Entrevista ao SBT foi tentativa de humanizar Queiroz e limpar a barra dos Bolsonaro

Cintia Alves
Cintia Alves é jornalista especializada em Gestão de Mídias Digitais. Ingressou como repórter no Jornal GGN em 2014, participando da cobertura e produção de documentários sobre a Operação Lava Jato. Atualmente é editora e coordena a produção do canal TV GGN, no Youtube, entre outros projetos.
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Jornal GGN – A entrevista exclusiva de Fabrício Queiroz ao SBT – emissora que declinou para o lado de Jair Bolsonaro sem nenhuma cerimônia – soou como uma tentativa de humanizar o assessor parlamentar de Flávio Bolsonaro com seus problemas de saúde e limpar a barra da família presidencial às vésperas da posse.

Queiroz, que foi relatado pelo Coaf por ter movimentado R$ 1,2 milhão em apenas 1 ano, sem ter patrimônio ou renda para isso, recusou entrar no mérito das suspeitas que vem sendo reveladas pelas imprensa nas últimas semanas.

“Em respeito ao Ministério Público” – que ele vem evitando mesmo após ter sido convocado 4 vezes, e não 2, como acreditava a opinião pública até a entrevista – Queiroz disse que não iria tratar de “dinheiro” com Debora Bergamasco, a enviada do SBT para a missão.

Entre outros deslizes, a jornalista pecou ao não citar na entrevista o principal dado: os R$ 1,2 milhão movimentados por Queiroz. 

Queiroz chegou a admitir que ganhava mensalmente cerca de R$ 24 mil. Que tirasse, em 13 meses, R$ 312 livres com o salário de assessor e os redimentos da Polícia Militar. Como chegou a movimentar R$ 1,2 milhão com essa renda? Bergamasco não perguntou.

Ao contrário disso, sempre que citou dinheiro, a jornalista só fez minimizar os números.

Já é de conhecimento público que outros 9 assessores parlamentares depositaram dinheiro na conta gerenciada por Queiroz, e a imprensa, com dados do Coaf, relacionou os depósitos desses funcionários com o dia de pagamento na Assembleia do Rio.

Apesar disso, Bergamasco só citou 3 funcionários e disse que eles depositaram “valores mais baixos” na conta, entre R$ 800 e R$ 4 mil. Passou a impressão de que estão fazendo escândalo na mídia por nada.

A jornalista também aceitou calada a resposta de Queiroz sobre a filha, Nathália, que foi exonerada do gabinete de Jair Bolsonaro no mesmo dia em que Flávio Bolsonaro demitiu o pai dela, levantando a suspeita de que as duas ações foram coordenadas e que a família Bolsonaro já previa vazamento do relatório do Coaf (essa informação, o jornalismo do SBT também ficou devendo ao telespectador).

Queiroz disse que Nathália é “maior de idade e vai responder sozinha” por que depositou mais de R$ 80 mil (quase a totalidade do salário que recebia do gabinete de Bolsonaro) na conta relatada pelo Coaf.

Já sobre a suspeita de que Nathália não trabalhava de fato no gabinete, embora recebesse o salário, Queiroz lançou a história de que (1) o espaço não comporta, (2) nem todo assessor precisava trabalhar in loco e (3) formada em educação física, a filha cuidava era das “mídias do deputado”.

Chega a confundir quem assiste com atenção, porque Queiroz responde como se Nathália tivesse lotada com Flávio Bolsonaro a pedido dele [o ex-assesor], mas ela foi exonerada do gabinete de Jair.

O ápice da entrevista ficou para o final, quando a jornalista questiona se Queiroz tinha, além dos salários da Assembleia do Rio e da PM, uma terceira fonte de renda.

Queiroz respondeu que é um “homem de negócios” e que “faz dinheiro” comprando, reformando e revendendo carros. Mais uma vez passiva, Bergamasco não pediu nenhum detalhe a respeito da atividade. Nem esclareceu se ela é a explicação “plausível” que Queiroz só quer esmiuçar somente diante do MP. 

A despeito do que boa parte da imprensa saiu manchetando depois, aliás, Queiroz tampouco associou a venda de carros com a movimentação de R$ 1,2 milhão – até porque nem o jornalismo do SBT citou esse montante ao longo de 22 minutos de entrevista (editada).
 
