Carta aberta a Francisco Mesquita Neto, diretor do Estadão e da ANJ

Os autores de dois dos maiores furos recentes do jornal foram demitidos logo após a publicação das reportagens.

Prezado Francisco Mesquita,

Já nos conhecemos, trabalhei no Jornal da Tarde, deixei minha contribuição por lá e levei da empresa uma lembrança positiva, de uma corporação que respeitava seus jornalistas, mesmo aqueles raros que não se enquadravam nos seus critérios políticos.

Escrevo esta para alertá-lo sobre o que está ocorrendo na sucursal do Estadão em Brasilia. Aliás, julgo que um dos objetivos centrais da Associação Nacional dos Jornais deveria ser o de zelar pelo respeito devido aos jornalistas, impedindo assédio moral e outras práticas abusivas, práticas que, mais cedo ou mais tarde, reverterão contra a própria imprensa. Hoje em dia, qualquer setor moderno da economia preocupa-se fundamentalmente com o clima interno, com o respeito aos funcionários. Mire-se na sua colega, a Globo, que já montou departamentos para prevenir abusos.

O que lhe contarei a seguir poderá ser facilmente confirmado por um enviado seu a Brasília, que se disponha a falar com os jornalistas, hoje calados pelo receio de perder o emprego.

Ouvirá histórias escabrosas de assédio moral na sucursal, repórteres mulheres sendo chamadas de vacas, homens, que não pertencem ao círculo pessoal da diretora, sendo destratados diariamente, a redação dividida entre seguidores fiéis e os demais.

Talvez, analisando esse ambiente, encontre explicações para o fato da maior série de furos recentes do jornal – em torno do caso das jóias – ter ficado inexplicavelmente escondido nas páginas internas

Só a primeira matéria – a apreensão das jóias no aeroporto de Guarulhos – mereceu manchete. Depois, veio uma sucessão, a reportagem sobre o segundo e o terceiro pacotes de jóias, as jóias guardadas na fazenda de Nelson Piquet. E o Estadão escondeu seus próprios furos.

Sua diretora tentou se vitimizar por trás do feminismo, atribuindo os ataques que sofreu ao machismo. Ela não é vítima, nem fraca. Ganhou poderes absolutos do diretor de redação, Eurípides Alcântara, responsável pelo clima que transformou em lixo a Veja, então maior revista do país. E usa e abusa de seus poderes de diretora.

Peça ao seu enviado para perguntar, em Brasília, como é o clima na sucursal da Folha, de O Globo, da UOL. Ouvirá elogios e ressalvas normais. De um longo tempo para cá, acabou o modelo de assédio moral vigente nos anos 90. Se for um bom especialista em psicologia do jornalismo, saberá calcular os ganhos de produtividade existentes em ambientes saudáveis.

Depois, compare com o que ocorre na sua sucursal do Estadão. Segundo o Twitter abaixo, os autores de dois dos maiores furos recentes do jornal foram demitidos logo após a publicação das reportagens. Qual a razão? Não precisa ser psicólogo para entender o problema da ciumeira profissional entre chefia e subordinados talentosos, uma das maiores causas da perda de produtividade em empresas gerencialmente anacrônicas.

Não existe pior local de trabalho do que aquele em que as chefias montam panelas e mostram inveja dos jornalistas mais talentosos.

Pesquise e devolva ao Estadão o clima de respeito que imperou em outros momentos. Fará bem para a imagem do jornal, poupará de escândalos futuros inevitáveis, por assédio moral, e melhorará substancialmente a produtividade da sucursal.

Coloque alguém que respeite os jornalistas e verá a diferença.

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Luis Nassif

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