Manual do perfeito midiota – 18, por Luciano Martins Costa

Cuidado com os armadilhas que o noticiário te prega. Foto: Ingimage

Por Luciano Martins Costa

Da Revista Brasileiros

O desaparecido deputado Ulysses Guimarães popularizou a expressão “casuísmo” para definir as propostas oportunistas que tentavam driblar a Constituição para garantir benefícios a este ou àquele partido político.

Uma ironia da História é que o partido que ele fundou adotou o casuísmo como princípio basilar de sua estratégia. Mas uma das características da midiotia é a dificuldade para perceber ironias. Por isso, é importante assegurar que você entenda como os casuísmos vão compondo uma determinada interpretação da realidade, consolidando a visão de mundo imposta pela mídia hegemônica.

Portanto, se você começar a entender as ironias presentes no noticiário político desta semana, tome cuidado: você pode estar se afastando da condição de midiota. E, como se sabe, quando você deixa de ser um midiota, o mundo começa a parecer mais complicado.

Para começar, falemos da expressão usada por Ulysses: você não acha que ficar vazando supostas denúncias e conteúdos selecionados de delações ainda não homologadas pela Justiça seria um casuísmo típico?

Veja, uma dessas denúncias atinge até o veterano economista Antônio Delfim Netto. Não seria porque ele vem afirmando, de forma contundente, desde janeiro deste ano, que a proposta de impeachment é um projeto de golpe? E olhe que de golpe ele entende…

Outra coisa, que beira o campo da ironia: você não acha que os supostos juristas favoráveis ao impeachment da presidente da República deveriam sustentar suas opiniões com argumentos equilibrados, serenos e firmes? Então, como você interpretou o surto protagonizado pela musa do golpe, a advogada Janaína Paschoal, durante manifestação no Largo de S. Francisco, em São Paulo?

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Nas redes sociais há quem jure que a moça foi abduzida por um espírito maligno enviado de uma esquina da periferia por petistas macumbeiros. Na certa, foi coisa de pomba-gira.

Para finalizar, você ouviu falar dos Panama Papers, que levantam suspeitas de crime financeiro envolvendo milhares de autoridades, empresários, jogadores de futebol, artistas e outras celebridades?

Se você é um midiota em busca da perfeição, vai dizer que o mundo é assim mesmo, mas graças a Santa Izildinha aqui no Brasil não tem nada disso porque o santo guerreiro Sergio Moro vai botar todos os corruptos na cadeia. O problema é que os documentos vazados da empresa Mossack Fonseca atiram uma chuva de dados que nunca serão digeridos pela mídia.

Então, o que vazar dessa fonte de informações será tratado com o mesmo critério que define tudo que você lê e ouve por aí: o casuísmo do velho Ulysses. Agora, se você ouvir falar de movimentações financeiras em direção ao paraíso fiscal de Liechtenstein no período imediatamente posterior ao fim das investigações do caso Banestado, a coisa pode ficar interessante.

Sabe aquele outro escândalo, o das contas no HSBC na Suíça? Então: é por aí, é por aí.

Para ler: The Panama Papers – em inglês, como funciona o submundo das finanças. Leitura para uma semana.

*Jornalista, mestre em Comunicação, com formação em gestão de qualidade e liderança e especialização em sustentabilidade. Autor dos livros “O Mal-Estar na Globalização”,”Satie”, “As Razões do Lobo”, “Escrever com Criatividade”, “O Diabo na Mídia” e “Histórias sem Salvaguardas”.

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7 comentários

  1. Perfeito!

    Ontem eu conversava com uma pessoa que me trazia argumentos a favor do impeachment. 

    E dizia uns dados e depois outros, daqueles estranhos: é que a deleção da Andrade Gutierrez vai prejudicar a Dilma etc.

    Perguntei a ele: de onde você tirou isso? Viu onde?

    Jornal Nacional, respondeu ele.

    Aí eu contei que fazia três meses que não assistia o JN devido à sua parcialidade indecente. E que só quem não quisesse não veria duas coisas. Primeiro, o vazamento foi para prejudicar e, segundo, a delação não incluiu o que seria o óbvio: a relação da empreiteira Andrade Gutierrez com o PSDB de Minas, com Aécio Neves. E que as mesmas empreiteiras que praticaram cartel na Petrobras muito provavelmente (= indícios) devem ter feito isso em Minas (Mineirão, Cidade Administrativa) ou em São Paulo e por aí vai. Afinal essas obras foram feitas na mesma época.

    A falta de visão lateral e de colocar os fatos num contexto mais largo torna difícil o diálogo. E não são pessoas burras, ao contrário. Daí eu imaginar que o ódio tenha a chegado a um ponto que deturpa o caráter.

     

  2. “Daí eu imaginar que…”Toda

    “Daí eu imaginar que…”

    Toda certeza é, em si, uma confissão de burrice; mas eu vou correr o risco e, diferentemente de você eu digo: “Daí eu ter a certeza que o ódio tenha a chegado a um ponto que deturpa o caráter.”

    Certa feita, assistindo a um jogo do time do meu coração – o da minha cidade – que costumeiramente é roubado pelos árbitros da Federação Sergipana de Futebol, especialmente pelos que são torcedores do Club Sportivo Sergipe, da capital, e em jogo com o dito clube (ocorreu isso no domingo passado: uma garfada pra lá de vergonhosa)… bem, estou eu lá, nas cadeiras, (apesar de sempre gostar das arquibancadas, naquela tarde fui para as chamadas “cadeiras numeradas”) e aí, uma senhora, na faixa etária da minha mãe, pela qual eu tenho tanto respeito como pela própria minha mãe, educadíssima e educadora, duas ou três cadeiras à esquerda, juntamente com seu esposo, diante de mais uma garfada do Moro, ops!, árbitro da partida naquela tarde, e na comoção geral, levantou-se e gritou bem explicadinho: “Manda esse juiz “tnc”!” Disse isso umas três vezes e depois, como todos os torcedores como ela, incluindo eu, sentou-se enraivada em sua cadeira como se tivesse dito um… talvez um “juiz safado”! Fiquei impressionado! Jamais esqueci disto; e, claro, nunca comentei com ninguém identificando a pessoa. Mas isso é uma clara demonstração de até onde vãos os autocontroles de quem mergulha de cara numa torcida a qualquer custo.

    Ah, perdão! Isso aqui foi um comentário ao comentário do Alberto M., antes de mim. E o artigo do Luciano, como sempre, excelente.

  3. mais um texto perfeito sobre

    mais um texto perfeito sobre m idiotice….

    ou falta de desconfioimetro….

    muitas vezes por conveniencia, a fim de manipular

    os desinformados de sempre…

  4. Casuísmo no Pr

      É engraçado que no Paraná: “República do Zorrinho do Sur”, não há casuísmo! A ALEP, o Executivo e o Judiciário andam de mãos dadas como o “Principe e a Fada” dos contos dos irmãos Grimm. Um Romantismo ridículo que beira ao absurdo! Mas isso é coisa pra Paranaense Perfeito como as idéias de Platão e a magestade celeste! Uma SANTIDADE!

       

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