As famílias que comandavam o Brasil a partir do Rio dos anos 50, por Luis Nassif

Os grandes anfitriões da cidade eram o casal Hubert Charles Bob Winans e Naná Dinah Winans, e sua casa no Largo do Boticário.

Quando Walter Moreira Salles retornou ao Rio, depois de sua temporada em Washington, o panorama econômico e social tinha se alterado consideravelmente. Não era mais o país pequeno, que se reunia na casa de Joaquim Salles para as rodadas de biriba. O Rio descobrira outros pontos de encontro, próprios de uma cidade cosmopolita.

A sociedade da época foi dividida em seis grupos por um cronista social interessante, que tinha como particularidade detestar a vida mundana, e cobrir a crônica com olhos de sociólogo – José Mauro Gonçalves, um mineiro de Barbacena, que trabalhou durante ano e meio como cronista, aposentou-se da função por enfado e por pressão, e lançou um livro na época, “O Café Society”, que chegou a vender 5 mil exemplares.

O primeiro grupo era dos “horse-ligne”, os pequenos círculos dos estabilizados, altas figuras dos meios sociais, políticos e econômicos, que perduram duas ou três gerações.

O segundo era o “café-society”, os colunáveis de hoje, composto de alguns filhos dos “horse-ligne”, ou candidatos a genros e noras, chegados a uma euforia permanente.

O terceiro grupo era dos “salon société”, linha paralela do “café-society”, grupo mais austero, com pretensões artísticas e filosóficas, físicas e metafísicas, com anseios e devaneios, menos ostensivos, na descrição do cronista.

O quarto grupo era dos “big shots”, o pessoal da livre iniciativa e larga visão, aceitos em todos os demais grupos, mais voltados para a ação, para a realização, com pouco tempo para os folguedos.

O quinto grupo era o da intelectualidade, escritores, pintores, escultores, jornalistas, alguns advogados, médicos, profissionais liberais, intimamente desejosos de servirem aos “horse-lignes” e integrarem o “café-society”.

O sexto e perigoso grupo era dos “interlopes”, cabotinos, aventureiros, arrivistas, chantagistas.

Os “horse-ligne” em geral se reuniam em pequenos grupos de 6 até no máximo 16 pessoas, em jantares hieráticos, com lugares marcados, garçons de casaca comandados por um “maitre d’hotel”. Seguiam a velha etiqueta britânica ou francesa, com grande preocupação sobre quem ficava à esquerda ou à direita de quem. Os jantares sempre eram servidos com bebidas importadas, com preponderância para a champagne, pelo cognac, armagnac, vinhos franceses, caviar e fois grãs. Os temas das conversas eram as altas finanças, economia, situação internacional. O cronista colocava nesse time E.G. Fontes (banqueiro), Raimundo Castro Maya, João Borges Filho e Eugênio Gudin. Incluía Raul Fernandes, tratado como “famoso internacionalista que se enriqueceu sobretudo com causas nacionais”, o embaixador Maurício Nabuco, o empresário têxtil Guilherme da Silveira (que havia sido presidente do Banco do Brasil), os três Guinle – Guilherme, Carlos e Otávio. Entre as mulheres, Celina Guinle de Paula Machado, viúva de Lineu de Paula Machado, que se tornou popular na presidência do Jockey Club.

Mantinham-se no comando do país, independentemente dos ventos políticos. Eram incluídos na lista, mas compondo também as do “big shot”, Jules Verelst, da Belgo Mineira, o jurista San Tiago Dantas, candidato a “horse ligne”, Gilberto Amado, Assis Chateaubriand e Paulo Bittencourt, do “Correio da Manhã”

Já o “café-society” carioca começou a ser moldado nos tempos do Cassino da Urca. Até sua criação, a sociedade carioca se restringia ao Cassino Copacabana, sem shows, em um ambiente austero. Joaquim Rolla, um mineiro de São Domingos do Prata, construiu o Cassino da Urca, e inaugurou a era dos grandes shows.  Com suas roletas, bacarás e campistas, fornecia a trilogia imbatível de dinheiro, bebida e mulheres, dizia o cronista. Depois que o jogo foi fechado, essa fauna se mudou para as boites que comandaram o Rio até os anos 60.

Sem a formalidade dos “horse-lignes”, o “café-society” gosta de cocktails, de jantares em mesinhas pequenas e separadas, para conversas rápidas e descontínuas. Seguiam todas as modas. Na cozinha, o “strogonoff”, trazido pelo histórico Barão Von Stukart. Bebiam bastante, preferindo o uísque à champagne. A moda da época era a dança e também sessões privadas de cinema.

