A ideia da polarização: Para a mídia, Lula e Bolsonaro se equivalem, por Eliara Santana

A construção desse ideário leva a uma espécie de “inferência coletiva” (simbolicamente construída e trabalhada, claro) de que, se Bolsonaro hoje fala coisas estúpidas (cloroquina - tubaína) – e isso não é mais passível de ser ocultado -, Lula também fala.

A ideia da polarização: Para a mídia, Lula e Bolsonaro se equivalem

por Eliara Santana

Desde a campanha eleitoral de 2018, a mídia – e aqui destaco o JN e a Folha de São Paulo – trabalharam estrategicamente a concepção de que Lula e Bolsonaro estavam em polos do mesmo campo democrático, igualmente radicais, cujas candidaturas prejudicavam o país exatamente por isso.

Essa ideia ganhou novos matizes ao longo do governo Bolsonaro, que veio se esfacelando, e à medida que o Intercept mostrava todas as articulações da justiça morista na Lava Jato (ou seja, Lula se fortalecia). Um exemplo para a gente ver como essa ideia se constrói midiaticamente:

Na edição de 19/08, sobre as grandes queimadas na Amazônia, o JN diz que Lula, tal qual Bolsonaro, também já havia retrucado outros países que faziam recomendações sobre a Amazônia.

Não há qualquer contextualização, apenas a fala de ambos, recortada, editada, enquadrada. Não há qualquer menção à discrepância das políticas ambientais dos dois governos.

Há apenas o anúncio de Bonner:

“Quando a Alemanha e a Noruega anunciaram a suspensão do envio de recursos para a proteção da floresta amazônica, o presidente Jair Bolsonaro repetiu uma postura que o então presidente Lula adotava quando estrangeiros criticavam a política ambiental do Brasil. Os dois presidentes afirmaram que a Europa destruiu todas as suas florestas e que por isso não tem moral para dar conselhos sobre a Amazônia”.

Há uma referência constante ao suposto elo entre os dois “pólos”, que se equivalem nos prejuízos ao país. “Jair Bolsonaro REPETIU uma postura”. Ponto

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A construção desse ideário leva a uma espécie de “inferência coletiva” (simbolicamente construída e trabalhada, claro) de que, se Bolsonaro hoje fala coisas estúpidas (cloroquina – tubaína) – e isso não é mais passível de ser ocultado -, Lula também fala. Ou seja, dois polos que prejudicam o país. Essa é a ideia principal que precisa ser consolidada num momento em que o governo de ogros se desfaz. E não interessa o outro lado tentar explicar que as falas são descontextualizadas, que Lula não quis dizer isso ou aquilo. A polarização como ideia será fortalecida, pois, como lembrou Eni Orlandi, as interpretações produzem fatos. A mídia sabe fazer isso com perfeição e não curte muito Luís Inácio. É disso que se trata. E é preciso ter consciência disso.

Vivemos uma experiência que é simbólica, num momento dramático para o país. O que interessa é a construção da cena, a ressignificação do que foi dito, a dramatização, a mobilização política da palavra (como já dizia Pêcheux). Sigamos.

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4 comentários

  1. Pois é. Em 2 pequenas palavras, “ainda bem…”, Lula põe tudo a perder. Vão usar isso por 100 anos. Por essas ingenuidades é que perdemos energia vontade, sabe? Cansa tbm

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  2. Embora possamos suspeitar que a frase que deveria ter sido dita era algo como “… precisa ocorrer uma pandemia para que …”, ao invés de “ainda bem que”, o fato é que o Lula escorregou feio nas palavras (e só quem fala está sujeito), dando farta munição ao tema deste post.
    Será enfaticamente tratado com “igual” (com sinal trocado) ao adolinquente no desprezo e uso político da pandemia.
    O “sistema” antipetista (ou antilulista) jamais perde(rá) uma oportunidade sequer de desconstruir e tentar enterrar o “inimigo mortal”.
    A intenção é arrasar para a História e jogar sal em cima para que jamais “rebrote algo parecido”.
    Os deuses do monte Olimpo, lá no norte, comandando a escória da merdiocrelite aqui no sul estarão sempre empenhados nisso.
    O pior é que nem precisam sujar as mãos, já que seus terceirizados locais o fazem com muito gosto.
    Enquanto tivermos um “nãopovo” que consiga alcançar a consciência de sua nacionalidade e esta “nãoelite” que explorará, predará, entregará e esgotará a parte física (o pais geoeconômico) desta riquíssima nação sempre do futuro, “isto aqui ô, ô”, será o que sempre foi em mais de 5 séculos.
    E olha que depois destes 5 séculos, ainda sobram mais riquezas para seu povo se beneficiar do que para mais de 90% dos países do planeta!
    Tirando o pau que nos deu o nome (paradoxalmente esgotado), ainda podemos usufruir do resto
    Mais a velocidade de exploração hoje é altamente tecnológica, 4G, 5G…
    E nós nem chegamos no “ponto G”.
    Quanto tempo nos resta até que tudo se acabe?

    PS: Lula precisa vir a público desculpar-se e esclarecer sua fala para não alimentar mais os leões.

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