4 de junho de 2026

Prefeitura de São Paulo quer despejar Coopamare, referência na coleta seletiva

Coopamare coleta em média 96 toneladas de materiais recicláveis por mês. Se catadores decidirem permanecer, Prefeitura pode usar a força
Coopamare: 96 toneladas de resíduos coletados por mês. Marcos Santos/USP imagens

A Cooperativa de Catadores Autônomos de Papel, Aparas e Materiais Reaproveitáveis (Coopamare) recebeu uma notificação onde a Prefeitura de São Paulo estabelece prazo de 15 dias para que ela saia do local em que está instalada, entre as ruas Galeno de Almeida e João Moura, sob o viaduto da Avenida Paulo VI, em Pinheiros. 

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O auto de infração foi expedido pelo Poder Público no dia 23 de junho. Em ação do Ministério Público (MP), a Prefeitura de São Paulo vem sendo inquirida a responder por incêndios que ocorrem sob viadutos na capital. Desse modo, a fiscalização entendeu que a Coopamare representa um risco e tem de sair.     

Conforme a notificação, os “infratores”estarão sujeitos às “medidas administrativas” cabíveis, que de acordo com o Decreto 48.832/2007 pode significar lavratura de boletim de ocorrência por crime de desobediência e esbulho possessório, além de retirada compulsória, mediante o uso da força. 

Eduardo Ferreira de Paulo, o Dudu, liderança histórica dos catadores e catadoras, salienta que se trata apenas de uma notificação, o trabalho seguirá normalmente na Coopamare. O que não se sabe ainda “é o que vamos fazer, vamos ter que decidir com todo mundo aqui”, diz. 

Dudu não se abala. Imagina um caminho de negociação pelo MP. Está na Coopamare desde a fundação, precisou enfrentar algumas gestões municipais que não apoiam as cooperativas e desrespeitam as leis. Também veio da rua, lidou com muitas batalhas na vida. 

A Coopamare  

Primeira cooperativa de catadores de materiais recicláveis do Brasil, a Coopamare transformou seu endereço num marco na cidade que produz 12 mil toneladas de lixo por dia, liderando o ranking nacional. É como se cada morador da capital paulista jogasse fora um quilo de lixo todos os dias. 

Durante a tarde desta quinta-feira (29), diretores, cooperados e organizações aliadas se reuniram na Coopamare para decidir quais medidas tomar diante da postura da Prefeitura de Ricardo Nunes (MDB). Em outras ocasiões, como em 2006, o Poder Público permitiu a permanência com um termo de concessão. 

Na notificação, a Secretaria de Subprefeituras informa que a Coopamare ocupa de maneira irregular uma área municipal. No entanto, a cooperativa está no local há mais de 30 anos, onde emprega moradores de rua para que, com o dinheiro da coleta de recicláveis, consigam moradia e reinserção social.

Mulheres são maioria

Desalojar a Coopamare é também uma forma de retirar das mulheres o seu sustento. Conforme o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), as mulheres são a maioria entre os catadores de materiais recicláveis, representando 70% dos 800 mil trabalhadores em atividade. 

“Para mim tudo era lixo, hoje não, quando eu comecei a trabalhar eu comecei a ver o lixo de outra maneira, a parte da reciclagem a coleta seletiva”, conta ao jornal Brasil de Fato Nilzete Romão dos Santos, presidenta da Coopamare.  

Maria Divina passou dos 50 e está há 25 anos nas ruas de São Paulo, como catadora de recicláveis. Perdeu as contas de quantas toneladas daquilo que era lixo e ela tirou do ambiente urbano levando-o para novo ciclo de uso. Assim também se cuidou de si e da família, com dignidade e muita luta. 

Ela faz parte da Associação das Mulheres Catadoras, aliada da Coopamare, como tantas outras cooperativas no Estado de S. Paulo. “Coleta seletiva sem catador é lixo”, ela diz ao defender a Coopamare e a necessidade do Estado cada vez mais colocar os catadores em seu devido lugar: naquilo que a lei diz. 

Prestadores de serviço público

A Defensoria Pública conhece o trabalho e a importância atual e histórica do trabalho feito pelas catadoras e catadores da Coopamare. “A coleta seletiva na cidade de São Paulo começou por ela em 1989, na gestão Luiza Erundina”, explica o defensor Público Paulo Alvarenga.

De acordo com o defensor, é preciso reconhecer e assegurar, por meio de contratos e remuneração, os direitos das catadoras e catadores como prestadores de serviço público de coleta seletiva para a cidade. Há, inclusive, lei federal que garante aos catadores e catadoras tratamento como categoria emergente.  

“A contratação de catadores para a coleta seletiva deve ser uma prioridade de todo o município, é o que prevê a Lei 12.305/10, a Política Nacional de Resíduos Sólidos, norma geral que deve ser observada por todos os entes da Federação”, diz Alvarenga.

Sobre a ocupação da Coopamare, Alvarenga entende que há o consentimento do município há décadas, que “sempre contou com o trabalho de coleta seletiva feito pelas catadoras e catadores da cidade, inclusive, os catadores avulsos, que têm na Coopamare sua referência profissional e de pertencimento à cidade”.

Política Pública

O defensor reforça que a Política Pública, e as decisões da administração que busquem concretizá-las, precisa cumprir a  Lei Nacional. A lei, por sua vez, diz que os resíduos sólidos são bem econômico e de valor social, de trabalho e renda e promotor de cidadania. 

A lei também “reconhece o/a catador/a como agente fundamental da gestão integrada de resíduos sólidos, tanto que prioriza a sua contratação e integração”, salienta Alvarenga.

“Toda coleta que não for seletiva é inconstitucional, pois viola o direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e os objetivos fundamentais da Constituição”, enfatiza.

Contexto da Coopamare

“Se nós temos hoje no Brasil entre 3% e 4% de reciclagem, eu diria que 75%, 80% desse volume é fruto do trabalho dos catadores (…) movimentando uma economia que pode prover a subsistência para toda essa camada da população”, explicou à TV Globo o presidente da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais, Carlos Silva Filho.  

Na Coopamare, se coleta em média 96 toneladas de materiais recicláveis por mês, organizar e comprimir em fardos de até 250 quilos. Os fardos são vendidos para indústrias: o montante arrecadado garante de R$ 900 a R$ 1.000 mensais para cada um dos trabalhadores associados à Coopamare.

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Renato Santana

Renato Santana é jornalista e escreve para o Jornal GGN desde maio de 2023. Tem passagem pelos portais Infoamazônia, Observatório da Mineração, Le Monde Diplomatique, Brasil de Fato, A Tribuna, além do jornal Porantim, sobre a questão indígena, entre outros. Em 2010, ganhou prêmio Vladimir Herzog por série de reportagens que investigou a atuação de grupos de extermínio em 2006, após ataques do PCC a postos policiais em São Paulo.

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1 Comentário
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  1. Bela Sister

    30 de junho de 2023 10:13 am

    É um absurdo!

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