23 de junho de 2026

A contestação dos Mamonas Assassinas

Afinal, quem foram os “Mamonas Assassinas”? 

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Ainda está presente em nossas cabeças o modelo irreverente de um grupo musical que contestava todos os costumes do mundo moderno. Trata-se do Mamonas Assassinas. Vejamos sua contestação e desejo de mudança.

Nem acabaram eles de agradecer a “Santos Dumont, que inventou o avião”, um acidente aéreo sepulta abruptamente a banda, surgida do anonimato e em vertiginosa ascensão no espaço da música popular brasileira. Quase dois milhões de discos vendidos em tempo relâmpago e a multidão de crianças e jovens chorando o repentino desaparecer dos ídolos testemunham o sucesso e a popularidade.

A mídia exerceu, sem dúvida, um papel relevante na produção desse fenômeno meteórico. Mas, para além dessa explicação óbvia, quase lugar-comum, que sempre credita os meios de comunicação, em especial a TV, pelos acontecimentos massivos de nossos dias, é necessário suscitar uma questão de fundo, muito pouco refletida, que pergunta pelo motivo da enorme aceitação e desse misto de delírio coletivo e rebeldia, que contagiou a massa receptora da música dos Mamonas.

A pergunta nos leva a indagar sobre o homem, o tempo hodierno e uma possível filosofia do sujeito humano, no limiar do milênio, quiçá escondida e propositadamente abafada sob a frenética aparência dos rapazes de Guarulhos.

“Eu queria um apartamento no Guarujá.Mas o melhor que eu conseguifoi um barraco no Itaquá.Eu sou cagado, veja só como é:se dá uma chuva de Xuxano meu colo cai Pelé.É como aquele ditado que dizia:Pau que nasce torto, mija fora da bacia” 

Utopia, o primeiro nome da banda, foi logo abandonado. Fato casual? 
Utopia era palavra muito acariciada pelos “revolucionários” das décadas de 60-80. Indicava caminhos de libertação, crença em ideais hoje tidos como inatingíveis: justiça, bondade, beleza pura. A pós-modernidade instaura uma desconstrução desses temas. Ouçamos, de passagem, uma estrofe de “Cabeça de Bagre II”.
  
“A polícia é a justiça de um mundo cão. 
Mês de agosto sempre tem vacinação. 
Na política, o futuro de um país, 
cale a boca e tire o dedo do meu nariz”.
   
Valores de um tempo já passado, dito moderno, não atraem mais o homem pós-moderno. Elenco alguns, retomando o filósofo Derrida, um dos “inventores” da pós-modernidade: Deus, Ser, Sujeito, Consciência, Estado, Revolução, Família. 
Também as grandes filosofias explicativas do Homem e do Universo caíram de moda. Textos salvacionistas, de libertação numa vida futura ou presente, ecoam no vazio. 
Vagar incerto, sem rumo, verdadeiro “walking in the dark”— andando no escuro — (letra de “Débil Mental”), o cosmo um jogo indefinido: eis a sensação do homem nessa derrocada de valores. Várias letras do CD apontam esse vazio da existência:
  
“Subiu a serra me deixou no Boqueirão. 
Arrombou meu coração depois desapareceu. 
Fiquei na merda nas areias do destino”.
  
Em vez do planejamento produtivo e distributivo, impera, no sistema vigente, a tecnociência dirigida para o consumo em massa, para o lucro sem nenhuma perspectiva social. Estrofes irreverentes e espetaculares denunciam essa doidice: 

“Mas pior de todas é a minha mulher. 
Tudo o que ela olha, a desgraçada quer: 
Televisão, microondas, micro system, 
microscópio, limpa-vidro, limpa-chifre, 
facas ginsu… 
Ambervision, frigi-diet. 
Celular, Master-line, camisinha, 
Camisola e Kamikase.
  
Em “Pelados em Santos”, aparece o mesmo tema:

“Na Brasília amarela com roda gaúcha 
ela não quis entrar. 
Feijão com jabá 
a desgraçada não quer compartilhar”.

