10 de junho de 2026

O dia em que quase me tornei crítico de arte, por Luis Nassif

Geraldo Mayrink, editor de Artes e Espetáculos de Veja, incumbiu-me de cobrir uma exposição do futurista italiano Tommaso Marinetti 

Para mim não foi muito difícil assimilar o estilo Veja. Já durante os três meses de estágio deu para assimilar o estilo.

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O texto deveria ser enxuto. O grande padrão de texto enxuto da revista era Matsumoto, com menos molho, e José Ramos Tinhorão, com sua incrível capacidade de ser ferino em poucas linhas, tornando a seção Gente uma atração à parte.

Mas tinha que ser salpicado por adjetivos. Com o tempo a adjetivação tornou-se uma praga, praticada especialmente pelos redatores menos talentosos. Alguns deles se especializaram em lides enormes, sub-literários.

Para cada área havia um conjunto de termos, de formas de escrita e de análise que compunham um padrão. Para fazer carreira, bastava entender o padrão.

Na parte de música, eu já dispunha de um bom conhecimento. Meu período de compositor, ainda em Poços, me ajudou a ter bom discernimento para entender as nuances da composição, dos arranjos, e do que se convencionava chamar de “bom gosto” musical.

Mas tive dois professores inestimáveis: o crítico Tárik de Souza e o Tinhorão, ambos envolvidos com os fascículos de música popular da Abril, que marcaram época e abriram um enorme leque de conhecimento dos grandes compositores brasileiros.

De Tárik recebi boas lições. O papel do crítico não é dizer o que é de bom ou de mau tom, mas entender o que faz cada tipo de intérprete a sensibilizar seu público.

Por conta disso, uma das pautas que me incumbiu de fazer foi o da “músicas da zona”, para quebrar a fantasia de que na zona só se tocava Waldick Soriano.

Comecei com a boate Las Vegas, em Santos, passei pela Paraguaia, em Viracopos e terminei na Jovita, em Poços.

Em Santos, a reportagem quase me custou o noivado. A noiva tinha se mudado para lá com o pai e se tornara professora de uma escola de São Vicente, aliás de um Frahya, amigo da família. Me acompanhou na reportagem no Las Vegas. Com a casa lotada, ficamos de pé no balcão. Quando começou o strip tease, um holofote nos pegou em cheio e, do fundo do salão se ouviu um:

— Professooooooora!

Pelo menos aqui no sudeste, Amado Batista e Luiz Ayrão eram mais requisitados que Waldick.

Mas a prova do pudim para meu conhecimento sobre receita do bolo do “padrão Veja” foi quando Geraldo Mayrink, editor de Artes e Espetáculos, incumbiu-me de cobrir uma exposição do futurista italiano Tommaso Marinetti. 

Não tinha o menor conhecimento sobre artes plásticas. Mesmo assim, me tranquei no Dedoc (Departamento de Documentação) por dois dias, lendo todos os livros de história da arte que passavam pela minha frente, absorvendo os maneirismos, as formas de analisar a obra. E apliquei o conhecimento recém adquirido na reportagem.

Entreguei ao Mayrink que entregou ao Mino. Amante das artes e italiano, Mino jamais permitiria que saísse uma crítica sobre um conterrâneo sem passar pelo seu crivo.

No dia seguinte, chego na redação e encontro Mayrink com ar divertido. 

— O Mino quer falar com você.

— Comigo?

A redação tratava a sala do Mino como cenáculo. Havia um clima de quase veneração genuína dos jornalistas por ele. Entrar no cenáculo era uma honra permitida a poucos.

— O que ele quer comigo?

E Mayrink, com ar divertido de quem captara minha esperteza:

— O cargo de redator de Artes está vago.

Nem me lembro se me benzi ao entrar pela primeira vez no cenáculo. Mas procurei ser o mais sincero e objetivo possível. Aliás, excessivamente sincero:

— Mino, para ser sincero, não entendo nada de arte. O que fiz foi ler alguns livros de arte para tentar entender como são feitas as críticas. Mas não tenho o menor conhecimento de história da arte nem noção sobre o que é bom ou ruim em arte.

Fui liberado. Pouco tempo depois, a vaga foi preenchida por um crítico de verdade, Olívio Tavares de Araújo.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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3 Comentários
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  1. José de Almeida Bispo

    3 de setembro de 2022 8:22 am

    ‘Ma’ repara para a pose do velho e saudoso Waldik!!!
    Pura birra, asseguro. É impensável isso “de coração” em alguém que, sempre ao chegar à minha cidade para um show, justo pelos 70, pegava o também saudoso Zé Gorducho e ia fazer um pequeno esquenta pelos cabarés da então minúscula cidade.
    O Waldir era uma onda!
    Kkkkkkkkkk

  2. José de Almeida Bispo

    3 de setembro de 2022 11:00 am

    Em tempo: o Hummmmm Professoooora… foi demais! Kkkkkkkkkkkk

  3. jose carlos lima

    4 de setembro de 2022 12:11 am

    Gabriel, cumé?

    O que o Nassif faz é o contrário do que faría um narcisista patológico…

    ….onde vc viu que Nassif se autoelogia?

    Pelo contrario: ele se diz leigo e não entendedor de arte.

    ..
    Ve se aprende a intrrpretar texto

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