico Nelson Ilha. Ele acredita que, para burlar a já precária fiscalização, os traficantes passaram a aliciar brasileiros que pagam mergulhadores para colher o máximo de produto no menor tempo possível.

O pepino-do-mar é traficado do Brasil para o Oriente a preço de ouro, pois trata-se de uma iguaria em termos alimentares e medicinais. Cada vez mais raro e quase extinto em outras costas pelo mundo, há décadas o animal é comercializado ilegalmente sobretudo na China, que acredita em seu potencial “afrodisíaco”.

Reportagem do Estadão mostrou como até a máfia chinesa penetrou no mercado que se alastra pelas Américas, Ásia e África.

De acordo com a fonte, essa foi a primeira vez que a Ilha de Abraão foi alvo desse tipo de contravenção.

Nelson contou que “uma senhora [provavelmente aliciada por asiáticos] contratou 2 mergulhadores para pegar os pepinos-do-mar, e pagou muito bem, porque isso está sendo vendido muito caro” no mercado ilegal internacional.

A mulher “desapareceu” quando soube que o assunto se espalhou pela região, e o caso acabou não reportado oficialmente às autoridades.

Os mergulhadores, segundo Nelson, teriam recebido R$ 15,00 por cada unidade de pepino-do-mar. “Quer dizer, o cara faz um mergulho, pega 30 peças em 3 ou 4 horas e ganha R$ 450,00. É uma ‘senhora’ diária”, ponderou.

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Pepinos-do-mar rendem muito mais dinheiro aos comerciantes que estão do topo da cadeia do tráfico. Cada quilo do animal é vendido por cerca de R$ 1 mil. Quando pegos, os envolvidos são obrigados a pagar multas pesadas, mas ainda assim prevalece a máxima de que “o crime compensa”.

Nos EUA, por exemplo, 2 homens foram multados em mais de 1 milhão de dólares cada um pela compra e venda ilegal de pepinos-do-mar contrabandeados do México, que é um dos Países que entrou na rota desse mercado negro nesta década.

No Brasil, em 2018, 4 homens – sendo 1 chinês – foram detidos, já no litoral de São Paulo, com aproximadamente 200 quilos de pepinos-do-mar adquiridos em Angra dos Reis. Eram, portanto, mais de R$ 200 mil em mercadoria.

“Eu não sei se estão atacando para o lado de Angra [continental], mas é uma pescaria que já existe há muito tempo [na costa brasileira]”, comentou Ilha.

Entre outros Países da costa africana, o Marrocos já foi, do outro lado do globo, o principal palco de exploração de pepinos-do-mar ao longo dos anos 2000. Lá, 2 homens flagrados com 100 quilos do animal – metade do que foi apreendido aqui no Brasil, em 2018 – foram multados em 4 mil dólares cada um. Pela norma local, endurecida em 2010, a pesca de pepinos-do-mar pode ser punida com até 1 ano de prisão.

O IMPACTO AMBIENTAL

Antes que o governo Bolsonaro cogite legalizar o comércio de pepinos-do-mar em Angra para aumentar a receita, é preciso observar a importância que o animal tem no ecossistema.

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Pepinos-do-mar são equinodermos, assim como os ouriços e as estrelas-do-mar, fáceis de capturar, informou o site National Geographic Brasil. São, segundo biólogos, “fábricas de nutrientes, ricos em proteína e compostos orgânicos complexos” que exercem um “papel ecológico fundamental”: o de promover uma espécie de purificação do mar.

Nas regiões onde o pepino-do-mar desapareceu, as águas costeiras ficaram mais turvas ou mais poluídas. Ou seja, Angra dos Reis corre o risco de perder seu principal ativo, a beleza natural, antes mesmo de Bolsonaro conseguir avançar com o turismo que muitos moradores locais considerariam “predatório”.

Além dos conhecidos ataques ao Ibama, em julho passado, o presidente demonstrou que vê os crimes ambientais na região com muita naturalidade. Quem quiser praticar algo do gênero em Angra, disse ele, basta fazê-lo “tranquilamente à noite, porque não tem como fiscalizar.”

TURISMO PREDATÓRIO, COMÉRCIO E CRESCIMENTO DESORDENADOS

Uma fonte que mora em Angra dos Reis há 20 anos, e acompanha as questões ambientais do local e é crítica do turismo predatório, disse ao GGN, em caráter de anonimato – ela teme represálias de políticos locais – que as condições de fiscalização de órgãos como o Ibama ou Inea estão aquém do necessário. E outros problema de cidade grande começam a entrar na pauta.

“Angra é o local mais desperdiçado em todos os sentidos. Os empresários e comerciantes exploram a natureza de forma predatória. O poder local é extremamente corrupto e paternalista. O orçamento já bateu R$ 1 bilhão, e a cidade continua desorganizada. A saúde é razoável, atende razoavelmente a população. Mas olho para esse lugar com muita tristeza porque estão destruindo as belezas naturais, que é o verdadeiro ativo de Angra. Há pequenas máfias, como a do peixe. Os serviços da prefeitura são uma burocracia violenta, mas se tiver ligação com políticos, tudo anda rápido. Fiscalização aqui é tétrica. O crescimento populacional, desordenado. A vigilância sanitária escolhe datas para trabalhar que são incompatíveis com o funcionamento dos bares que praticam irregularidades. Ibama e Inea, que deveriam fazer a fiscalização ambiental, têm poucos funcionários e muita burocracia. Sem contar as milícias que estão começando a chegar aqui com o apoio de políticos.”

3 comentários

  1. moro na Ilha Grande a 44 anos. quando vim pra cá tinha uma música fazendo sucesso que mecheu comigo. dizia assim. moro onde não mora ninguém. onde não passa ninguém……mas o tempo foi passando e o progresso chegando. conheci a bucólica vila do Abraão. tadinha, já tem favela e a primeira praia imprópria pra banho da Ilha. o progresso é irreversível no mundo. más acredito que nosso presidente está mal acessorado e mal informado. a diferença de Cancun e Angra, é que Cancun não tem uma usina nuclear. Em Angra devido a ela as seguradoras não fazem seguro de lucros cessantes. quem irá investir um grande capital de retorno a longo prazo que de uma hora pra outra pode virar fumaça? mas de qualquer forma, acho que é hora de botar a viola no saco e ir tocar em outra freguesia.

  2. e digo mais. os mentecaptos que clocaram esta usina aqui bem no meio do eixo Rio São Paulo, foram os grandes traidores da pátria. além de tirar a possibilidade desta região única no país de concorrer com os grandes capitais investidos no segundo maior negócio do planeta. ai se algum dia o Brasil se meter a besta com algum deles. acabam com o pais no primeiro dia com um misselzinho vagabundo qualquer

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