Luiz Moniz-Bandeira, o historiador que narrou o mundo atual

Patricia Faermann
Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile, repórter de Política, Justiça e América Latina do GGN há 10 anos.
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A natureza humana é o conjunto das relações sociais historicamente determinadas, ou seja, um fato histórico verificável, dentro de certos limites, com os métodos da filologia e da crítica. Portanto, a ciência política deve ser concebida em seu conteúdo concreto (e também em sua formulação lógica) como um organismo em desenvolvimento. (GRAMSCI:1999)

Foto: Divulgação

Jornal GGN – Há um mês, lançava simultaneamente duas de suas grandes referências de autor em Portugal, no que se pode caracterizar como a análise mais apurada do momento histórico em que o mundo vive hoje. Geopolítica para alguns ainda é um conceito a se entender. Luiz Moniz-Bandeira o detalhou ainda em 1967, com “O ano Vermelho – Revolução Russa e seus Reflexos no Brasil”.

“A Desordem Mundial” foi lançado no ano passado, pela editora Civilização Brasileira no país, com mais de 600 páginas e, ao contrário do título, muita coerência para entender os tempos atuais. Moniz completava 80 anos quando lançou a obra no Brasil: uma investigação do domínio marcado pelos Estados Unidos, Rússia e outros desenvolvidos da Europa contra o Iraque, a Síria, do outro lado do Mar Negro a Ucrânia, e a Líbia na diagonal do Mediterrâneo.

Com exceção dos pilares EUA e Rússia, Iraque e Síria, à vista de outros cientistas políticos, outras federações no mapa não se conversam em determinados tempos ou contextos. Mas para Moniz-Bandeira sim, e muito. É que o princípio de Gramsci, de que a ciência política não prescinde da própria ciência histórica, une todas as dezenas de obras de Moniz.

Foi naquele ano também, no auge dos seus 80, que o cientista político trouxe ao GGN uma aula de conexões de países, com suas guerras em tempos distintos e histórias individuais, como encaixes logicamente perfeitos em um todo, páginas de um mesmo livro.

Da maneira mais resumida e objetiva possível – características que definitivamente não pertencem às qualidades de Moniz -, nos ensinou “da Primavera Árabe ao Brasil, como os Estados Unidos atuam na geopolítica“. Foi o título da entrevista concedida em quase duas horas, recortada pelo GGN em trechos de alguns minutos.

https://www.youtube.com/watch?v=ae2ZWI2XHtM height:394

Era uma demonstração da claridade de sua experiência, o que se seguiu até o último mês, quando ainda enviava por e-mail palpites de geopolítica e críticas ao golpe no Brasil. Lançou ainda em outubro deste ano os dois clássicos “A Desordem Mundial” e “A Segunda Guerra Fria” em Portugal.

Era professor ativo na Universidade de Heidelberg e de Colônia, a primeira da cidade onde era radicado e cônsul honorário do Brasil. Com o doutorado em Ciência Política pela USP, percorria também as Universidades de Estocolmo, de Buenos Aires, Córdoba, Brasília e Lisboa. Assim como ele, seus artigos não deixaram de percorrer o mundo, sobretudo pela imprensa alternativa.

Era aonde encontrava espaço para a sua intelectualidade ser correspondida. Não admitia paciência para os meios tradicionais, pelos quais compreendia perfeitamente que, assim como as demais peças, eram parte de um avanço estratégico de interesses de dominação em massa.

Uma das cabeças da Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop), formada em 1961 ao lado de outros militantes, era amigo de João Goulart, do qual o acompanhou em seu exílio no Uruguai, depois que o golpe derrubou o governo do presidente em 1964.

Nessa trajetória ao lado de Goulart, mergulhou por completo na história da América Latina, conhecendo o ex-presidente do Chile deposto pelo general Augusto Pinochet, Salvador Allende. Foi Moniz um dos primeiros cientistas a obter os documentos da CIA sobre o papel dos Estados Unidos nas ditaduras locais.

