Greve Histórica dos Entregadores de Apps Desafia a Precarização do Trabalho, por Adriana Saraiva

A realidade desses que estão carregando a sociedade pandêmica nas costas é bem pior do que imaginamos.

Foto Brasil de Fato

Greve Histórica dos Entregadores de Apps Desafia a Precarização do Trabalho

por Adriana Saraiva

Estamos presenciando, nesse 1 de julho, um movimento que promete ser histórico:  a primeira greve de entregadores de aplicativos no Brasil. Trata-se de um movimento autônomo, auto-organizado, que tem contado com o apoio de várias entidades e busca a conquista de direitos legítimos para um grande número de trabalhadores.

Em um mundo duramente atingido pelo desemprego – agora muito aprofundado pela crise econômica decorrente da pandemia –  os entregadores poderiam parecer os únicos (e felizes) trabalhadores que teriam conseguido driblar a crise e o desemprego. Não são. Apesar do grande número de entregadores que vemos circulando nas ruas; apesar de sabermos que esse ramo (o dos aplicativos) foi um dos únicos que cresceu vigorosamente durante o advento da pandemia – que abateu a maioria dos setores e/ou ramos da economia nacional e global; a realidade desses que estão carregando a sociedade pandêmica nas costas é bem pior do que imaginamos.

Em média, um entregador pedala (no caso do ciclista) cerca de 50 Kms por dia, trinta dias por mês, para retirar, ao final desse período, um salário mínimo. Em suas condições normais de trabalho, não conta com banheiro e não tem direito a almoço, tampouco a férias, além de ter que arcar com os próprios Equipamentos de Proteção individual (EPIs), para se proteger da doença que ora nos aflige. Além disso, não conta com qualquer apoio em caso de roubo, acidentes ou doença.

Acrescente-se a tudo isso, algumas condições adicionais de trabalho: o entregador precisa ficar logado e à disposição do aplicativo todos os dias da semana, sob pena de ser rebaixado e não receber mais corridas, o que implicaria em seu bloqueio e na perda do trabalho sem aviso, explicação ou qualquer possiblidade de reclamação.  Isso sem mencionar que, muitas vezes, é alvo de golpes, como quando o cliente, mesmo tendo recebido o pedido, alega ao aplicativo o seu não recebimento, o que acarreta no cancelamento imediato de sua inscrição no app.

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Por todas essas condições e por se encontrarem em uma fronteira pantanosa no campo das relações de trabalho – na qual pesa a inexistência de vínculo formal empregatício, inserida em um modelo de negócio cruelmente fluido – muitos entregadores passaram a se pensar como empreendedores, ao invés de trabalhadores. Esses profissionais, portanto, tornaram-se símbolo das piores condições de trabalho da atualidade e são considerados o típico exemplo do precariado, inspirando a criação do termo uberização do trabalho, que exprime com exatidão a nova relação e aponta para transformações sociais consideradas inexoráveis na contemporaneidade. Nessa perspectiva, os entregadores de apps eram vistos, até muito recentemente, como de difícil organização, justamente por associarem todas essas condições específicas de trabalho.

O caráter histórico da luta agora travada, revela-se como o surgimento de uma luz no fim do túnel, quando aponta para formas de finalmente frear a crescente e destrutiva onda de desregulamentação neoliberal do trabalho, que tem destroçado não só a vida desses profissionais, como contaminado as demais relações trabalhistas do planeta.  Assim, a organização autônoma desses trabalhadores, em prol da conquista de seus direitos justos, não só surpreende favoravelmente como é vista com muito otimismo e solidariedade por todas e todos que ainda acreditam e lutam por uma sociedade mais justa e menos desigual.

Neste primeiro de julho, TODO APOIO À GREVE DOS ENTREGADORES DE APPS!

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