Os “cafés-societys” mais proeminentes eram Álvaro Catão, Carlos Eduardo “Didu” de Sousa Campos, Vicente Galliez, Horácio Klabin, Otacílio Gualberto de Oliveira, João Saavedra. Jorge Guinle, Teodoro Eduardo Duvivier e Fernando Delamare. Misturavam-se de grandes industriais e incorporadores imobiliários, médicos, fazendeiros, banqueiros.

Havia uma leva enorme de aspirante a “café-society” Esse grupo festivo, descompromissado, passou a influenciar os hábitos de toda a sociedade. O cronista via na juventude aspirante “a ânsia do gozo ou do brilho publicitário”. Já havia o fenômeno de mães de filhas bonitas, caitituando para que virassem capas de revista, ou que fossem apresentadas ao “café-society”.

O “salon société” era formado pelos herdeiros das tradições dos cafés literários da França. Gostavam de se reunir quando a cidade recebia algum intelectual europeu ou americano, ou para comemorar aniversários, lançamentos de livros. As festinhas eram, em geral um soupé froid, um pouco de champagne, uísque, docinhos da Colombo, salgadinhos de cozinheiras particulares.

A figura maior do grupo era Osvaldo Teixeira, seguido de um tal “Viana dos perus” e “dona Georgina das flores”. Cultivavam as esculturas de Rodin, do brasileiro mestre Bernardelli, os poemas franceses de Aluisio de Castro, os discursos acadêmicos de Rodrigo Otávio Filho, e os artigos anônimos de João Neves da Fontoura. Ignoravam solenemente os modernistas.

O auge dos saraus eram os recitativos, cantos, execuções ao piano, muito raramente ao violão. Eram mencionadas a Senhorita Rosita Fonseca e Senhoras Olga Práguer Coelho como “expoentes canoros”, cantando canções folclóricas com entonação operística. Mas ainda brilhavam o diplomata Vasco Mariz, Gabriela Benzanoni Lage, e Maria de Sá Erp. E intelectuais mais conhecidos, como Celso Kelly, Pedro Calmon.

O colunista se permitia citar alguns valores reais nesse grupo, como Jorge Dória, Manuel Ferreira Guimarães, Austregésilo de Athayde, Geraldo Mascarenhas entre outros.

Vinham, depois, os “big shots” ou “tycoons”, conhecidos por seu poder econômico, pela liquidez de suas finanças e, alguns, também pelo charme. Em suas reuniões compareciam representantes de todos os grupos. Eram reuniões esplendorosas e o sabor estava na mistura de pessoas de todos os grupos.

Dois dos mais ilustres “big shots” eram o paulista José Carlos de Macedo Soares (que indicou Walter para a Diretoria de Crédito do Banco do Brasil) e Horácio Lafer, que tinha fundas divergências teóricas com Eugênio Gudin.  Ainda mencionava o mineiro Tristão da Cunha, monetarista convicto daqueles que “lutam contra a inflação e pelo desaparecimento do dinheiro e almejam o retorno de uma sociedade de escambo”. Havia também o banqueiro José Maria Whitaker.

Entre os de prestígio eminentemente político, constavam Apolônio Sales, Israel Pinheiro, Francisco Negrão de Lima, senador Juracy Magalhães, senador Lourival Fontes, Ministro José Maria Alkmin.

Havia “big shots” de outros estados, como Othon Bezerra de Mello Filho, que, com seus irmãos Artur e Luis, dominava setores como hotelaria, tecidos, usinas de açúcar.

Nos setores de terraplanagem e rodoviarismo, imperavam os Cincinato Braga e Mário Tamborindeguy.

Na época, o empresário com melhores relações com os Estados Unidos era Valentim Bouças, ligado ao grupo Holleryth, que recebia polpudos royalties do serviço público. Bouças também tinha ligações com a Panair do Brasil, editoras, empresas de loteamento.

Outro “big shot”, genro de Valentim, era Oiama Pereira Teixeira, de Barbacena, filho do banqueiro José Pereira Teixeira, muito ligado ao grupo da Loteria Federal.

O presidente da Confederação Nacional da Indústria era o baiano Augusto Viana, o de Minas era Lídio Lunardi, do Rio era Zulfo de Freitas Mallmann.

Os Klabin já se destacavam por sua produção de celulose no Paraná. São Paulo, Rio e Minas.

Havia também editores, como Leão Gondin de Oliveira, diretor de O Cruzeiro, e os Blochs, Adolfo, Boris, Arnaldo e Oscar., da Manchete.

O presidente da Panair era Argemiro Hungria, ligado à Murray e Simonsen, que detinha representações de automóveis, máquinas em geral, papéis suecos e finlandeses.