Ao abrir o bate-papo exclusivo, Bergamasco disse que ali tinha a oportunidade de perguntar a Queiroz tudo o que o Brasil queria saber.
 
Fica o registro de qual era pauta do SBT:
 
– Por que foi exonerado? [Para cuidar da saúde e da reforma da Polícia Militar]
 
– Trabalhava como motorista no gabinete? [“Sou assessor parlamentar e coordenador da segurança”]
 
– O que faz um assessor parlamentar e coordenador de segurança?
 
– O Rio de Janeiro requer uma segurança mais especializada?
 
– Quanto o senhor ganhava no gabinete? 
 
– Esses são todos os rendimentos? Tem o da Polícia Militar também?
 
– Por mês a sua renda é de quanto? [Cerca de 24 mil reais por mês, somando das duas remunerações]
 
– Segundo o Coaf, o senhor tem uma conta na qual recebeu depósito de 94 mil reais do senhor mesmo, 84 mil reais de Nathalia Melo e 18 mil de sua esposa. Por que recebeu esses depósitos? [Aqui, Queiroz admitiu que pedia para que as integrantes da família fossem empregadas no gabinete do deputado por “mérito delas”, mas sobre “esse mérito de dinheiro”, “queria explicar ao MP”.]
 
– Quer aproveitar para defender sua família que foi acusada de trabalhar em vários lugares ao mesmo tempo?
 
– Há outros funcionários que também trabalharam no gabinete e que faziam depósitos na conta, com valores mais baixos, de 800 reais a 4 mil reais. (Citou 3 funcionários) Por que você recebeu esses depósitos? [Resposta de Queiroz: “Prefiro falar ao MP.”]
 
– Por que você depositou 24 mil na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro. [“O presidente já explicou isso.”]
 
– Por que foi chamado pelo ministério público do rio de janeiro e não compareceu. [Nas duas primeiras vezes, a defesa recomendou não ir sob a justificativa de que o relatório do Coaf não estava completo. Nas outras duas alegou problema de saúde.]
 
– O que está acontecendo com sua saúde para você ter evitado o MP nas últimas 2 vezes? [Resposta foi a mais longa da entrevista, 6 minutos. Deu para olhar para a câmera para avisar às filhas que não tenham medo, mas um câncer foi detectado nos últimos exames. Ele não lembrou o nome do médico nem do hospital onde ficou internado quando faltou ao depoimento no MP pela quarta vez. “Faltei com justificativa, não fugi. Não estou fugindo. Eu sou homem.”]
 
– Quando pretende ir ao MP prestar depoimento? [“Tão logo, tão breve. Acredito que minhas filhas vão depor dia 8. Eu preciso operar antes.”]
 
– Em algum momento o senhor foi pressionado por alguém, se sentiu ameaçado? [Primeiro negou, depois relatou que foi notificado de um carro suspeito perto de sua casa. “Se me matam, vai cair na conta de quem? (…) Depois que aconteceu essa ameaça, eu me escondi um pouco.]
 
– O deputado Flávio Bolsonaro disse que o senhor prestou esclarecimentos e ele ficou satisfeito. O que o senhor disse pra ele? [“É o que vou dizer para o MP.”]
 
– O senhor já passou dinheiro para Flávio Bolsonaro? [“É proibido falar de dinheiro no gabinete. (…) É uma covardia rotular o que está acontecendo comigo ao deputado Flávio Bolsonaro. Não sou laranja, sou homem trabalhador com despesa imensa.”]
 
– Já contribuiu alguma vez para campanha do Flávio Bolsonaro? [“Nunca.”]
 
– Tem falado com Flávio? [“Coisa mais triste do mundo, não tenho falado.”]
 
– Por que o senhor decidiu então receber a gente do SBT? [“Eu não estou foragido. Eu conheço seu programa, sua lisura, e me deixou falar. (…) O meu problema é meu problema.”]
 
– Além dessas duas remunerações que o senhor tem, tem mais alguma outra atividade remuneratória que o senhor quer falar? [“Eu sou um cara de negócios. Eu compro e vendo carro.”]
 