E, ainda, em “Chopis Center”: 

“Quanta gente 
quanta alegria. 
A minha felicidade é um crediário 
nas Casas Bahia”.
  
O homem pós-moderno privilegia temas considerados marginais. O primeiro e mais explosivo, o sexo-prazer-desordem e o preconceito, que corre solto, desenfreado, desvairado. É a “suruba” da música Vira-Vira, na qual a mulher, Maria, sempre sai “arregaçada”, arrebentada, mas o homem, Manoel, sempre pretende dar a volta por cima e levar vantagem:

“Oh Maria, essa suruba me excita”

Mas declara:

“Dei graças a Deus porque ela foi no meu lugar”.

De novo, o sexo desenfreado em “Robocop Gay”: 

“O meu andar é erótico, 
com movimentos atômicos, 
sou amante robótico 
com direito a replay”. 
Mais forte, ainda, em Bois don’t cry: 
“Sou um corno apaixonado. 
Sei que já fui chifrado, 
mas o que vale é tesão”. 

O jogo, a superficialidade, a banalidade, o quotidiano, o pragmatismo do agora, a vida vivida só no instante presente, o flutuar das experiências, sem nenhuma perspectiva de futuro, são marcas fundas do pós-moderno. Os Mamonas também vão nessa:

“Ser corno ou não ser eis a minha indagação”. 

Ou então em “Uma Arlinda mulher”: 

“Você foi agora a coisa mais importante 
que já me aconteceu neste momento 
em toda a minha vida. 
Um paradoxo do pretérito imperfeito 
complexo com a teoria da relatividade”.

A diversidade das formas, a transitoriedade do homem-hoje não escaparam nas letras do CD:

“Hoje eu estou tão eufórico, 
com mil pedaços biônicos. Ontem eu era católico, ai, hoje eu sou gay!!! 
Você pode ser gótico 
ser punk ou skinhead 
tem gay que é Muhamed 
tentando camuflar…” 

Conformismo, pessimismo, passividade, ausência de força moral. O homem pós-moderno não enxerga nenhum horizonte. Notei tudo isso em quase todas as letras dos Mamonas. O som alegre e ruidoso, os gestos irreverentes, escondem uma profunda melancolia, retrato de um mundo sem rumo. 

“Fome, miséria, incompreensão, 
o Brasil é tetra campeão” 
“Hoje eu tô arrependido de ter feito migração. 
Volto para casa fudido 
com um monte de apelido…” 

Esta breve radiografia a brotar de uma despretensiosa análise das letras do estrondoso e supercomercializado CD permite-me concluir que o jeito e a mensagem desses garotos saídos da penumbra para uma rápida apoteose explicam o sucesso muito mais do que a montagem e a especulação da mídia. Eles cantaram e falaram ao coração da juventude tocando temas que circundam a vida hoje.

Diria eu até que a mídia, enfatizando apenas o lado irreverente, jocoso e frenético da banda (evidentemente por motivos de marketing) acabou assassinando em proposital ostracismo a profunda filosofia presente nas letras dos Mamonas. Elas apresentam, em seus traços essenciais, o homem pós-moderno.

E, por cúmulo da fatalidade, até o jeito de morrer desses garotos, repentino e inesperado, retrata a figura do sujeito humano neste fim de século: fugidio, transitório, efêmero, como um meteoro fugaz cruzando o céu de um cosmo que ninguém sabe para onde vai.

Autor desconhecido

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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12 Comentários
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  1. Marta de Paula

    16 de janeiro de 2014 1:59 am

    Gostei do artigo

    Parabéns pelo artigo.Gostei mesmo.

  2. RENATO ZUQUE

    26 de fevereiro de 2014 6:02 am

    Eu não via graça nesse

    Eu não via graça nesse grupo.Eu tinha sete anos e as demais crianças eram hipnotizadas pelas músicas,mesmo não entendendo o que é suruba.Há uma lenda que eles venderam a alma ao Diabo.Olha,eles podem até não ter feito o tal pacto mas eu sentia uma energia negativa e não uma alegria contagiante como muitos.E o cara da capa preta que aparece no salão que está Júlio Rasec,falando do sonho que ele teve?Quem é?Na minha opinião eles não me deixaram saudades e não os vejo como um grupo que deixou algo.É a minha opinião e cansei de guardá-la para agradar bilhões de fãs saudosistas.

