17 de junho de 2026

Vítima da farsa sobre a morte de JK, Josias morre antes de receber reparação

Comissão reconheceu que ex-motorista carregou por 50 anos uma acusação falsa criada para encobrir crime da ditadura.
Josias Oliveira. | Foto: Guilherrme Bergamini/ALMG

▸ Josias Nunes de Oliveira, ex-motorista da Viação Cometa, faleceu aos 82 anos em Indaiatuba, SP.

▸ CEMDP reconheceu que morte de JK foi violência política e preparava pedido público de desculpas a Josias.

▸ Oliveira foi acusado injustamente, recusou suborno, e sofreu isolamento; reparação será entregue à família.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) informou o falecimento, ocorrido na terça-feira (16), de Josias Nunes de Oliveira, aos 82 anos. O ex-motorista da Viação Cometa foi sepultado nesta quarta-feira (17), em Indaiatuba, interior de São Paulo. Por cinco décadas, Oliveira carregou o estigma de ter sido o suposto causador do acidente automobilístico que resultou na morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek, em agosto de 1976, na Rodovia Presidente Dutra.

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A morte de Oliveira ocorre menos de um mês após o colegiado federal reconhecer, em 29 de maio de 2026, que a morte de JK não foi acidental, mas um ato de violência política decorrente da repressão ditatorial. A comissão preparava uma solenidade para formalizar um pedido público de desculpas ao ex-motorista, reparação histórica que ele não chegou a receber em vida.

O senhor Josias foi vítima de um dos casos mais terríveis de violência institucional cometida pelas Forças Armadas”, declarou ao GGN a Procuradora regional da República, Eugenia Augusta Gonzaga, presidente da CEMDP.

A farsa da colisão e a recusa da propina

O episódio que transformou a vida de Oliveira ocorreu na altura de Resende (RJ), quando o Opala em que viajavam o ex-presidente e seu motorista, Geraldo Ribeiro, colidiu frontalmente com um caminhão. A versão oficial fabricada pelo regime militar apontava que o ônibus conduzido por Oliveira teria batido na traseira do veículo de JK, fazendo-o perder o controle.

Investigações posteriores e comissões da verdade comprovaram que a colisão traseira jamais existiu. Em depoimentos prestados ao longo dos anos, Oliveira relatou o drama que enfrentou nos dias subsequentes ao desastre, incluindo uma tentativa de suborno para que assumisse a autoria do crime.

Dois homens foram à sua residência, em São Paulo, e ofereceram uma mala de dinheiro para que confirmasse a versão oficial. Ele recusou a proposta. Embora tenha sido absolvido pela Justiça Criminal ainda em 1978, o silêncio e a censura impostos pela ditadura perpetuaram a calúnia na opinião pública.

Isolamento e o peso da injustiça

As consequências da acusação fraudulenta inviabilizaram a continuidade da trajetória pessoal e profissional de Oliveira. Alvo de hostilidades e sob forte pressão psicológica, ele se desligou da empresa de transportes cinco anos após o acidente, separou-se da família e desenvolveu quadros graves de saúde que culminaram em sua aposentadoria por invalidez.

O reconhecimento de sua integridade e a desmistificação do caso ganharam força institucional a partir de 2013, com depoimentos prestados às Comissões da Verdade de São Paulo e de Minas Gerais. À época, órgãos de direitos humanos já pleiteavam a retificação de sua aposentadoria e o reconhecimento de que Oliveira fora mais uma vítima do aparelho de Estado.

A CEMDP reiterou que o falecimento do ex-motorista não encerra as obrigações de reparação histórica por parte do Estado. O pedido formal de desculpas será concluído e entregue aos familiares de Oliveira.

Leia abaixo a manifestação da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos na íntegra:

NOTA DE PESAR: REPARAÇÃO E MEMÓRIA A JOSIAS NUNES DE OLIVEIRA

“A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) manifesta seu mais profundo pesar pelo falecimento, ocorrido na data de hoje, do senhor Josias Nunes de Oliveira. Neste momento de dor, expressamos nossa total solidariedade e sinceras condolências aos seus familiares, amigos e a todos que testemunharam sua longa e penosa jornada.

O senhor Josias carrega em sua biografia o peso de uma das maiores e mais cruéis injustiças da história recente do país. Motorista de um ônibus da Viação Cometa, em 1976, ele foi falsa e injustamente apontado como o responsável por uma colisão na traseira do veículo de Juscelino Kubitschek, a qual teria levado ao acidente que vitimou o ex-presidente. Porém, encontra-se fartamente provado que essa colisão traseira jamais aconteceu e que o acidente que levou à morte de JK decorreu da ação do Estado ditatorial.

Embora Josias tenha sido plenamente absolvido pela Justiça Criminal em 1978, esse fato fundamental permaneceu abafado pelo manto do silêncio, da censura e da produção de versões fraudulentas da época. Assim, por décadas, Josias Nunes de Oliveira sofreu o impacto devastador de uma calúnia que marcou sua vida pessoal e profissional. A dor de ter sido marcado pelo estigma de uma culpa que nunca foi sua é o reflexo de um período em que a verdade foi intencionalmente distorcida.

Após declarar, em 29 de maio de 2026, que a morte do senhor Juscelino Kubistchek foi “não natural, violenta, causada pela perseguição política perpetrada durante a ditadura militar”, esta Comissão preparava as medidas institucionais necessárias para formalizar um pedido público de desculpas direcionado pessoalmente ao senhor Josias. É com os sentimentos de tristeza e frustração que recebemos a notícia de sua partida antes que esse ato de justiça pudesse ser entregue a ele em vida.

Contudo, a ausência física do Senhor Josias não encerra o dever histórico de reparação. A CEMDP reafirma seu compreensivo compromisso intransigente com a verdade e garante que o pedido de desculpas será devidamente oficializado e entregue à sua família.

A história do Brasil deve, por memória, verdade e justiça, registrar o nome de Josias Nunes de Oliveira como um homem íntegro que foi, na realidade, vítima do silenciamento opressor do Estado e das falsas versões arquitetadas para encobrir os crimes praticados pela ditadura civil-militar.

Que descanse em paz, finalmente reconhecido e livre do fardo da injustiça.”

Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos

16 de junho de 2026

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Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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