– Tem mais algum ponto importante que o senhor queira falar? [“Eu quero pedir desculpas à família Bolsonaro, à Michelle, pessoa maravilhosa. (…) Tirem a imprensa de cima deles e venham em cima de mim. Eu sou o problema, não é eles.”]

 

Cintia Alves

Cintia Alves é jornalista especializada em Gestão de Mídias Digitais. Ingressou como repórter no Jornal GGN em 2014, participando da cobertura e produção de documentários sobre a Operação Lava Jato. Atualmente é editora e coordena a produção do canal TV GGN, no Youtube, entre outros projetos.

21 Comentários

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  1. Omerta
     
    “Eu quero pedir

    Omerta

     

    “Eu quero pedir desculpas à família Bolsonaro, à Michelle, pessoa maravilhosa. (…) Tirem a imprensa de cima deles e venham em cima de mim. Eu sou o problema, não é eles.”

  2. GOSTARIA que o GGN abordasse

    GOSTARIA que o GGN abordasse o caso do gov. Camata, assassinado ontém

    Ele foi acusado por seu braço direito (de 66 anos) de cx2, de receber de empreiteira, de pegar salário de funcionários enquanto governador e senador. A acusação foi publicada à época no GLOBO

    Camata processou funcionário em 2012. O funcionário condenado teve agora conta bloqueada, e sapecou o TIRO MORTAL no político.

    Afinal, se fez justiça c/as próprias mãos. Se se sentiu HUMILHADO e abandonado pela justiça do país (que todos sabemos o LIXO, o limbo em que se encontra); suponhamos que esse funcionário esteja mesmo indignado e revoltado, falando a verdade. Será que ele merecia ir preso? será que suas denuncias deveriam ter sido ignoradas e a sentença se voltado contra ele?

    1. Também gostaria de
      Também gostaria de saber,,,,,,mas em se tratando do ES isso aí parece ser só uma pontinha do iceberg. Nas mídias parece que ninguém faz questão de levantar hipóteses,,,,,

  3. Jornalista

    Bem, pode estar no diploma e na carteira de trabalho (será?). Mas, e de fato?

    E aproveitando, e os demais assessores( de outros deputados) quando aparecerão? E com movimentação pesada.

  4. As perguntas que a quadrilha Bolsonaro não sabe responder

     

    JUCA KFOURI FAZ 11 PERGUNTAS A QUEIROZ

     

    247 – O jornalista Juca Kfouri elaborou uma lista de 11 perguntas ao ex-assessor do então deputado estadual Flávio Bolsonaro Fabrício Queiroz, após sua entrevista ao SBT. Juca pergunta: “Se a ‘movimentação atípica’ na conta de Fabricio Queiroz vem da venda de carros recuperados de companhias de seguros, por que ele demorou tanto tempo para dar explicação tão singela?”. E emenda: “ele pode mostrar a documentação dos carros que comprou e revendeu?”. 

    Publicada em seu blog, a lista de Juca Kfouri reverbera após uma das entrevistas mais mal sucedidas do período recente. O consenso é de que a entrevista mais atrapalhou do que ajudou a situação da família Bolsonaro. 

    Confira as outras perguntas feitas pelo jornalista: 

    3. Se Jair Bolsonaro não tem tempo para ir ao banco, e daí Queiroz ter depositado na conta da futura primeira-dama, como explicar que o presidente eleito vira e mexe sai de casa exatamente para ir ao banco?

    4. Se Queiroz está doente, porque não disse logo ao país sobre o mal que o acomete?

    5. Se pôde falar ao SBT por que não o fez ao MP?

    6. Se temeu por sua vida por que não pediu proteção às autoridades?

    7. Se não fez nada de errado, por que deixou de falar com Flávio Bolsonaro?

    8. Como dizer que não estava foragido se ninguém o encontrava?

    9. Ele contou que o enteado suicidou-se com um revólver seu. Não é mesmo perigoso ter armas em casa?

    10. Como um ex-policial experiente pôde ser tão descuidado?

    11. Quem ele pensa que engana?

    Bem, essa última pergunta é fácil responder…

  5. A entrevista foi uma

    A entrevista foi uma tentativa bem sucedida de jogar um balde de merda no MP. O cinismo desses bolzosnão tem limites, e tudo fica como está e sempre foi…

  6. Alguém já disse que o sílvio

    Alguém já disse que o sílvio santos é maior alguimista do brasil, porque tudo que toca vira merda. Isto não foi estrevista, isto foi uma dafquelas coisas que o moro faz quando quer proteger os seus no seu talking show curitibano. É só lembrar a puxação de saco com o fhc. O pior de tudo não é barbaridade que dizem ser jornalismo. O pior é quantidade de otários que acredita que isto é jornalismo. Certo estao seu J. Pullitzer. O povo é só reflexo da mídia podre.

