Mensagens incluídas no inquérito contra brigadistas revelam que não há evidências de crimes

Polícia Civil do Pará descontextualiza frases para tentar provar que ONGs provocaram incêndios, mas a íntegra dos diálogos mostra o contrário

Voluntários da ONG que atuou no combate a incêndios em Alter do Chão. Quatro foram detidos pela Polícia Civil do Pará. Foto: reprodução/redes sociais

Jornal GGN – Na manhã da terça-feira (26), a Polícia Civil do Pará cumpriu mandados de prisão preventiva contra quatro brigadistas de Alter do Chão, em Santarém, no Pará, local a 1.231 km de Belém, capital do estado.

Foram detidos Daniel Gutierrez Govino, João Victor Pereira Romano, Gustavo de Almeida Fernandes e Marcelo Aron Cwerner. Os quatro são voluntários da Brigada de Incêndio de Alter do Chão e foram presos no âmbito da operação Fogo do Sairé.

A Polícia Civil do Pará parte do princípio que a origem de incêndios que atingiram a região de Alter do Chão em setembro foi criminosa e aponta a Alter de Chão e outras ONGs como suspeitas. Mas, a troca de conversas incluídas no inquérito, obtido pelo blog de Ana Carolina Amaral, na Folha de S.Paulo, mostra que as mensagens entre os brigadistas e patrocinadores da organização foram tiradas do contexto.

Os diálogos aconteceram em um contexto de patrocínio que a Brigada de Alter do Chão recebeu da ONG internacional WWF, para atuar contra focos de incêndio na região.

“As discussões ficam em torno do tempo – três meses ou cinco anos – em que a WWF poderá se vincular a imagens de divulgação da Brigada, já que a doação de equipamentos será usada nos próximos anos”, conta Carolina Amaral.

No inquérito, a Polícia Civil destaca as frases “Quando vocês chegarem vai ter bastante fogo” e “O que a gente quer é a imagem de vocês”, como provas de que a Brigada atuou de forma criminosa, com recursos da WWF.

“Quando lidos na íntegra, os diálogos revelam apenas dúvidas dos integrantes do projeto sobre as contrapartidas ao patrocínio da WWF”, pontua a jornalista, divulgando no blog o trecho completo de um dos principais diálogos, trocados entre Gustavo de Almeida Fernandes e Marcelo Aron Cwerner, dois dos quatro brigadistas presos na operação:

“É, cara, o Caetano falou que a gente tá se preocupando com coisa pequena, mas como a gente tá querendo fazer tudo certinho”, disse Gustavo. “Eu só acho desproporcional que eles queiram usar nosso logo para sempre”, responde Marcelo.

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No mesmo diálogo, um dos brigadistas pergunta se precisariam devolver um equipamento, após o término do contrato com a WWF. Um integrante da organização responde: “não, é de vocês [o equipamento]”.

“Em outra conversa, o doador [WWF] esclarece que a contrapartida à doação é a divulgação das imagens – uma forma da WWF, por sua vez, prestar contas aos seus patrocinadores”, prossegue Carolina Amaral. “É neste contexto que ele diz ‘o que a gente quer é a imagem de vocês’. E completa: ‘porque a gente tem que prestar conta desse dinheiro que tá vindo de um outro fundo’”, prossegue.

A troca de mensagens entre os brigadistas e a WWF revela uma dinâmica normal em contratos de patrocínio, mas, para a Polícia Civil do Pará, o trecho é suspeito.

“O conteúdo deixa compreensível o objetivo do grupo de brigadistas de Alter do Chão em obter vantagem financeira a título de patrocínio e outras formas de contrato, tendo como contraprestação fornecer conteúdo exclusivo de imagens do combate às queimadas, fazendo alusão ao patrocinador”, disse o órgão no inquérito.

“A interpretação policial é decisiva nas páginas do inquérito para alçar suspeita sobre diálogos comuns. Através dela, ‘doação’ e ‘patrocínio’ passam a ser entendidos como ‘vantagem financeira’, embora as conversas acessadas pelo blog não discutam sobre desvios”, pondera Carolina Amaral.

A Polícia Civil do Pará disse ainda no inquérito que as conversas interceptadas “indicavam que o grupo de brigadistas estava se aproveitando da repercussão internacional tomada pelo incêndio ocorrido na APA [Área de Preservação Ambiental] Alter do Chão buscando beneficiar financeiramente a ONG”.

Entretanto, mais uma vez, o único diálogo que alimenta a suspeita, divulgado na íntegra, mostra que a Polícia Civil tirou frases do contexto para amparar a denúncia. A conversa aconteceu entre Gustavo e uma interlocutora chamada Cecília:

GUSTAVO: Tá triste, foi triste, a galera está num momento pós-traumático, mas tudo bem.

