8 de junho de 2026

Zygmunt Bauman e o incêndio “líquido” do Museu Nacional, por Wilson Ferreira

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por Wilson Ferreira

Conceito de Zygmunt Bauman, a “Modernidade Líquida” aqui no Brasil assume aspectos dramáticos, como um Projeto que deve ser colocado em prática a todo custo: a drenagem do Estado até a sua liquefação e a transformação em mero gestor de “fluxos”. Um sintoma foi o incêndio do Museu Nacional no Rio. Mas, principalmente, as notícias em torno do futuro do Museu: investigações com alta tecnologia e a possibilidade de imprimir réplicas em 3D a partir de fotos do patrimônio perdido. É notável que toda essa sofisticação não estivesse disponível para mantê-lo sólido e em pé. Só entrou em cena depois que o Museu desapareceu! A ideia de liquidez transformou-se em algo muito além de uma categoria econômica: virou uma espécie de “a priori” cognitivo, no qual não há sentimento de luto ou perda que poderiam promover crítica ou indignação. O pensamento “líquido” transforma catástrofes e tragédias como essas em vulgata ou banalidade: a tecnologia poderá trazer tudo de volta mesmo…

Os leitores deste Cinegnose devem estar percebendo que as últimas postagens cada vez mais vem explorando os conceitos de “liquefação” e “modernidade líquida”. Logicamente, conceitos originados das reflexões do sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017).

Devo confessar que este humilde blogueiro tinha uma certa resistência em ver algo inovador no conceito de Bauman. Afinal, desde o livro clássico de Marshall Berman, “Tudo Que é Sólido Desmancha no Ar – A Aventura da Modernidade” e as reflexões dos chamados “pós-modernos” (Lyotard, Baudrillard, Derrida etc.), acreditava que essa ideia de liquefação da Modernidade já estivesse nessas discussões anteriores como uma consequência natural de um processo de desmaterialização: a precessão dos simulacros e simulações, a crise das meta-narrativas, a diluição da noção de Verdade nos jogos de linguagem etc.

Portanto, parecia que Bauman criava novos nomes para velhos conceitos. Mas o episódio do incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro, colocado em perspectiva no contexto atual no qual o horizonte neoliberal é oferecido como única opção para os brasileiros, mostrou a originalidade da reflexão do pesquisador polonês. 

Pode parecer paradoxal falar que um incêndio tenha a ver com a ideia de algo que se torne líquido. Mas em países (ex)emergentes como o Brasil, no qual à fórceps se impõe o consenso de medidas como terceirização, flexibilizações, privatizações, livre comércio, desregulamentações etc., acredito que essa noção de “modernidade líquida” torna-se bem evidente. Como uma espécie de paradigma, visão de mundo ou princípio lógico mais profundo. Visível não só no trágico incêndio, mas também nas medidas que vão sendo tomadas para a reconstrução.

 

Três notícias da Modernidade Líquida

Três notícias recentes sobre o Museu Nacional são sintomas dessa liquefação generalizada em processo no País:

(a) Polícia Federal mobiliza peritos para investigar Museu Nacional do Rio. Para isso, mobiliza um sofisticado aparato tecnológico com equipamentos de mapeamento 3D de ambientes, drones e câmera de alta resolução. O objetivo é identificar a causa do incêndio, por onde começou e como se alastrou. A sofisticada parafernália vai analisar desde o perfil da queima dos objetos e o padrão de dispersão da fuligem, para tentar identificar de onde partiu o fogo e principalmente tentar identificar se foi um incêndio acidental ou intencional a partir da construção de uma maquete virtual.

(b) Começam agora a saltar notícias levantando suspeitas de má gestão do museu pela UFRJ: o Corpo de Bombeiros informou que o Museu não tinha “Certificado de Aprovação” emitido pela Corporação. E também de que um arquiteto teria denunciado em Julho ao Ministério Público Federal que o Museu Nacional corria risco de incêndio. A suposta denúncia falava em “descaso da administração da UFRJ”.

(c) Começou com o especialista em tecnologia, Ronaldo Lemos, no programa “Estúdio i” da Globo News. Para aliviar o ar pesado de luto e consternação que pairava sobre os participantes do programa diante das imagens sobre incêndio e destruição de um patrimônio histórico incalculável, Lemos acenou com um final feliz: seria possível através de fotografias e selfies dos visitantes, reproduzir réplicas com impressoras 3D. Agora, a vice-diretora do Museu, Cristiana Serejo, também acena com essa espécie de ressurreição virtual do patrimônio incendiado com réplicas impressas em 3D.

 

Como abordamos em postagem anterior (veja links ao final), o incêndio no Museu Nacional se reveste de um papel mais do que simbólico: é um sintoma de um projeto sócio-econômico que não tem a ver apenas com a miniaturização do Estado: o Estado tem que ser drenado em seus recursos (que afinal tem a ver com os da própria sociedade, provenientes do trabalho da economia real) para o pagamento da dívida pública para os seus credores, a banca financeira – cuja dívida bruta atual compromete 74% do PIB.

Um projeto que vende para a opinião pública a “gestão eficiente” mediante dramático corte de gastos públicos, sempre nas áreas sociais, culturais, educacionais, científicas e tecnológicas (investimentos voltados para a sociedade real) para liberar a riqueza da sociedade para ser drenada pelo sistema financeiro. Que pulverizará tudo na espiral especulativa, numa acumulação de capital sem acumulação de valor – a essência da financeirização e brutal liquidez global.

Aqui começa a originalidade do pensamento de Bauman: essa noção de liquidez saiu do mundo hermético dos algoritmos dos mercados financeiros para se transformar numa categoria de pensamento, numa espécie de a priori kantiano através do qual todos os eventos reais podem ser medidos, comparados e avaliados. Dessa maneira, assim como o Estado é drenado pela banca, também a cognição será drenada por uma ideia generalizada de liquefação.

Um incêndio “líquido”

Nessas notícias descritas acimas, estão três sintomas dessa modernidade líquida.

Para começar o próprio incêndio do Museu: patrimônio científico e histórico, assim como o patrimônio do Estado (estatais, infraestrutura, riquezas minerais etc.) precisam ser “drenados” (incendiados, privatizados, transferidos para o exterior, roubados, seja como for) para a sociedade tornar-se “leve” para correr por esse rio rápido da liquidez. 

 

Wilson Ferreira

Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.

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