  7. Iiii…acharia melhor ele nem

    Iiii…acharia melhor ele nem ter aparecido, ficou pior, vai contar outra lá não sei aonde. O limite, da cara de pau não tem fim!

  8. Cheio de contradições e incriminou Bozofilho sem querer
    Quem em vez de pedir licença médica se exonera para tratar de saúde? Isso não existe. Perde renda e o plano de saúde dos funcionários da Alerj.
    Além do mais a filha foi exonerada no mesmo dia esbanjando saúde.
    Outro enorme deslize foi dizer que fazia a segurança da mulher e filhos do deputado como trabalho de assessor parlamentar. Isso é serviço privado com dinheiro público, igual as viagens de helicóptero de familiares de Cabral sem sua presença que virou denúncia. Incriminou o Bozofilho sem querer. Se o MP tiver coragem já dá para denunciar o senador eleito com base no que Queiroz disse.

  9. O que chama a atenção é o
    O que chama a atenção é o papel vergonhoso,

    cúmplice dessa mídia vendida, que escandaliza o nada quando quer derrubar inimigos e acoberta a roubalheiras descarada por interesses…..pra uma.emissora cujo dono sumiu.com.5 bi uma.pepa de um.milhaozinho é brincadeira de criança.

  10. O G. Camata foi morto por um ex-assessor
    Fiquem velhacos, Bozos. O Gérson Camata foi assassinado por um ex-assessor. Pelo visto, o ex-assessor, ex-motora e ex-segurança não é flor que se cheire. Parece mais criminoso do que o Clã Bolso Sauro.

    Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.

  11. SBT, Record e RedeTV ineditamente já declararam apoio a Bozo

    Por seus donos!

    Band (Saad) apoia sem declarar e a Globo (Marinhos) “não se presta” a explicitar apoio,mas…

    Isso é que é mídia isenta!

    Tamufú!

    Ass: Opinião Pubilca (da)

     

  12. Lembrei de um episódio, do

    Lembrei de um episódio, do Casseta e Planeta, que na época, tirava um sarro daquela advogada acusada de esquemas de aposentadorias na Previdencia,  acho que o nome dela era Jorgina dos Santos. Na cena, que os caras estavam zuando, com os trajes imitando ela,   entrevistando com um monte de perguntas, e ela chorando, a última pergunta foi: ” Porque a senhora chora tanto??” Ao passo que ela responde: “Pq se eu for rir, não paro mais!” Igualzinho, esse Queiroz, tem hora que parece ele vai despencar na gargalhada, não aguenta à própria história.

  13. Prostituição
    Causa até revolta, quando alguém nos decepciona por sua fraqueza moral, espiritual, ética e egoísta. Tudo por dinheiro e poder, para, custe o que custar, continuar seguindo na estrada da delinquência, sem ser incomodado. Imagino que o SBT quer ser o que a organização Globo foi no golpe promovido pela ditadura militar, em 1964. Em troca de subsídios para sua sobrevivência negociou o seu corpo para ser usado e abusado pela ditadura. Como bem entendessem. Triste fim de carreira para Silvio Santos e o SBT.

  14. Isso é o que sabemos….

    A denúncia originada do relatório do COAF é o fio da meada, o que sabemos porque foi divulgado por uma jornalista da Folha e o que não sabemos? O impoluto presidente que tem o dedo acusador apontado para todos, sejam culpados ou inocentes nunca deu uma explicação satisfatória sobre os seus bens e sua renda, denunciado que foi pela ex-mulher que espertamente depois negou pois almejava também entrar no esquema. E o caso da vendedora de açaí, Val? Pois é, general Heleno, o valor é irrisório porque se for feito um pente fino muita merda pode aparecer. Já cheira antes de remexer.

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