A.J. Peixoto de Castro era o líder do seu grupo, cuja origem estava na concessão da Loteria Federal.  De lá investiram na Refinaria de Manguinhos, conseguiram quase o monopólio do fornecimento para o Distrito Federal. Do grupo faziam parte duas figuras influentes, Pedro Raggio e Batista Pereira.

Havia também Antônio Sánchez de Larragoitti Júnior, da Sul América.

Os Monteiro Aranha – sociedade dos Monteiro de Carvalho e do Olavo Egydio de Souza Arranha –tinham ligação com capitais franceses, investimento em vidro, automóveis (Volkswagen).

Um dos grupos mais poderosos eram os Soares Sampaio, donos da Refinaria Capuava, a maior do país, além de fábricas de cimento, de pneus. O líder era Alberto, mais  os irmãos João, Álvaro e Bento. Ligados aos Soares Sampaio havia Nelson Batista e Aloisio Salles, também com ligações com o grupo Moreira Salles.

Os três nomes femininos de maior destaque desse grupo eram Niomar Muniz Sodré, Rosalina Coelho Lisboa de Larragoitti e Adalgisa Néri. Havia representantes de multinacionais, como Sigmund Weiss, da Mannesman. Três outros big shots eram Samuel Wainer, Baby Bocaiúca Cunha e João Etcheverry.

O cronista encerrava sua relação com o o grupo Moreira Salles. Mencionava seu Salles, que fundou o banco. Depois, Walter que ampliou as atividades para os setores industriais, agrícolas, dono de uma liquidez monetária imensa, “grande arte da qual em dólares em bancos norte-americanos”.

Relatava o cronista que a última façanha de Walter foi o controle do Banco do Comércio. Eram pessoas ligadas ao grupo Eduardo Ramos (casado com uma filha de Antônio Prado Junior), diretor da Vidraria Santa Marina, Pedro de Perna, Aluisio Sales e Nelson Batista, além de San Tiago Dantas e outros “big shots” famosos.

Entravam, finalmente, os big shots da hotelaria, entre os quais os Guinle, Joaquim Rola, do Quintandinha, e Alberto Bianchi, dono de cassinos, inclusive em Poços, que se associou ao Cassino Atlântico. Rola era considerado por Assis Chateaubriand um dos dez homens mais importantes do país.

Do grupo dos intelectuais faziam parte Manuel Bandeira, Ciro dos Anjos, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, João Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes, Orígenes Lessa, os pintores Portinari, SantaRosa, Di Cavalcanti, os pintores, José Pancetti, Oscar Niemayer, Lúcio Costa. Entravam ainda os caricaturistas e humoristas Millor, Borjalo, Carlos Estevão

Os grandes anfitriões da cidade eram o casal Hubert Charles Bob Winans e Naná Dinah Winans, e sua casa no Largo do Boticário. Bob era de Boston, “horse-ligne” de lá, filho de diplomata e banqueiro, capitaneou seu grupo na Bélgica. No Rio, foi o intermediário do empréstimo que permitiu ao prefeito Antônio Prado Jr, arrasar com o morro do Castelo.

Sua casa era ponto obrigatório para visitantes estrangeiros. A Grã-Duquesa Maria, da Rússia, Lord Chancellor, da Inglaterra, o Secretário de Estado norte-americano Dean Acheson.

Os “big shots” paulistas se faziam de forma mais rápida, e por isso não tinham a tradição dos cariocas, dizia o cronista. Identificava quatro grupos de poder: a linha paulista quatrocentona, a linha paulista sírio-libanesa; a linha calabresa-italiana e a paulista-japonesa.

No primeiro grupo, dos quatrocentões, identificava os Silva Prado, Cunha Bueno, Almeida Prado, Alcântara Machado, Mesquita, Penteado e Alves de Lima. No grupo sírio-libanes, Jaffet, Kalil, Racy, Calfat, Maluf, Lutfalla. Dentre os calabreses-italianos, os Matarazzo, Morganti, Lunardelli, Milani, Capone, Pignatari. Chamava de notável a linha paulista-japonesa, mas informava estar concentrada em Marília, e por isso ter pouca visibilidade. Incluía ainda linhas auxiliares, armênios, como Gasparian, ou paulista-israelita, como Lafer, Klabin e Citron.

Em 1954 o maior pagador individual de impostos foi Sebastião Paes de Almeida, mineiro, presidente do Banco do Brasil e dono de empresas de vidro plano. Outras fortunas eram a dos Fontoura, de Nelson Caldeira e de Hélio Cássio Muniz de Souza, frequentador das rodas de Walter, cuja esposa Rosa Maria “Turquinha” Souza certa vez colocou o grande criminalista, futuro Ministro Saulo Ramos, para correr e esconder-se em um banheiro, por ter se apropriado de ações da Panair que eram de seu marido.

