Da Rede Brasil Atual
Aliança entre mídia e setores do Judiciário é ‘escandalosa’ e ameaça direitos
Por Eduardo Maretti
A recente influência dos meios de comunicação em decisões judiciais – fenômeno cujo maior símbolo é o julgamento da Ação Penal 470, o chamado mensalão – é decorrência direta do sensacionalismo televisivo em torno dos julgamentos criminais aliado à tendência de se considerar alguns direitos fundamentais como obstáculo à eficiência do Judiciário em punir. Segundo operadores do Direito ouvidos pela RBA, essa receita ameaça seriamente esses direitos, conquistados a duras penas no século 20.
Na semana passada, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, suspendeu uma decisão do ministro Ricardo Lewandowski que determinava à Justiça do Distrito Federal a análise de pedido de trabalho externo feito pelo ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu, condenado no julgamento do mensalão. Antes, o pedido de análise do benefício, pela defesa de Dirceu, havia sido suspenso pela Vara de Execuções Penais do Distrito Federal com base em nota do jornal Folha de S. Paulo de 17 de janeiro, considerada depois inverídica por investigações do Núcleo de Inteligência do Centro de Internamento e Reeducação do sistema penitenciário.
O ex-ministro cumpre pena em regime fechado, embora tenha tenha direito ao regime semiaberto porque sua pena, de sete anos e 11 meses até aqui, é inferior ao tempo mínimo de regime fechado, de oito anos.
“O Judiciário hoje se encontra numa encruzilhada entre a origem aristocrática de um poder encastelado, que nasceu comprometido com a manutenção do status quo e, por outro lado, o que se tem chamado de ‘tentação populista’: dar respostas que agradem aos meios de comunicação de massa”, afirma o juiz da 43ª Vara Criminal do Rio de Janeiro Rubens Casara. “Existem alguns sintomas desse movimento em decisões recentes”, acrescenta o magistrado, membro da Associação Juízes para a Democracia.
“Considero grave a influência da mídia sobre o Poder Judiciário, e nos processos criminais isso se dá inclusive em função do fato de os julgamentos do Supremo serem televisionados”, avalia o advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay. Para ele, o acesso do público à TV Justiça tem importância “enorme”, por dar transparência a questões judiciais. “Mas nunca em processos criminais. Esse excesso de exposição que se faz dos processos criminais é algo absolutamente escandaloso.”
Para Casara, é “extremamente perigoso” que uma maioria formada pelos meios de comunicação influencie decisões judiciais. “Porque o Judiciário democrático, ou pelo menos nas democracias, é contra-majoritário. Isso significa que ele tem que decidir contra a opinião pública, contra a opinião publicada, se isso for necessário para assegurar os direitos fundamentais.”
Segundo o magistrado, veículos de imprensa tendem atualmente a ver direitos fundamentais, à ampla defesa e ao devido processo legal, por exemplo, como se fossem obstáculos a uma eficiência “punitivista”, ou seja, a uma punição rápida e exemplar. “Mas são conquistas da humanidade, muita gente morreu para que esses direitos fundamentais hoje estivessem positivados. Eles têm de ser respeitados mesmo que isso desagrade à opinião pública, que muitas vezes é forjada na desinformação, segundo determinados interesses muito bem identificáveis.”
Kakay concorda que os interesses pairam no ar. “Existem setores da mídia que obviamente têm interesses específicos em alguns julgamentos e fazem acordo com pessoas do Judiciário, de forma geral. As coisas não são desconectadas.”
Transmissões ao vivo
“O Brasil é o único país importante do mundo que transmite ao vivo as sessões de sua Suprema Corte. Nos Estados Unidos, por exemplo, só se divulga o resultado. Na Europa há uma série de restrições para coibir o sensacionalismo em torno dos julgamentos criminais”, lembra o advogado Luiz Fernando Pacheco. “Essa cobertura massiva do julgamento criminal influencia os próprios juízes e o resultado do julgamento.”
“Julgar um processo criminal ouvindo ‘a voz das ruas’ é um estupro constitucional, um atentado à Constituição e ao Estado democrático de Direito”, diz Almeida Castro. “O processo criminal se faz com base em prova produzida, não em cima daquilo que a imprensa ou quem quer que seja está dizendo que é.”
Na visão dele, diferentemente do Ministério Público, que tem “obrigação” de investigar as notícias divulgadas na mídia, o Judiciário não pode se manifestar de uma forma concreta com base em notas de jornal. “Principalmente restringindo direito de alguém, sem que se tenha uma investigação séria.”
Soluções?
Os advogados veem algumas possibilidades contra a tendência atual. “Nos Estados Unidos, em 1991, o sobrinho do ex-presidente John Kennedy, William Kennedy, estava sendo acusado de estupro e havia uma pressão da mídia muito forte pela condenação. A pressão foi tão grande que o julgamento foi suspenso até que os ânimos se acalmassem, e ele foi absolvido no final. Essa é uma medida”, acredita Pacheco.
Para Almeida Castro, além do debate, o próprio tempo pode ajudar a corrigir as distorções. “Os erros foram tantos que algumas pessoas que se julgavam heróis já estão hoje sendo olhadas pela sociedade com certa ressalva. Ninguém é dono da verdade, ninguém pode atuar como se fosse o único ator do estado democrático de direito. A vida dá voltas. Um dia isso pode bater do outro lado”, prevê.
Agravo
O presidente nacional do PT, Rui Falcão, protocolou quarta-feira (19) agravo regimental no STF no qual reafirma o pedido para que o ministro Gilmar Mendes se explique sobre as declarações à imprensa nas quais insinua haver lavagem de dinheiro, pelo PT, nas “vaquinhas” feitas por familiares e amigos dos condenados na AP 470 para o pagamento das multas decorrentes do julgamento.