Um dos resultados daquele encontro que teve com Allende, nove anos depois deposto, e os documentos da Agência Central de Inteligência norte-americana foi a publicação do livro “Fórmula para o Caos – A Derrubada de Salvador Allende 1970-1973”, publicado no Brasil e Chile simultaneamente em 2008.

A análise inédita do processo que levou à queda do governo democrático de Allende, com a conspiração da CIA com os grupos de extrema direita e com os militares e oposição, não foi recebido com consonância no país ainda arraigado em costumes e culturas herdadas dos 17 anos de ditadura e influência norte-americana.

A Fórmula para o Caos não era só título, foi decifrada por Moniz-Bandeira: era uma estratégia da CIA, aplicada antes em outros países da América Latina, mas que só obteve quase a perfeição no Chile. Baseado no extremo pânico e desordem nacional, a população se sentiria acomodada com a atuação “obrigatória” das forças armadas para evitar uma guerra civil. A visão de Moniz ainda se nota nos receios e temores da população chilena, marcada pelas heranças do período ditatorial.

Com a minha vinda para o Chile, a religiosa fonte em temas de geopolítica abarcou espaço para a amizade. Além dos cotidianos e-mails de palpites dos fatos críticos e de preocupação compartilhada na nossa terra natal, os finais das entrevistas deixavam alguns bons minutos para temas particulares.

Em uma delas, Moniz me pediu que intermediasse a publicação de um de seus livros aqui, “A Segunda Guerra Fria”. Após alguns contatos, as crises econômicas que afetaram as editoras da Argentina mostraram ter contagiado o país fronteiriço. Uma delas ofereceu de fazer a publicação fora da programação fechada pelo ano anterior, mas com um aporte externo.

“Nem pensar”, respondeu, sem titubear, lembrando que em março deste ano saiu a edição em inglês do livro, em agosto passado em alemão, e também na Inglaterra, Austrália e países angófonos. Enquanto o Chile quisesse esperar, a “Segunda Guerra Fria” promovia a terceira edição pelo mundo, assim como “A Desordem Mundial”.

Naquele início de 2017, o Chile já perdia Moniz.

“Quando puderes, me chame por Skype”, dizia Moniz, com a minha arrependida postergação diante da necessidade de livres mínimas três horas de conversa, antes da sempre despedida de “abraço afetuoso”.

 

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile, repórter de Política, Justiça e América Latina do GGN há 10 anos.

4 Comentários

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  1. Mais um ilustre brasileiro,

    Mais um ilustre brasileiro, patriota e nacionalista que se vai, sem que a a grande maioria da população desse país sequer o conheça. Num país onde se prende o maior cientista de sua história para atender a interesses de outros, não se admira que a mídia perversa sequer, toque no nome de alguém que é reconhecido praticamente no mundo inteiro e que busca em outros povos o reconhecimento das suas obras. Os livros do Dr. Luiz Alberto Moniz Bandeira, deveria ser lido por cada brasileiro, para que esse país entendesse a quem os seus governantes servem, a que interesses eles atendem, quem é o grande dominador, que dissemina o ódio, as guerras, a desordem e finge ser juiz e polícia do mundo. Infelizmente, a perda é enorme, que venha outro, com a mesma visão e capacidade de nos manter informados sobre toda essa engrenagem que gira o mundo e que atende a interesses que em sua grande maioria não é o mesmo dos mais de sete bilhões que habitam esse planeta.

  2. Mais uma triste notícia.

    Moniz Bandeira era necessário hoje para que se possa pensar no amanhã. Seus livros jogam uma luz sobre tudo o que está acontecendo. Lendo seus livros se pode perceber que este golpe que aqui ocorreu, tem motivações geopolíticas muito fortes. E também não foi o unico golpe. Das primaveras coloridas às primaveras arabes, da Cartilha Sharpe, para tomadas não violentas de poder e  golpes judiciários,  a formação de pequenos grupos como o mbl, a preparação da quinta coluna, a utilização de protestos. Tudo isto está la em seus livros. A continuação de seu trabalho seria inestimável. A morte inevitável, mas alguns vão antes do que deviam.

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