Os Jaffet eram descendentes do professor Nami Jaffet, emigrado sírio-libanes culto, que deixou o magistério pelas representações. Começou importando anilina. Depois, montou indústria têxtil, de minérios, sobretudo o manganês, e a navegação. Havia também os Souza Dantas, espalhados pelo Brasil inteiro, mas concentrados em São Paulo.

13 comentários

  1. Excepcional materia, mostra uma sociedade infinitamente mais sofisticada do que a de hoje, onde a elite é de executivos de multinacionais, advogados de bancas estrangeiras e operadores de mercado,
    zero de cultura, diversidade, charme.

  2. “Bob era de Boston, “horse-ligne” de lá, filho de diplomata e banqueiro, capitaneou seu grupo na Bélgica. No Rio, foi o intermediário do empréstimo que permitiu ao prefeito Antônio Prado Jr, arrasar com o morro do Castelo.”

    Nassif, o morro do Castelo foi eliminado pelo prefeito Pereira Passos, xará de meu pai, para a inauguração da Exposição Internacional de 1922.

    http://www.rio.rj.gov.br/dlstatic/10112/4204430/4101439/memoria_da_destruicao.pdf

    • Cara, Pereira Passos inaugurou a Av Central (atual Rio Branco), foi prefeito de 1902/1906. Sim, o Morro do Castelo foi arrasado no início da década de 20 (1922). O contexto aí trata de fim de 40/meados de 50 (uns 30/35). É possível a participação dele nesse processo do empreendimento do Morro do Castelo. Collor sofreu impeachment vai fazer 27 anos, parece ontem pra quem viveu aquilo.

    • Cara, Pereira Passos inaugurou a Av Central (atual Rio Branco), foi prefeito de 1902/1906. Sim, o Morro do Castelo foi arrasado no início da década de 20 (1922). O contexto aí trata de fim de 40/meados de 50 (uns 30/35). É possível a participação dele nesse processo do empreendimento do Morro do Castelo. Collor sofreu impeachment vai fazer 27 anos, parece ontem pra quem viveu aquilo. Pereira Passos morreu em 1913.

  3. Querem uma estória de faiglia recente?

    Essa de banqueiro ganhar um milhão da prefeitura em sorteio de nota fiscal……..banqueiro pedindo nota fiscal em compra na zona leste é bem intrigante……

  4. Querem uma estória de famiglia recente?

    Essa de banqueiro ganhar um milhão da prefeitura em sorteio de nota fiscal……..banqueiro pedindo nota fiscal em compra na zona leste é bem intrigante……

  5. O texto tem qualidades intrínsecas. Mas qual diversidade a que André Araújo se reporta. Para mim, a nomeação de famílias que sempre dominaram o país, que abriu espaço para as famílias de origem italiana, judaico e japonês.
    Aquele tempi não melhor do que hoje. Essas elites não se vêem no povo. Na verdade, detestam e têm vergonha do povo brasileiro.

  6. Por que “limar” do livro informações tão saborosas como esclarecedoras da cena do poder, em que personagens ícones de um extrato social pontificam, compondo o que se considera um momento glamouroso da ex-capital do país? Pena.

  7. “Povo de memória curta, esse é o João” — Millôr Fernandes

    Nassif: espero que essa seja a primeira série de algo que há muito cobro de você. Um “xadrez” da história desse sofrido País. Mãos à obra…

  8. Creio que boa parte dessa elite que detinha poder financeiro e político apoiou o golpe de 64. Sem dúvida essa elite é muito melhor que a que temos hoje, mas essa elite de outrora não conseguiu tornar o país um país menos injusto socialmente. Se comparado à copa do mundo, essa elite era equivalente a seleções que têm chance de passar da fase de grupo, mas no máximo chega, com um pouco de sorte, às quartas. A atual elite é uma seleção que será certamente a última de seu grupo e com grande chance de ser a pior da copa.

  9. Nassif, salvo engano Tristão da Cunha era fazendeiro mineiro, deputado federal onde fazia discursos radicais de natureza liberal. Era tão adepto de Adam Smith que até o Lacerda, pela direita, mas tem o Estado como referência abria discordância com ele. Nos diários do Congresso Nacional, com os relatos das sessões, de quando em vez Tristão aparecia com as sua teses (deputados de 55). Porém o mais interessante é que ele é o avô do Aécio Neves, a quem deu emprego num dos Conselhos da economia no governo Castelo Branco. Aécio estudava no Rio, mas “trabalhava” com o avô em Brasília.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome