O ódio de classe e o pão com mortadela.

Respondendo a uma provocação na rede social, que me ordenou: “vai comer pão com mortadela e fazer protesto na Paulista”, emendando em tom de sentença: “a CUT, MST e o PT acabaram”, respondi:

O PT não é dessas legendas de aluguel que muda de nome, cor ou símbolo, para tentar se livrar de problemas e o Lula nunca mudou de cara, é o mesmo desde sempre, reconhecendo as suas origens e consciente como ninguém do seu papel na história. Lula é o cara!

O problema político no nosso país, não acabou e dificilmente acabará, mas vamos ter condições mínimas de ser uma nação melhor quando vier à tona, em breve, espero, as respostas das seguintes perguntas: quem matou a Marielle? Onde está o Queiroz? Quem alimenta as milícias e o tráfico nesse país? Entre outros questionamentos que possuem óbvias respostas, que de tão óbvias precisam ser repetidas em forma de mantra todos os dias para que não esqueçamos que Tiradentes foi morto e esquartejado, milhares de judeus foram assassinados no holocausto nazista, Mandela foi preso e torturado, escravos vieram para o Brasil e eram comercializados, conduzidos em navios “negreiros”, em condições desumanas, o que ocasionou no sepultamento de muitos em águas profundas, pois, sequer conseguiram chegar ao seu destino.

A CUT segue fazendo à luta, como fez um belo ato na Paulista (03/02/2020), contra esse governo nefasto que destrói direitos dos trabalhadores e trabalhadoras e está mais forte do que nunca, assim como o MST e os movimentos sociais têm resistido e seguem lutando.

Precisamos estudar a história do Brasil e a luta de classes, para saber que não é o dinheiro que sustenta a nossa luta e o que nos move é mais forte que os jargões medíocres, que estereotipam a fome dessa mesma classe trabalhadora como o “pão com mortadela”.

Não é demérito comermos o pão com mortadela e irmos à luta. Somos trabalhadores e trabalhadoras e, às vezes, o que sobra é o pão com ovo, mortadela…, isso não nos torna menos digno que ninguém que come caviar as custas do sangue de uma multidão de explorados, ao contrário, retoma a história do país e da escravidão, onde as pessoas ligadas a elite escravocrata tinham o prazer doentio em ver a fome e a miséria do povo, assim como os nazistas tinham prazer em ver um judeu na câmara de gás.

Esse senso medíocre e repugnante é o lado mais perverso de parte considerável de uma sociedade doente que mata mendigos e prática a política de higienização em prol da estética de uma “cidade linda”, reservando sempre o lugar de miséria para a classe trabalhadora.

Assim, a ascensão política, social e econômica dessa classe trabalhadora é algo perturbador e inadmissível para a chamada “elite”. Ficam perturbados e não admitem que o povo coma mais que um pão com mortadela, possa andar de avião, compre um carro, ou frequente lugares que foram reservados à esta elite por ela mesma no curso da história e ficaram apavorados em pensar em tal possibilidade de chegada da classe trabalhadora em outros patamares.

E esse pavor certamente tem nome, ontem foi Brizola, Ulisses Guimarães, Malcon X, Luther King e tantos outros, que tiraram o sono da elite, hoje em razão de uma liderança consolidada, forte e global do ex Presidente Lula e de Partidos de igual forma consolidados como o PT e outros no campo da esquerda, os fantasmas da ascensão democrática atormentam a cabeça desses individualistas que de forma doentia se comprazem com o sofrimento alheio.

Constatado isso, quer pelas lentes da historia ou pelo cenário que se apresenta, o que de fato nos intriga, não é a elite ser assim, pois, parece que ela nunca foi diferente disso. O que causa espanto é a opressão social ser sustentada com a ajuda de pessoas pobres e vítimas dessa mesma elite.

Quero acreditar que isso acontece por essas pessoas não terem adquirido a consciência de classe de forma a serem cooptadas para fazerem coro com os próprios opressores em desfavor e, portanto, contra aqueles que os defendem.

O que explicaria isso? Síndrome de Estocolmo? Pedagogia do oprimido? Talvez.

Mas, o que se apresenta de forma concreta é que precisamos ler mais e aprofundar no entendimento desse processo histórico. Todos e principalmente a elite de nosso país precisam ler, A Elite do Atraso (Jessé  de Souza). Contudo, é indispensável que façamos mais que isso, elevando o nivel de consciência crítica na média da sociedade, para que as pessoas sintam e entendam o que significa essa leitura e o que está por trás dela, diante da imposição de um modelo de dominação de classes por parte da elite, que está corroendo a integridade do mundo a séculos e, infelizmente, com a permissividade da maioria das pessoas.

Todavia, resta a indicação: sendo a maioria da classe trabalhadora que é a que mais sofre com esse processo de dominação, por qual razão aceitamos que milhares de judeus fossem queimados e mortos?

Por que assentimos que milhares de pessoas fossem escravizadas por serem negras?

Por qual motivo admitimos que uma mulher ganhe menos por ser mulher, que uma pessoa ganhe menos por ser negra, ou ainda que zombem de alguém por comer pão com mortadela e que pessoas durmam nas ruas com suas famílias desprotegidas, ao mesmo tempo que milhares de crianças passam fome?

Caixão não tem gaveta e nem classe social. Quando for anunciado o nosso fim voltaremos como chegamos, assim, a nossa arrogância e eventuais “bens materiais” não vão nos acompanhar. Pense nisso, para lembrar que não somos melhor que ninguém que come ou deixa de comer pão com mortadela, que luta por direitos que deveriam ser natural a qualquer cidadão, ao contrário, quando aceitamos essa imposição social que massacra aos mais pobres cotidianamente estamos sendo, no mínimo, omissos e até agressivos contra quem deveriamos dar as mãos e caminharmos juntos.

Espero que possamos nos encontrar, quem sabe um dia, nas ruas reivindicando um país melhor, mais justo, menos desigual e dividindo um pão com mortadela e talvez nesse dia poderemos responder sem melindres algumas perguntas, como: quem mandou matar a Marielle? onde está o Queiroz? E todos os porquês que tornam a sociedade tão desigual e desumana.

Cleiton Leite Coutinho. Advogado, Presidente do Partido dos Trabalhadores de São Bernardo do Campo, membro da ABJD.

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