Uma escolha difícil parte 9: O Estadão é que faz mal à democracia brasileira, por Eliara Santana

O “nós” contra “eles”, é sempre bom lembrar, foi uma criação midiática tão efetiva que conseguiu levar a população a agredir quem usava vermelho e a execrar todos os que se ligavam ao PT.

Uma escolha difícil parte 9: O Estadão é que faz mal à democracia brasileira

por Eliara Santana

O governo de Jair, o incomível, está destroçando o Brasil – da negação de vacina para criança à economia em frangalhos, tudo está descontrolado e péssimo.

Mas, para o jornal O Estado de São Paulo, quem causa mal à democracia brasileira é Luiz Inácio Lula da Silva. O periódico paulista insiste na ideia da “escolha difícil” de 2018 – e pelo andar da carruagem, continuará a fazê-lo. Diz o editorial:

“Considerando tudo o que o PT fez e deixou de fazer ao longo de seus 40 anos de existência – muito especialmente, no período em que Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff estiveram no Palácio do Planalto –, uma nova candidatura petista à Presidência da República não deveria suscitar entusiasmo na população. A legenda que supostamente seria progressista, ética e renovadora da política percorreu um caminho muito diferente, colecionando casos de corrupção, aparelhamento do Estado, apropriação do público para fins privados e políticas econômicas desastradas”.

Nada mais falacioso e pleno de inverdades. Tudo o que o PT fez e deixou de fazer ao longo dos mais de 13 anos no governo foi: tirar 40 milhões de brasileiros da miséria, garantir acesso à educação para o conjunto da população brasileira, garantir saúde com o Mais Médicos, garantir taxa de juros decente, levar o país a ser a sexta economia mundial, possibilitar aos estudantes pobres o sonho de estudar no exterior, garantir o aumento da renda dos trabalhadores, levar o Brasil a ser respeitado e considerado no exterior, melhorar a economia e a renda a ponto de as pessoas poderem se dar o luxo de viajar de avião, levar as Jéssicas desse país a terem a chance de estudar na USP, conquistando a vaga que seria dos Fabinhos endinheirados, isso tudo para citar apenas alguns exemplos.

A coleção de “casos de corrupção” que o Estadão menciona foi totalmente esclarecida e julgada, e mais: mostrou-se, com todo o desenrolar dos processos, a ação vil e intencional da Operação Lava Jato na perseguição e construção da culpabilidade de Lula e do PT, ação que contou com total apoio da imprensa corporativa brasileira, com total apoio do Estadão.

Diz o editorial, comentando as pesquisas, que “parte do eleitorado está se esquecendo de quem é Lula”. Errado! Se as pesquisas apontam que o filho de dona Lindu pode ganhar no primeiro turno é exatamente porque a população brasileira está se lembrando de como era viver sob um governo petista, quando tínhamos dinheiro para fazer churrasco aos domingos, quando havia dinheiro para as universidades fazerem pesquisa, quando havia renda, quando havia médicos nos rincões do país, quando os aeroportos estavam lotados com pessoas de chinelo de dedo e salto alto, quando havia alegria geral.

O editorial avança e fala que “depois de chegar ao Palácio do Planalto, o PT continuou sua tradição antidemocrática. Apenas mudou de lado na mesa. São famosos e variados os escândalos de fisiologismo do partido de Lula. O mensalão é caso paradigmático de perversão do regime democrático, com uso de dinheiro público para manipular a representação política”.

Tradição antidemocrática? Lula, Dilma e o PT foram atacados dia e noite pela imprensa e nunca nem sequer retiraram os anúncios oficiais dos jornais, revistas e TVs. Nunca houve qualquer tipo de retaliação. Onde está a postura antidemocrática e de aparelhamento do Estado por parte do PT e dos governos petistas que conseguiram fazer as piores indicações ao STF? Cadê o aparelhamento se não se consegue nem nomear ministros da Corte minimamente favoráveis. Onde está a ação antidemocrática do PT e dos governos petistas que deixaram a Lava Jato correr solta e fazer tudo o que fez?

Acho que o Estadão poderia ser mais claro e apontar essas ações e, para provar que defende a democracia e dá voz a todos os lados, seria interessante fazer uma entrevista com Lula e questioná-lo sobre todos esses temas. Silenciar o oponente não é exatamente uma prática democrática, fica a dica.

Prosseguindo, o editorial afirma: “Passou a deslegitimar toda e qualquer oposição ao seu governo, criando uma das mais infames campanhas de incivilidade, intolerância e autoritarismo da história nacional: a do “nós” (os virtuosos petistas) contra “eles” (todos os que não aceitam Lula como seu salvador). O País segue ainda padecendo diariamente dessa irresponsável divisão social, da qual, não por acaso, Lula pretende extrair os votos para voltar à Presidência”.

O “nós” contra “eles”, é sempre bom lembrar, foi uma criação midiática tão efetiva que conseguiu levar a população a agredir quem usava vermelho e a execrar todos os que se ligavam ao PT.

Comentando a Lava Jato – sem citar o nome e sem citar Sergio Moro – e os processos contra o ex-presidente, o editorial do Estadão diz que Lula “ao se apresentar como perseguido político, Lula deixa claro que não acredita nas instituições democráticas do País”. Devemos lembrar ao Estadão que Lula se entregou para a prisão, para Sergio Moro – poderia ter saído e buscado asilo político, não o fez; foi proibido de ir ao enterro do irmão e aceitou a decisão, ficou preso por 580 dias afirmando que sairia para provar sua inocência, e assim o fez. Onde está a postura antidemocrática e de difamação contra o judiciário?

Para fechar, o vaticínio do jornal: “Lula nunca tratou bem a democracia brasileira”.

Quem de fato nunca tratou bem a democracia brasileira foi o Estadão, que apoiou a ditadura militar infame, fala pela elite que quer as Jéssicas de volta à senzala e longe das salas de aula e que apoiou, sem restrição, o golpe contra Dilma Rousseff em 2016.

A eleição de Lula fará um bem danado à democracia brasileira, e esse editorial me parece na verdade um abraço dos afogados diante da iminência de uma vitória acachapante no primeiro turno.

Eliara Santana é uma jornalista brasileira e Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), com especialização em Análise do Discurso. Ela atualmente desenvolve pesquisa sobre a desinfodemia no Brasil em interlocução com diferentes grupos de pesquisa.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

3 Comentários

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Francisco José do Nascimento

- 2022-01-23 21:14:46

Bem para a democracia é ter legitimidade e coerência nas publicações. Um jornal da envergadura do Estadão, com uma publicação desta, não está pensando na imparcialidade. Isto que é macular a democracia.

Douglas Luiz

- 2022-01-23 19:32:12

A legenda que supostamente seria progressista, ética e renovadora da política percorreu um caminho muito diferente, colecionando casos de corrupção, aparelhamento do Estado, apropriação do público para fins privados e políticas econômicas desastradas”. Uai, isso tudo dito aí só pode dizer respeito ao PSDB há 25 anos (dês) governando em São Paulo, e o "Provincia de São Paulo" deve,na sua miopia ou má vontade conservadora, atribuir tais fatos ao PT...

Sergio Navas

- 2022-01-23 16:00:01

O Paquistão da ditadura, ainda colherá o que planta. Haverá o dia em que o sobrenome Mesquita será varrido deste País, colocando-o na latrina da qual realmente fará justiça ao que realmente representa. Fora vermes.

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