CECÍLIA: Mas já controlou?

GUSTAVO: Tá extinto, é.

CECÍLIA: Que bom.

GUSTAVO: Mas quando vocês chegarem vai ter bastante fogo, se preparem, nas rotas, nas rotas inclusive.

CECÍLIA: É mesmo?

GUSTAVO: Vai, o horizonte vai tá todo embaçado…

CECÍLIA: Puta merda

GUSTAVO: Mas normal, né?

CECÍLIA: Não começou a chover ainda? Porque em Manaus…

GUSTAVO: É, vai começar a chover em dezembro pra janeiro. Se vocês tiverem sorte, chove um pouco antes ou depois que vocês ir embora (sic).

Segundo a Polícia Civil do Pará, “é perceptível referir-se [nesse diálogo] a queimadas orquestradas, uma vez que não é admissível prever, mesmo nessa época do ano, data e local onde ocorrerão incêndios.”

“A conclusão policial não cita o trecho seguinte da conversa, em que o mesmo suspeito faz previsão semelhante sobre a chegada das chuvas”, arremata Carolina Amaral no blog.

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Na manhã desta quarta-feira (27), Eliseu Neto, irmão de João Victor Pereira Romano, um dos brigadistas presos, divulgou um vídeo em defesa do grupo. “O João mora lá [em Alter do Chão] há três anos. Ele deixou uma vida confortável aqui em São Paulo para morar em uma cabana, que nem parede tem, no meio da floresta. Ele tem mulher e filha e, voluntariamente, trabalhava combatendo o fogo na região”, conta.

“Esses quatro meninos arriscavam a vida combatendo o fogo na Amazônia defendendo a floresta e agora eles precisam da nossa ajuda pra que essas informações sejam dadas de forma verdadeira”, solicita Eliseu.

“Até o momento, a gente não sabe nem do que eles estão sendo acusados. Eles estão sendo privados de informações, privados de defesa”, denuncia.

Em agosto, no auge da repercussão negativa das queimadas na Amazônia, o presidente Bolsonaro disse em coletiva para a imprensa que Organizações Não Governamentais (ONGs), na Amazônia, estariam por trás das queimadas.

“O crime existe, e isso aí nós temos que fazer o possível para que esse crime não aumente, mas nós tiramos dinheiros de ONGs. Dos repasses de fora, 40% ia para ONGs. Não tem mais. Acabamos também com o repasse de dinheiro público. De forma que esse pessoal está sentindo a falta do dinheiro”, prosseguiu o presidente na acusação.

Alguns dias depois dessa declaração, a imprensa em todo o país repercutiu que agricultores e grileiros planejaram um “dia do fogo” para incendiar as margens da BR-163. A ação foi revelada pelo jornal Folha do Progresso, de Novo Progresso, no Pará.

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Em seguida, a revista Globo Rural teve acesso a um ofício do Ministério Público (MPF) do Pará enviado ao Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), ligado ao Ministério do Meio Ambiente, alertando sobre o esquema criminoso. O incêndio foi provocado no dia 10 de agosto, e o órgão público tinha sido avisado três dias antes, em 7 de agosto, mesmo assim, nada foi feito para impedir o “dia do fogo”.

A Polícia Federal abriu uma investigação sobre o caso, que prossegue sem um desfecho. A rodovia BR-163 liga a região de Altamira e Novo Progresso, no Pará, aos portos fluviais do Rio tapajós e ao Estado de Mato Grosso, onde foram identificados pelos satélites os maiores focos de incêndio que ocorreram nos últimos meses.

Nas mensagens trocadas por WhatsApp, os agricultores manifestaram que objetivo com a queimada era mostrar ao presidente Jair Bolsonaro que apoiavam suas ideias de “afrouxar” a fiscalização do Ibama. Eles ainda esperavam conseguir perdão das multas pelas infrações cometidas ao Meio Ambiente.

Para abafar a repercussão negativa em relação à destruição do bioma na Amazônia, tanto dentro quanto fora do país, Bolsonaro passou a apontar as ONGs como supostamente responsáveis pelos incêndios criminosos, sem fazer nenhuma referência aos agricultores e grileiros investigados pela Polícia Federal.

A prisão dos quatro brigadistas de uma ONG nacional, que acabava de fechar patrocínio de uma ONG estrangeira, reforça a tese defendida pelo Planalto.

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3 comentários

  1. Polícia usa de má fé para reforçar tese do Planalto

    Aliás nós Estados e municípios as polícias estão virando puxadinho do Partido 38 com anuência do MP

    Deixe isso mais claro no último parágrafo, ok

  2. Assustador se começarem a prender e criminalizar os defensores da natureza, assim como já fazem com defensores de direitos humanos.

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