21 de maio de 2026

Quando a cooperação internacional vira “escândalo”: o caso OEI

Cobertura alarmante ignorou que OEI é agência de cooperação técnica, transformando prática diplomática em suposto "escândalo".

1. Convênio entre EBC e OEI para transmissão da COP-30 gera controvérsia. Destaque para acusações de favorecimento político e irregularidades.

2. Comparação com convênios da OPAS ressalta viés editorial na cobertura. Enquadramento de acordos com OEI como “escândalo” questionado.

3. Necessidade de rigor jornalístico em coberturas. Diferença de tratamento entre convênios similares evidencia distorções na percepção da realidade.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Convênios rotineiros com organismo internacional foram tratados como denúncia pela grande imprensa

Manchetes alarmantes dominaram as páginas principais do Estadão e da CNN Brasil nas últimas semanas. O alvo: um acordo entre a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) e a Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI) para a transmissão de 42 eventos da COP-30. A cobertura sugeriu irregularidades e favorecimento político, mas uma análise mais detalhada revela um cenário bem diferente.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

O que foi noticiado como “escândalo”

As reportagens destacaram que a primeira-dama Janja Lula da Silva recebeu uma oferta para coordenar a Rede Ibero-Americana para a Inclusão e Igualdade, vinculada à OEI. Segundo as próprias matérias, ela “posou para foto ao lado do secretário-geral da entidade, Mariano Jabonero, mas nunca desempenhou efetivamente qualquer papel no cargo, devido a um recuo do governo”.

O tom da cobertura enfatizou que dos R$ 710 milhões em contratos firmados com 19 órgãos federais até abril, R$ 629 milhões (quase 90%) estariam “sob o guarda-chuva de ministros e dirigentes petistas”. Entre os órgãos citados: Casa Civil, Secretaria Geral da Presidência, Ministério da Educação e Ministério da Igualdade Racial.

Afinal, o que é a OEI?

A Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI) é um organismo internacional criado em 1957, com sede em Madri, que reúne 23 países da América Latina, Espanha, Portugal e Andorra. Sua missão é promover a cooperação em três áreas principais:

Educação: programas de alfabetização, formação de professores, avaliações educacionais e cooperação entre ministérios da Educação dos países-membros.

Ciência: apoio à pesquisa, redes de inovação e projetos de tecnologia educacional.

Cultura: preservação do patrimônio, intercâmbios culturais e promoção da diversidade cultural ibero-americana.

A OEI funciona como agência de cooperação técnica, financiadora de projetos e plataforma de diálogo entre governos. É, portanto, natural que firme convênios com ministérios da Educação, Cultura, Igualdade Racial e órgãos da Presidência — justamente as áreas de sua atuação.

A comparação que faltou

Um exercício simples expõe o viés da cobertura: comparar o tratamento dado aos convênios da OEI com aqueles firmados pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).

A OPAS, criada em 1902, atua na área de saúde pública e mantém diversos acordos com o Ministério da Saúde brasileiro. Recentemente, firmou termos de cooperação no valor de R$ 122 milhões para fortalecer o Complexo Econômico-Industrial da Saúde. A cobertura dessas parcerias é invariavelmente positiva, destacando avanços em vacinação, fortalecimento do SUS e cooperação internacional.

Ambos são organismos internacionais legítimos, com décadas de história e reconhecimento internacional. Ambos firmam acordos milionários com o governo brasileiro em suas respectivas áreas de atuação. A diferença está apenas no enquadramento editorial.

Dois pesos, duas medidas

Quando a OPAS assina convênios com o Ministério da Saúde, a narrativa é de cooperação técnica e avanço institucional. Quando a OEI firma acordos com o Ministério da Educação e órgãos relacionados à cultura e igualdade racial, surge a insinuação de favorecimento político.

A menção aos “ministérios petistas” é particularmente reveladora. Como uma organização focada em educação, ciência e cultura não faria convênios com o Ministério da Educação ou da Igualdade Racial? Seria como criticar a OPAS por trabalhar com o Ministério da Saúde.

