É curiosa a dificuldade de se discutir temas políticos no país, mesmo entre o grupo do público mais informado.
Tome o caso das denúncias contra Jaques Wagner. Mais de uma vez expliquei que minhas críticas aos vazamentos não significam qualquer endosso a uma suposta inocência do senador. Minhas críticas são contra os métodos utilizados, que atropelam princípios jurídicos claros, atrapalham as investigações, e, mais do que isso, estupram o jornalismo e tem uma clara intenção política.
Mas, nesse clima tóxico, é quase impossível separar os dois temas. É possível que Jaques Wagner tenha culpa no cartório e, ao mesmo tempo, a operação contra ele seja esdrúxula, forçando a barra com propósitos políticos. Mas vá convencer os fetichistas da equidistância.
É o mesmo caso da Lava Jato. De um lado, você pode apresentar uma tonelada de evidências dos abusos – e da corrupção – da Lava Jato. Mas o fetichista da equidistância bradará: está dizendo que não houve corrupção? E porque houve corrupção, todos os pecados da apuração serão perdoados, os erros processuais, o viés político, a pressão para as delações e a própria corrupção.
Por exemplo, a Sicoob/Cooperativa de Crédito de Rio Verde (GO) pagou R$ 63 mil — quase o dobro do cachê usual — por palestra de Deltan Dallagnol em 2019, com cláusula de sigilo proibindo qualquer divulgação à imprensa. A ironia central: as palestras remuneradas de Lula foram peça do próprio MPF para pedir a quebra de sigilo do ex-presidente, com Moro escrevendo que os valores, “apesar de lícitos”, bastavam para criar dúvidas — enquanto as de Deltan, fora das normas aplicáveis a membros do MP, eram defendidas como atividade docente legítima.
Pouco importa, como pouco importa a tentativa de transferir mais de R$2 bilhões para uma fundação incumbida de financiar as palestras dos procuradores da Lava Jato, contra a corrupção. Afinal, houve corrupção na Petrobras.
Desde muito cedo aprendi a desconfiar dos Catões – os defensores públicos da moralidade, que faturavam política ou monetariamente com suas catilinárias contra os corruptos. E, enquanto a mídia caía de cabeça no caso, conduzida pelo flautista de Hamelin, procurava entender a lógica da campanha moralista.
O vazamento é proibido por várias razões. Primeiro, por condenar antes do trânsito em julgado, sem que o acusado possa apresentar sua defesa. Segundo, por ser prejudicial às investigações. O inspetor Clouseau, que vem vazando informações à jornalista Malu Gaspar é um imbecil completo, que compromete as investigações e a imagem profissional da Polícia Federal.
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