7 de junho de 2026

O Poder360: o poder do mercado para construir narrativas, por Luís Nassif

A fonte de Rodrigues deve ser a mesma que informou (erradamente) a Lauro Jardim que Daniel Vorcaro teria financiado o filme de Lula.
Jack Nicholson - O Iluminado

Lula aconselhou Vorcaro a não vender o Banco Master ao BTG, segundo reportagem do Poder360 em 17/05/2026.
Documento apreendido pela PF em 10/04/2025 mostra plano do Banco Master para venda parcial ao BTG com apoio do FGC.
Plano dependia da aprovação dos bancos S1, financiadores do FGC; Lula não teria interferido na operação privada.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Um dos fenômenos estudados da atual fase da mídia digital é a influência de bancos de investimento e do próprio Banco Master sobre publicações jornalísticas. Um bom enigma a ser desvendado é a quem serve o Poder360, de Fernando Rodrigues.

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A edição de 17 de maio oferece um caso exemplar, com a a reportagem “Lula aconselhou Vorcaro a não vender Master ao BTG

A matéria-base

O ponto de partida foi uma reportagem séria do UOL, de Fábio Serapião e Natália Portinari, sobre um documento apreendido pela Polícia Federal: um plano interno do Banco Master, datado de 10 de abril de 2025, que descrevia uma proposta de venda ao BTG Pactual — alternativa que Vorcaro rejeitou antes de recorrer ao BRB.

O trabalho de encaixe de Fernando Rodrigues

A partir dessa base, Rodrigues montou sua própria narrativa juntando peças disponíveis:

Peça 1: A reunião de 4 de dezembro de 2024 no Planalto, entre Vorcaro e Lula, com Guido Mantega, Rui Costa, Alexandre Silveira, Augusto Lima e Gabriel Galípolo — na época ainda indicado à presidência do BC. Segundo os presentes, Lula disse que qualquer decisão sobre o Master seria técnica.

Peça 2: O documento do Master de 10 de abril de 2025, sobre as negociações com o BTG.

O encaixe: Rodrigues une as duas peças com uma inferência que ele apresenta como fato. Lula teria criticado André Esteves e Roberto Campos Neto na reunião. A partir daí, a conclusão do texto é que “Vorcaro entendeu a presença de Galípolo na reunião e as críticas de Lula a Campos Neto como um incentivo para seguir com o Master.” Ou seja: o que Vorcaro entendeu vira, na narrativa, responsabilidade de Lula. Assim, ele teria interrompido as negociações com o BTG por influência de Lula. No entanto, o documento divulgado pela UOL é de 10 de abril de 2025, o que mostra que, quatro meses após a reunião com Lula, o Master insistia na proposta BTG.

Peça 3: O número de reuniões entre o Master e o Banco Central — 24 no período Campos Neto, 41 nos primeiros 11 meses de Galípolo. Rodrigues omite o contexto óbvio: o aumento de reuniões no período Galípolo ocorre porque o banco já estava em contagem regressiva para a liquidação. Mais reuniões significavam mais monitoramento regulatório — não mais cumplicidade.

Peça 4: A conclusão que coroa o encaixe. Vorcaro teria repetido seu discurso de que o Master poderia quebrar o oligopólio bancário e Lula, do alto de décadas de experiência em conviver com toda sorte de lobbies e sofismas, simplesmente teria “enxergado uma possibilidade de mudar a configuração do sistema financeiro brasileiro.” Imaginar que Lula cairia em uma narrativa dessas é minimizar décadas de experiência com toda sorte de raposas. 

A peça que Rodrigues não encaixou

Todas essas peças foram mobilizadas, menos a principal — que estava na própria reportagem do UOL que ele utilizou como base.

O plano do BTG era o seguinte: 

  • O Master faria uma cisão parcial. 
  • Os ativos que não iriam para o BRB seriam transferidos para o BMI — Banco Master de Investimento. 
  • O FGC (Fundo Garantidor de Crédito) compraria 100% do capital do BMI por valor simbólico e integralizaria R$ 5 bilhões para cobrir os primeiros vencimentos de CDB.
  • Em seguida, cederia essa opção ao BTG, também por valor simbólico. O BTG assumiria o controle total do BMI e receberia uma taxa de gestão de 1,25% ao ano sobre o valor contábil inicial dos ativos — não sobre resultados. 
  • Todas as despesas de recuperação seriam reembolsadas pelo FGC. E as contingências do BMI, do BTG e “de quaisquer outras sociedades do grupo do Banco Master e/ou de seus controladores” seriam indenizadas pelo FGC.

Em resumo: o BTG assumia o controle, embolsava taxa de gestão garantida sobre o estoque de ativos, tinha todas as despesas pagas e ainda ficava coberto por eventuais contingências judiciais dos controladores do Master. O FGC — financiado pelos bancos do sistema — bancava tudo.

Faltava apenas um detalhe para o plano ir adiante: a aprovação dos bancos S1, as principais instituições do país e os maiores financiadores do FGC.

Ou seja: o que estava na mesa era exatamente isso. Não a salvação do sistema financeiro — mas um arranjo pelo qual o BTG assumia um banco quebrado sem risco, com taxa de gestão garantida e todas as perdas socializadas pelo FGC.

A questão que fica

A narrativa de Rodrigues desenha Lula como o responsável pela continuidade do Master e pelo rombo subsequente. As incongruências do artigo são óbvias:

1. O plano do Master com o BTG é de 10 de abril de 2025. Ou seja, 4 meses depois da reunião com Lula, o plano BTG estava na mesa do Master,

2. Todo o sucesso do plano dependia da aprovação dos bancos S1 (Itaú Unibanco, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Bradesco, Santander e BTG Pactual), principais financiadores do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Alguém poderia imaginar esses bancos dando dinheiro de graça para o Master e o BTG?

3. Apenas um apelo de uma autoridade maior poderia convencê-los. Essa autoridade seria o presidente da República. Por isso, a versão mais lógica é que Vorcaro foi atrás de Lula para que ele intercedesse junto aos demais bancos para doarem os recursos do FGC para o BTG. E tanto não conseguiram, que o plano BTG gorou. Primeiro, porque Lula pode ser tudo, menos ingênuo. Além de conhecer de sobra os jogos de lobbies, jamais iria interferir em uma operação privada: entre Vorcaro e o FGC.

4. A pergunta que o Poder360 não faz é a única que importa: a quem servia o plano rejeitado e a quem serve o Poder360? Uma coisa é certa: a fonte de Rodrigues é a mesma que informou (erradamente) a Lauro Jardim que Daniel Vorcaro teria financiado o filme de Lula.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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10 Comentários
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  1. Jose de Almeida Bispo

    18 de maio de 2026 8:59 am

    Um dos mais lidos por mim, quando nos anos iniciais dos governos petistas. E se encontrava na ainda por mim então idolatrada Folha de São Paulo.
    Entrei na internet, pelo provedor Uol, obviamente, para ter acesso mais rápido ao jornalão, em novembro de 1999. Aguentei até junho de 2009. Com Fernando Rodrigues já desmascarado, e assumindo como resealista.
    O Poder360 é só mais um.
    Só atividades criminosas, no mínimo moralmente questionáveis, têm tanto dinheiro assim pra investir em mídia. Às vezes até ajuda a qualificar, como no caso da música e do cinema, especialmente; mas qause sempre produzem desastres sociopolíticos.

  2. Edivaldo Dias de Oliveira

    18 de maio de 2026 9:23 am

    A Luiza Trajano deve saber a quem serve essa merda. Mas só o fato de ter sido responsável no Brasil pela divulgação dos Panamápapers e ter omitido os Marinho e Frias da lista, diz muito sobre seu editor.

  3. Fernando Delicato

    18 de maio de 2026 9:42 am

    Há vezes em que é mais revelador sobre a mídia ou seu controlador o que se deixa de publicar do que se publica. O Fernando Rodrigues é o mesmo que colocou a lista do HSBC na gaveta, trancou e jogou a chave fora. Se houvesse investigação sobre a lista HSBC, como houve em outros países, talvez não tivessemos o escândalo do Master hoje.

