O cidadão não pode arcar com o peso da sustentabilidade, por Mariana Nascimento

Liderar esta mudança é responsabilidade dos setores público e privado

Foto Vinicius Mendonça – Ibama

O cidadão não pode arcar com o peso da sustentabilidade.

por Mariana Nascimento

Todos não só podem como devem fazer sua parte para viver numa sociedade sustentável, afinal, a construção de um mundo melhor é o somatório da contribuição de todos os setores, público, privado e sociedade civil. O papel de cada um é muito importante, especialmente quando numa ação coletiva.

No entanto, a ação individual, que era para ser um dos três pilares da sustentabilidade, está sendo colocada no centro do palco, como a estrela principal da peça. Faça você mesmo, tome a dianteira, mude o mundo, persista. Aos poucos, o que era para ser um incentivo para que as pessoas se tornassem parte da solução, se tornou a própria  solução. Por mais que esse apelo heroico possa ser tentador, e até mesmo romantizado, quem realmente pode alavancar e deveria liderar processos de sustentabilidade são os setores público e privado.

A pegada ecológica individual – metodologia que avalia a pressão do consumo das populações humanas sobre os recursos naturais – é infinitamente menor do que a do setor privado. Por exemplo, os grandes consumidores de água não são as pessoas, mas sim a agricultura e a indústria, que respondem também pelos maiores níveis de poluição. A agricultura consome 69% da água do planeta, enquanto que a indústria consome outros 19%. Se estes setores não otimizarem o uso e tratarem o recurso natural que poluem, o mundo enfrentará escassez de água. Se esses setores não reduzirem suas emissões de CO2, o mundo enfrentará escassez de água.

Infelizmente, tomar banho rápido não resolverá o problema. Quem quiser fazer alguma diferença em relação à disponibilidade e qualidade da água potável, pode fazer o possível para não comprar garrafas de água. A Coca-Cola e outras gigantes estão drenando as fontes de água mineral para vender para a população o que é seu por direito. Pressionar as grandes empresas a mudar seu comportamento e exigir uma regulamentação mais efetiva em relação aos recursos naturais é uma grande contribuição que cada indivíduo pode dar.

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Outro bom exemplo do tamanho da pegada ecológica do setor privado é a poluição por plásticos. A população pode se esforçar ao máximo para separar os recicláveis, mas se a maioria absoluta dos materiais seguirem sem ser reciclados (até o presente momento apenas 9% dos plásticos foram reciclados mundialmente), o problema vai seguir se agravando. Por isso, se mega-corporações como a Coca-Cola e Unilever continuarem gerando mais embalagens plásticas de uso único do que é possível reciclar, a poluição por plásticos seguirá se agravando. Pouco importa se as empresas do setor usam uma porcentagem de bioplástico ou de plástico reciclado em garrafas e nos demais produtos que colocam no mercado. Elas deveriam apresentar soluções reais e impactantes. A Coca-Cola poderia, por exemplo, trocar as garrafas plásticas por de vidro. E, obviamente, promover a logística reversa dos vidros, afinal, trata-se da Coca-Cola, uma empresa com recursos e poder para fazê-lo.

Em relação ao setor público, este é o responsável por estabelecer as bases para uma sociedade sustentável, por meio da implementação de leis ambientais. E aqui os indivíduos têm um importante papel a cumprir: eleger representantes que levarão esta tarefa adiante. Esta talvez seja a contribuição mais relevante que cada pessoa pode dar de modo a garantir que seus esforços individuais valham a pena. Este ano de eleições é particularmente importante neste sentido, pois o país vivencia um intenso desmonte das políticas públicas, da legislação ambiental e das instituições estatais responsáveis pelo cuidado com o meio ambiente. Vale a pena ressaltar que o presidente não governa sozinho, cada cidadão deve pensar muito bem em quem ele deseja para representá-lo no Estado e no Congresso Federal.

E o papel do setor público não se restringe a leis e regulamentações; este também é responsável por subsidiar, financiar ou incentivar a construção de infraestrutura necessária para uma economia sustentável. Por exemplo, foi por iniciativa do Governo Federal que aconteceram os primeiros leilões exclusivamente de eólica há uma década. Foram também programas de governos que incentivaram a expansão das linhas de transmissão, para escoamento das energias eólica e solar.

Esses breves exemplos mostram a complexidade que a sustentabilidade traz. O caminho para alcançá-la envolve um esforço coletivo de todos os setores. A frase “seja a mudança que você quer ver no mundo” pode ser vista nas janelas de carros, quadros em casas, consultórios, campanhas sobre meio ambiente. É uma mensagem poderosa, a qual sugere que a mudança de um indivíduo influencia outro, e mais outro, até que mude o coletivo de dentro para fora, ou de baixo para cima. Mas numa sociedade altamente capitalista e individualista, as pessoas são levadas a pensar que elas, sozinhas, podem mudar o mundo, negligenciando a responsabilidade coletiva da mudança.

Em outras palavras, nos dizem que temos que tomar banhos rápidos, separar o lixo, usar lâmpadas LED, comprar carros híbridos ou flex, comprar em brechós, etc. Mas se o setor privado não mudar sua atuação radicalmente, os indivíduos, sozinhos, não poderão evitar as consequências do aquecimento global.

Não se trata de dizer que as pessoas não devam agir e fazer sua parte, mas sim de reafirmar que não se devem deixar levar pela narrativa do “faça você mesmo” e, assim, carregar o peso de construir um mundo sustentável. A população deve se assegurar que os setores privado e público tomem o mesmo caminho. Essa, talvez, seja a contribuição mais valorosa que ela possa trazer.

Mariana Nascimento – Analista Ambiental licenciada do Ministério do Meio Ambiente e faz mestrado em Assuntos Internacionais, com ênfase em Mudanças Climáticas e Energia, na Universidade de Nova Iorque.

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