A ação se dirige ao ministro Luiz Fux, que negou ao partido o primeiro pedido de explicações de Mendes em juízo, há duas semanas. No novo pedido, o presidente do PT pede que a análise seja feita pelo plenário do STF.
Na decisão contestada, Fux, relator do caso, não reconhece a legitimidade da direção do PT para ingressar em juízo em nome dos filiados. “O diretório nacional do Partido dos Trabalhadores tem, sim, legitimidade ativa para ingressar com a presente Interpelação Judicial Criminal”, contra-argumenta o partido no agravo. Segundo a sigla, a interpelação criminal judicial é providência de quem se sente moralmente afetado pelas declarações dúbias, e a pessoa jurídica tem “honra objetiva”.
Cristiana Castro
22 de fevereiro de 2014 3:14 amÉ isso aí tá virando galhofa,
É isso aí tá virando galhofa, já! A mídia tá tão ousada que manda prender e depois os ministros que saiam correndo para providenciar os mandados… Todos do núcleo político foram presos pela mídia, e a PF não podia fazer nada pq não havia nada, nenhum documento, papel amassado ou bilhete no sentido das prisões. Foi assim com JD, JG e Delúbio; depois com JPC, a mídia deu voz de prisão ao condenado e o Ministro viajou… E, agora, Bob Jeff…. A Globo mandou recolher o cara as cinco horas da tarde e até agora, ninguém sabe nada. A PF tuitou alertando aos jornalistas que não sabia de nada. Ou seja a TV prende e o TT avisa que não é bem assim… Como diria Gilmar Mendes… O que fi-ze-ram com o Su-pre-mo Tri-bu-nal Fe-de-ral???? Ou o Tofolli… estão a brincar com o Poder Judiciário….
nilccemar
22 de fevereiro de 2014 5:48 amSão duas coisas diferentes
Tem duas coisas diferentes ai. Uma coisa é a transmissão dos eventos pelo canal do Judiciário, outra é a cobertura e influência da midia comercial sobre os fatos. Considero grande avanço os julgamentos serem transmitidos ao vivo. A rigor, esses eventos são públicos. Pode-se, perfeitamente, assistir um julgamento pelo JURI in loco por exemplo, sendo inibido só pela falta de espaço. Agora, os juizes é que tinham que manter autonomia e decoro. É um comportamento que lhes deve ser cobrado. Muitos conseguem. Não vi que a maioria tivesse sido influenciada pelas transmissões, apenas as mesmas vedetes de sempre: Gilmar Mendes e Marco Aurélio de Mello, e revelaram-se Fux e JB, só esses quatro se influenciaram. Todos outros me pareceram discretos e comedidos, embora a maioria tivesse se influenciado, e até subjulgado pelas propagações da midia anteriores e contemporâneas ao evento. Creio que Lewandowski e Zavaski, e, possivelmente, Celso de Mello não sofreram muita influência nem das transmissões, nem das propagações midiáticas,
MThereza
22 de fevereiro de 2014 12:59 pmToda vez que se encontra uma
Toda vez que se encontra uma solução fácil para um problema complexo, a coisa desanda. A transmissão de julgamentos, ao vivo, principalmente os de grande apelo junto à sociedade, previamente insuflado pela mídia, é um exemplo, a meu ver. A título de “transparência”, o que se vê é a exposição das pessoas acusadas, mas também de advogados e juízes, cada um com seus interesses. JB, Fux, Marco Aurélio e Gilmar são apenas as estrelas mais fulgurantes do espetáculo. Mas creio que todos os outros, de um modo ou de outro, também quiseram “aparecer”. A própria discrição de Rosa Weber, por exemplo, pode ser apenas timidez diante das câmeras e microfones, o que não a impediu de dizer aquela frase inesquecível. Para quem ela quiz se mostrar inteligente, culta, teoricamente embasada? Foi a oportunidade dela ser mencionada, sem precisar sair falando pelos cotovelos como os outros “astros”. As sessões são públicas, vai quem quer ou tem interesse direto no assunto. Acho difícil que os juízes – pessoas comuns, com suas vaidades, temores – possam manter decoro e isenção frente a cobrança por sentenças e penas, sejam quem forem os acusados.
Dulce (Madame X)
22 de fevereiro de 2014 11:38 amA deusa “Thêmis” “balançando
A deusa “Thêmis” “balançando a bundinha” ao vivo e a cores…todos os dias. Isso, A JUSTIÇA DO BRASIL NÃO MERECIA. Nem os brasileiros.
Quando a justiça fica DESACREDITADA…não existem ganhadores, e nós chegamos ao fundo do poço!
MThereza
22 de fevereiro de 2014 12:43 pmSobre isso tem um artigo do
Sobre isso tem um artigo do Fernando Brito, no Tijolaço. O resumo é que nosso judiciário voltou à idade média, com a sanha de prender todo mundo, quando os Estados mais modernos buscam outras maneiras de punir. Mas, o judiciário não se preocupa com isso. Nem em incrementar os mutirões para regularizar a situação de centenas de pessoas que estão presas sem julgamento, que já cumpriram as penas, que estão cumprindo penas em regimes diferentes dos determinados. Os mutirões nem precisariam existir, se a justiça fosse ágil e correta lá no começo, o que também deveria ser preocupação do judiciário. Mas isso não rende os holofotes desejados, nem as manchetes escandalosas. São poucos os “famosos” nessas situações.
Fernando R.
22 de fevereiro de 2014 12:51 pmO problema nao eh a TV
O problema nao eh a TV Justica, mas sim a qualidade dos juizes. Com joaquim & gilmar, nao medida que seja solucao