21 de maio de 2026

A morte de Danilo Miranda, o Senhor Cultura, por Luís Nassif

Danilo Miranda morre com a justa distinção de mais relevante pessoa da cultura de São Paulo e, provavelmente, do país
Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc São Paulo. | Foto: Divulgação/Sesc

Ninguém influenciou mais a arte brasileira, nas últimas décadas, que Danilo Miranda, o homem do SESC. Com o apoio do sempre presidente da Federação do Comércio de São Paulo, Abraham Szajman, Danilo transformou o SESC no maior ponto de apoio para as artes paulistanas, seja com seus teatros ou com seus cursos.

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Sua biografia, na Wikipédia, traz uma síntese preciosa de sua atuação.

“Era membro do conselho de entidades nacionais como a Fundação Bienal de São Paulo, o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), o Itaú Cultural, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin e a SP Escola de Teatro. Foi presidente do Conselho Diretor do Fórum Cultural Mundial (2004) e presidente da comissão que organizou o Ano da França no Brasil (2009). Sua atuação internacional também abrange a vice-presidência do Conselho Internacional de Bem-Estar Social – ICSW, na sigla em inglês, de 2008 a 2010, além da composição atual da diretoria da ONG Art for the World, sediada na Suíça e dedicada à difusão da arte contemporânea.

Estudou Filosofia e Ciências Sociais, tendo realizado estudos complementares em gestão empresarial no International Institute for Management Development – IMD, na Suíça. Organizador de livros como “Ética e Cultura”, é reconhecido nacional e internacionalmente pelo trabalho que realiza à frente do Sesc São Paulo. Sua abordagem se baseia na perspectiva de que a cultura deve ser entendida de forma ampliada, de forte sentido educativo, entrelaçando o mundo das artes e do espetáculo à memória, à aprendizagem e à convivência. Para ele, “cultura e educação são duas facetas de uma mesma realidade”.

Entre as diversas distinções recebidas ao longo da carreira constam a Condecoração de Mérito da República da Polônia, pelas contribuições às relações culturais Brasil-Polônia (2000); a Ordem do Mérito Cultural, concedida pelo Governo Federal (2004); o grau de Oficial da Ordem das Artes e das Letras, concedido pela França (2005); o Diploma de Mérito do Governo Japonês, pelo empenho na difusão da arte e cultura japonesa no Brasil (2006); a láurea de Comendador da Ordem do Mérito da República Francesa e da Ordem do Ipiranga (2010); e diversas condecorações de Ordem do Mérito, recebidas dos governos da Alemanha (2011), Bélgica (2012) e Polônia (2015), além do título de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, concedido por Portugal (2016).

Entre os prêmios, constam o Troféu HQ Mix, na categoria “Homenagem especial” (2003). O Prêmio Bravo! Prime de Cultura, na categoria “Personalidade cultural” (2009); e o Jürgen Palm Award, recebido da Tafisa – The Association For International Sport for All (2011)”.

O homem Danilo

Danilo foi aluno jesuíta e caminhava para ser da ordem. A disciplina jesuítica e os conceitos de que as pessoas são moldadas pela educação e pela cultura sempre inspiraram sua atuação.
Sempre esteve em linha com todos os avanços civilizatórios. Como declarou em uma entrevista ao próprio portal do Sesc:

“Melhorar, por exemplo, o nível de conhecimento das pessoas frente ao mundo à sua volta é uma missão permanente. A questão da diversidade e a questão LGBTQIA+, a gente já discute há algum tempo. Nós não nos antecipamos com “a intenção de…”. É algo natural. Dou outro exemplo: o foco na terceira idade, no idoso. Nos anos 1960, ninguém no Brasil fazia nada nesse sentido e o Sesc começou esse trabalho em 1963, buscando especialistas no mundo inteiro, fazendo debates, seminários, e criando tecnologia social para isso. Ao longo do tempo, praticamente todas as unidades do Sesc no Brasil, além de outras instituições, assumiram o trabalho com o idoso. Isso também vale para os programas de férias. O Sesc foi a primeira instituição a implantar um programa de férias organizadas, que chamávamos de “colônia”, termo hoje inadequado. Eu citaria mais dez modelos de ações que foram iniciadas no Sesc e que se tornaram políticas públicas. Ações que ganharam uma dimensão para além da instituição. A própria questão do lazer, do tempo livre, como um momento importante na vida do ser humano, e a questão do aproveitamento de espaços amplos para atuação cultural – caso do Sesc Pompeia, a primeira fábrica transformada em centro cultural no Brasil”.

Pouco se fala de sua âncora maior, a esposa Cleo. Militante política na juventude, jamais abandonou as causas iniciais, a bandeira dos desaparecidos políticos.

Recebemos ambos muitas vezes em casa, nos saraus musicais. Embora cortejado por todos os músicos e artistas do país, Danilo jamais se deixou deslumbrar. Era, acima de tudo, um servidor público da cultura.

Muitas vezes foi indicado para Ministro da Cultura, provocando reações negativas de toda a classe artística, que era unânime em afirmar que a maior contribuição à cultura estava justamente em seu trabalho à frente do Sesc-SP.

Quando Paulo Guedes tentou reduzir os recursos do Sistema S, a grande batalha contra os cortes veio justamente da classe artística e do trabalho de Danilo.

Ele foi uma das vítimas da Covid. Contraiu a doença e, depois disso, não mais se recuperou integralmente.

Morre com a justa distinção de mais relevante pessoa da cultura de São Paulo e, provavelmente, do país.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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