
Os robôs teleguiados por Carlos Bolsonaro espalham no Twitter e no Facebook que Jair Bolsonaro fez um discurso histórico. Entretanto, a fala dele na ONU tem todas as características de um discurso histérico.
Na verdade, o discurso de Bolsonaro se caracteriza pela negação.
O presidente brasileiro negou o principal valor da democracia ao atacar ferozmente Emmanuel Marcon e o chefe Raoni; negou o fim da Guerra Fria ao sugerir que o Brasil estava sendo dominado pelo comunismo; negou os direitos atribuídos aos índios pela CF/88 ao insinuar que eles não são brasileiros; negou que os fanáticos ligados a ele incendiaram a Amazônia; negou que o Itamaraty se tornou um puxadinho do Departamento de Estado Americano e, portanto, que ele cedeu uma parcela da soberania do Brasil aos EUA; negou o direito das outras potências de demonstrar qualquer preocupação com a Amazônia e com o bem estar dos índios; negou a ciência ao afirmar que a Amazônia não é o pulmão do mundo e; negou que pretende assumir qualquer compromisso específico com os direitos humanos, com a tolerância racial e política e com a proteção da Natureza.
Bolsonaro é habitado por um espírito de negação. Nenhuma palavra que ele disse na ONU pode ser considerada verdadeira. A reação ao discurso dele foi bastante previsível, mas eu gostaria de falar aqui do aspecto que mais me impressionou.
Não concordo com uma palavra sequer que foi dita pelo presidente brasileiro, mas sou obrigado a admitir uma coisa: ele falou com firmeza e desenvoltura. Bolsonaro parece estar convencido da veracidade do discurso que ele proferiu. O tom usado sugere um compromisso de ‘vida e morte’ com tudo o que foi enunciado.
O perigo que Bolsonaro representa para o Brasil e para o mundo ficou evidente. Ele é um fanático que se comporta como se fosse eleito por Deus. Hoje Jair Bolsonaro proclamou ao mundo verdades que considera irrefutáveis e que não devem ser desafiadas. Ao discursar na ONU ele usou uma expressão facial dura, incapaz de transmitir qualquer empatia. Enquanto falava ele olhava para o infinito. Dominadas mais pela emoção do que pela razão, as palavras e a performance lembraram muito mais as dos líderes que destruíram a Europa nos anos 1930/1940 do que as daqueles que construíram o mundo no pós-guerra.
A irracionalidade predomina como modalidade retórica no discurso feito por Bolsonaro na ONU. Ele defendeu apaixonadamente o golpe de 1964 e a ditadura militar que perdurou até a promulgação da CF/88, mas afirmou que sob seu governo um “novo Brasil” viu ao mundo. Ele também disse que os índios não querem ser latifundiários pobres, mas disse que as terras deles são muito ricas.
Ao se ligar diretamente ao poder ditatorial instaurado em 1964, Bolsonaro rejeitou a origem constitucional do mandato presidencial que recebeu do povo brasileiro sob a vigência da CF/88. Ao chamar os índios de latifundiários ele omitiu que no Brasil os índios tem apenas a posse de suas terras tradicionais. Os indígenas não podem vendê-las como se fossem proprietários delas. Ao discursar na ONU, nosso presidente rejeitou de maneira enfática os pilares essenciais do Direito Público e do Direito Privado no Brasil: o voto popular como fonte do poder; a distinção entre posse e propriedade.
Não vou aqui comparar Bolsonaro a Lula ou a Dilma Rousseff. Eles não merecem ser rebaixados ao nível do tirano. Todavia, quem quiser perceber claramente o quanto Bolsonaro se distanciou da civilização brasileira deve apenas assistir o Roda Viva com Flávio Dino https://www.pscp.tv/w/1mrGmrDqMONJy.
A edição nº 3.104 do jornal Metro, distribuído gratuitamente na capital paulista, “normalizou” o discurso bestial que Jair Bolsonaro fez na ONU. O ódio dele aos índios, à liberdade de imprensa e de consciência se tornaram virtudes. Esses jornalistas estão brincando com fogo e acabarão sendo queimados. Senão por Bolsonaro pelos inimigos externos e internos que ele está criando para poder transformar a América Latina numa terra de ninguém entre campos inimigos irreconciliáveis.
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