Checando o fact checking da Folha, por Luis Felipe Miguel

Checando o fact checking da Folha

por Luis Felipe Miguel

Na lamentável cobertura da Folha, hoje, sobre a prisão de Lula, há um box em que a “Agência Lupa” destaca “Três dados falsos e três verdadeiros ditos por Lula”.

Ha tempos, Afonso Albuquerque tem dito que o fact checking é a maior fake news. De fato, há um poderoso reforço à ideia de que a “realidade” é uma coleção de fatos “objetivos”, independentes da narrativa que os organiza, e portanto que o jornalismo “imparcial” apresenta a seus leitores nada menos que a verdade.

Quais são as três “mentiras” de Lula, de acordo com a Lupa? Ele disse que os votos na Suprema Corte dos Estados Unidos não são publicizados, mas isso representa “a minoria dos casos, cerca de 10%”. Ele disse o Brasil foi o último país do mundo a ter universidade, mas Angola, Etiópia e Arábia Saudita estão atrás de nós e, na verdade, o Brasil foi só o último país da América do Sul a fundar uma universidade. Ele disse que foi o único presidente sem diploma universitário de nossa história, mas Café Filho, que ocupou o cargo por 14 meses após o suicídio de Getúlio, só tinha curso superior incompleto.

Com as “verdades”, é pior ainda. A Lupa transforma a afirmação de Lula – “fui o presidente que mais fez universidades” – e conclui que ele ganha no olho mecânico, pois “durante a gestão de Lula, foram criadas 28 universidades” e “no governo Fernando Henrique Cardoso foram 27”. Só que Lula criou 23 universidades públicas, ao passo que no governo FHC foram quase todas privadas (só seis federais, cinco delas como conversão de instituições já existentes). Sem falar na expansão de vagas, contratação de docentes, multiplicação de campi. Ou nos institutos federais. Ou na democratização do acesso. Em suma, o que o fact checking faz é manipular a realidade para diminuir o contraste, brutal, entre o governo Lula e o governo FHC no que se refere ao ensino superior.

Leia também:  Lula propõe à Globo um debate entre ele, Moro e Dallagnol ‘na hora que quiser'

O pior é o que fica de fora. A Agência Lupa não tem nada a dizer sobre os elementos centrais do discurso de Lula – o golpe de 2016, a perseguição judicial contra ele, a falsidade das acusações, a parcialidade do Judiciário. É como se tudo isso não fosse uma questão de verdade, mas apenas bate-boca da disputa política. Com isso, o fact checking cumpre seu papel ideológico de legitimação da narrativa dominante.

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6 comentários

  1. John Stuart Mill
    “…o Estado não é a única fonte de opressão sobre o indivíduo. A sociedade, por meio das “opiniões e sentimentos prevalecentes”, pode exercer uma força ainda mais perversa, convertendo-se na “tirania da maioria”.”

  2. O AosFatos também carece de verdades

    Em https://aosfatos.org/noticias/checamos-o-que-disse-lula-em-discurso-no-sindicato-dos-metalurgicos/ eles tentam criticar o discurso de Lula afirmando que Moro provou documentalmente que Lula pagava o Triplex

    “consta a declaração da titularidade de direitos sobre a unidade habitacional nº 141, Edifício Navia, Residencial Mar Cantábrico, no valor de R$ 179.298,96, sem qualquer alteração de valor no período.”

    qual o apartamento triplex? O imóvel de número 164-A…

    Escrevi para a ouvidoria do site mas fizeram ouvidos moucos, como Moro.

     

  3. O “Fact checking” é um caso
    O “Fact checking” é um caso escandaloso de apropriação indébita. Foi criado pela imprensa americana na esteira da eleição do mais desavergonhadamente mentiroso presidente americano, Donald Trump, para tentar fazer frente a incontrolável cachoeira de cascatas por ele produzidas diariamente.
    Quase simultaneamente por aqui grupo globo e Folha chuparam a ideia reproduzindo inclusive o nome “fact checking” sem nem mesmo fazer uma tradução para disfarçar. Grupo globo imediatamente recua e muda o nome da ferramenta para o português. Mas como sempre fazemos a cópia muito mal feita. Onde lá cuidam de manter o rigor jornalístico, por aqui os oligopólios da informação deturparam a boa ideia para seus próprios fins.

  4. Folha diz que o governo FHC construiu 21 universidades privadas?

    Manchete para seguir os padrões da mídia corporativa, que não cria “fake news”: “Folha diz que o governo FHC construiu 21 universidades privadas”. Sendo assim, é preciso exigir que seja processado por desvio de verbas públicas.

    E isso não é “fake news”, é apenas uma “narrativa” com base nas informações fornecidas pela Lupa e endossadas pela Folha: a Lupa que diz (e a Folha endossa) que o governo dele fez 27 universidades. Só assim as 27 poderiam ser comparadas coma as que Lula “fez”, ou seja, com as que foram criadas pelo governo, durante as duas gestões de Lula. Sendo públicas apenas 6 destas 27 universidades, as outras 21 são privadas. Se o governo é FHC é que as instituiu e elas foram parar nas mãos de agentes privados… houve corrupção: o dinheiro público teria sido desviado para parecer que foram construídas pelos agentes privados…

    Distorção? Menor que O Globo, que em 07 de dezembro de 2014 publicou “notícia” de que a Cooperativa Habitacional dos Bancários (Bancoop) tinha terminado o Edifício Solaris em dezembro de 2013, o que só foi possível porque a Bancoop, através de Vaccari, contratou a OAS para terminar o edifício. Ou seja, de acordo com o Globo, o edifício não era da OAS, mas da Bancoop, que apenas contratou a empreiteira para terminar a obra. Tanto era da Bancoop que foi a Cooperativa que entregou os apartamentos aos “compradores” e em dezembro do ano seguinte, depois das reformas  entregou para Lula. É o título da matéria de O Globo: “Cooperativa entrega triplex de Lula, mas três mil ainda esperam imóvel”. Os três mil seriam os associados que tinham contratos com a Bancoop referentes a outros edifícios.

    O Globo só não explica como o edifício que foi tirado da administração da Bancoop, junto com vários outros, por acordo da Bancoop com o Ministério Público de São Paulo, celebrado em 2008 e homologado em 2009. A transferência para a OAS ocorreu em 2009 – justamente por isso, a Farsa Jato afirma que Lula recebeu o imóvel da OAS (e não da Bancoop) em 2009. O problema é que a Farsa Jato usa como prova de recebimento do imóvel… a matéria de O Globo, que, como se pode ver, é “muito bem apurada”…

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