  4. Veritas

    18 de maio de 2026 9:56 am

    O plano do BTG e do Master é o plano da patologia do poder, que sempre repete: “Ao povo os prejuízos, a mim os lucros”. O Poder 360, como o próprio nome indica, serve à patologia do poder. Precisamos de reformas estruturais no Brasil. E isto não significa mudar de capitalismo para socialismo. Significa que jornais , empresas, governos, congresso nacional, em suma, instituições públicas e privadas não podem esmagar o povo e aqueles que procuram ajudá-lo, devem servir ao povo, não aos doentes poderosos econômico-sociais exploradores e mentirosos que as controlam, com raras exceções.

    1. Jose de Almeida Bispo

      18 de maio de 2026 4:15 pm

      HSBC: Hong Kong e Shangai Bankin Corporation, fundado em 1865, com o dinheiro do tráfico de entorpecentes – ópio – com o qual William Jardine e James Matheson – e seu sócio maior em Londres – destruíram a China, entre 1832, e 1865, e continuaram a espremê-la até não mais ter sangue pra chupar. Ficaram podres de ricos. E a China arrasada. Por cem anos.

  5. emerson57

    18 de maio de 2026 1:20 pm

    Uma coisa é certa: Se fosse para jogar a lama da fake news sobre qualquer um direitoso sr. Jardim JAMAIS daria a matéria.

  6. fabricio coyote

    18 de maio de 2026 2:27 pm

    só no brasil ministro do supremo recebe banqueiros com beijo. pode ser um ministro do supremo a fonte. ou seja, parodiando Otto Lara Resende, Oh, Tu, supremo! estás onde sempre Esteves.

  7. Jotarlock Holmeees

    18 de maio de 2026 4:13 pm

    A chave de tudo é o desvio.de foco,seria.o ladrão GRITAR PEGA O LADRÃO,isto só é possível com a CONIVÊNCIA da mídia e autoridades policiais ou não,os PROTAGONISTAS BANDIDOS CORRUPTOS da mídia e da era Lavajatiana estão se BORRANDO DE MEDO de serem pegos,daí o desespero de SEMPRE ARRANJAR UM BODE EXPIATÓRIO,se o País não ACORDAR o.Parana será dominado por INFILTRADOS aos quais já vimos os estragos estruturais feitos por eles no Brasil,omaginem a República de Coritiba com um poder mil vezes mais destrutivos?Se pegarem os GRANDÕES COM G MAIUSCULO de uma GRANDE EMISSORA COM G COLOSSAL todo o sistema cairá,Tarcisio,bilionários anti.brasil e etc,Lula poderá até impor quantos minutos falará no JN,Aff q ARRASO,tremei conspiradores da República,toc,toc,toc !!!

  8. Paulo Dantas

    18 de maio de 2026 10:45 pm

    Os agradecimentos ao notável Guido Mantega por ter colocado Lula nesta história desnecessária.

    Vorcaro deveria financiar um filme seu …

  9. Jose carlos lima

    19 de maio de 2026 4:45 am

    Da pra ver que Mendonça faz papel de Moro no processo farsesco da Lava Jato

    O PGR Gonet náo aceitou o papel de Dalanhol mas será pressionado pela mídia pro Bozzo a fazer isso e, se não aceitar fazer encenar Dalanhol, o terrivelmente evangelico passará por cima e isso já aconteceu, o que configura crime de responsabilidade

    Este país é o celeiro das falsas narrativas e de processos baseados em falsas acusações, um tema para o qual todo mundo inclusive o campo progressista faz cara de paisagem

    Vorcaro é o Léo Pinheiro da Lava Jato. Não fez falsa delação contra Lula? Como assim, o terrivelmente Evangelico vai iniciar a tortura a Lava Jato: que tal uma cela do tipo solitária, sem direito a visitas e com ameaças à familiares

    O terrivelmente evangelico é poderoso, manda no STF e TSE

    OI a Farsa a Jato elegeu o Bozzo e agora que eleger o filho do Bozzo, tudo na base da falsa acusação, um ato hediondo que deveria ser crime hediondo

    O campo progressista é a inteligência nacional nunca debateu de forma séria e permanente o poder de destruição que tem a falsa acusação da qual Lula foi vítima, bem como o reitor Cancellier que, diante do rolo compressor da falsa acusação optou por tirar a própria vida

    Temos o caso Escola Base, de SP, a falsa acusação virou direito quando deveria ser crime

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