O episódio Janja

A oferta de um cargo de coordenação para a primeira-dama — que, segundo as próprias reportagens, nunca foi exercido — ganhou centralidade na cobertura. Porém, é comum que cônjuges de chefes de Estado assumam papéis em iniciativas de organizações internacionais, especialmente em temas como educação, cultura e inclusão social.

O fato de não ter assumido efetivamente a função, longe de ser evidência de irregularidade, sugere justamente o oposto: cautela institucional.

Jornalismo e checagem

O episódio levanta questões sobre os processos de apuração e checagem nas redações. Uma pesquisa básica sobre a OEI teria revelado sua natureza, histórico e legitimidade internacional. A comparação com outros organismos, como a OPAS, teria contextualizado adequadamente os valores envolvidos.

Em vez disso, números foram apresentados de forma alarmante, sem o devido contexto sobre o que é normal em cooperação internacional. Convênios que são prática rotineira na diplomacia foram transformados em “denúncia”.

Conclusão

A diferença de tratamento entre convênios similares evidencia como escolhas editoriais podem criar percepções distorcidas da realidade. Práticas rotineiras de cooperação internacional, quando enquadradas com viés político, transformam-se em “escândalos” onde não existem.

O caso da OEI ilustra a necessidade de rigor jornalístico, contextualização adequada e, sobretudo, coerência: se acordos com a OPAS são legítimos, por que acordos com a OEI seriam suspeitos?

A resposta não está nos fatos — que são similares em ambos os casos —, mas na narrativa construída ao redor deles.

Leia também:

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

6 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Edivaldo Dias de Oliveira

    15 de novembro de 2025 11:25 am

    O GGN atribuindo incompetencia jornalística, onde há intenção premeditada.
    Isso é recorrente no GGN, qual a razão de não assumir que tais atitude por para parte da grande mídia se trata de projeto contre governos progressista, que não existiam em outros governos. É só comparar.

  2. José de Almeida Bispo

    16 de novembro de 2025 8:39 am

    Nada!
    É má fé, na lata.
    Como se diz por aqui, safadeza mesmo.
    Cachorros de fateira. Gente asquerosa.
    Crias do Sr. da Veja, o que perguntava todo início de semana: “O que é que temos esta semana PRA FERRAR OPERÁRIO, quando era apenas um líder partidário.
    Na minha cidade houve um cidadão que, entronizado na Prefeitura, numa cidade ainda minúscula, onde não acontecia nada, de vez em quando, também em comando da polícia, ele mandava esta invadir o puteiro; bater nas coitadas (literalmente) que lá estavam, só PARA MOVIMENTAR A CIDADE, com o alarido das mesmas a pedir paz pelo amor de Deus. Esse é o modus vivendi de grande parte dessa elite: bater nos indefesos, ou pouco defendidos, para se vangloriar do poder que tem. C…!

  3. Mário Mendonça

    16 de novembro de 2025 9:41 am

    A resposta é simples: manipular a sociedade contra quaisquer progresso do país, afinal, nossas oligárquias sempre estiveram no comando do atraso!

  4. Vladimir

    16 de novembro de 2025 10:00 am

    A mídia golpista,apelidada pelo falecido Paulo Henrique Amorim,de PIG ,já prestou-se a ser protagonista de inúmeros golpes contra nosso país e nosso povo.
    Hoje,diante de sua insignificância,presta a o papel de ser mera press release das chamadas mídias sociais golpistas,filhas não bastardas dela memso.

  5. José Machado

    16 de novembro de 2025 10:55 am

    Outubro, novembro, faltando um ano para eleições. Os golpistas começam a executar
    o plano dos golpes.

    A imprensa e o setor financeiro é golpistas e vão arrumar problemas, narrativas para eleger
    a direita e a extrema-direita.

    Essas operações policiais podem fazer parte do script sim.

  6. ERNESTO

    16 de novembro de 2025 1:29 pm

    Não desistem fácil. Agora mesmo ensaiando umas “jornadas de junho” lá no México. A Sheinbaum é dura na queda, mas que esteja atenta. Sempre a mesna tática manjada de pretensa juventude insurecta, ou combate à corrupção, ou narcoterrorismo. São pouco criativos, Não inovam na cantilena.

Recomendados para você

Recomendados