     

  3. Hereck

    14 de março de 2014 1:19 pm

    Para o Renato!

    Renato, boatos tem de monte… que a xuxa é do diago, que o raul é do diabo… somos todos humanos e temos sonhos. Os mamonas era pessoas boas, que nao matavam, nao roubavam, nao aterrorizavam ninguem. Encontraram na musica, um jeito alegre, eu ri muito e até hoje me divirto com as letras das musicas. Se voce conhecesse um pouco mais as letras, voce verá que existe crítica humorada ao estado do nosso país, crítica ao consumismo, como disse o autor acima.

    Olhe isso:

    “Fome, miséria, incompreensão, o Brasil é tetra campeão”.

    Sim, eram os mamonas nos dizendo que a gente nao ta nem ai com a fome, com a miséria, o importante é o brasil ganhar a copa do mundo.

    Estamos em  2014, copa no brasil, e continuamos na mesma!!!

    Nao estou tentando mudar sua opinao de nao gostar das musicas, mas por favor, nao seja retardado a ponto de dizer sobre “vendeu alma pro diabo”, e “homem da capa preta”…

    Isso sim me enjoa…

     

     

  4. marcelo gonçalves

    12 de janeiro de 2015 3:34 pm

    A MAIOR BANDA DE CULTURA INÚTIL QUE O BRASIL PRODUZIU

     FOI A PROVA DA MAIOR BANDA DE CULTURA INÚTIL QUE O BRASIL PRODUZIL!

     O BOM É QUE TUDO NO BRASIL SE ESQUECE LOGO, E ESSA BANDINHA DE QUINTA JÁ TA ARDENDO NO INFERNO.

     AS NOVAS GERAÇÕES FICARAM LIVRES DE MAU EXEMPLOS PARA SEMPRE . GRAÇAS A DEUS!!!

  5. Rosencrantz0

    11 de junho de 2015 3:59 am

    Mamonas foram Sublimes

    O Vira, dos Mamonas, é uma espécie de Hino Nacional da Noite foliona de Portugal ( veio para ficar); uma benção feita música, quanto mais os anos passam, mais sagrado se torna o Vira. O acento de Português Europeu de Dinho é perfeito, só a palavra “bunda” o traiu, senão passava por Português com magnânimo vozeirão.  Nada tão genial como  introduzir um Baixo nos primeiros acordes do centenário Vira minhoto ( é sublime, é de génio, é de quem do velho opera o milagre do rejuvenescimento), ficará, para sempre, a marca de divina criatividade. Depois vem a introdução do “Bate o Pé” y do “Arrebita”, o Vira acústicamnte trespassado por todas as sonoridades de instrumentos inusuais, delícia, magia, que presentão, senhores. Y depois nada de tão epicamente surreal do que uma Maria & um Manel, portugueses,  surumbeiros. Que coisa maravilhosa y divina, esse vira tão generoso, mágico, divino. Qual filosofia, qual ciência, qual expesso tecido intelectual a arrotar a vazio balofo de intelectualóides afectados, qual nada … O Mamonas, com o seu Vira, operaram magia, y daquela  que é da ordem do divino. Eternamente grata.

    Me espanta que tanto intelectual, tão cheio de si, não se questione no seguinte: Mamonas assassinas? Não! Mamonas Assassinadas … Pensem nisso.

  6. Quociente Cultural

    11 de junho de 2015 4:09 am

    Mamonas foram Sublimes

    O Vira, dos Mamonas, é uma espécie de Hino Nacional da Noite foliona de Portugal ( veio para ficar); uma benção feita música, quanto mais os anos passam, mais sagrado se torna o Vira. O acento de Português Europeu de Dinho é perfeito, só a palavra “bunda” o traiu, senão passava por Português com magnânimo vozeirão.  Nada tão genial como  introduzir um Baixo nos primeiros acordes do centenário Vira minhoto ( é sublime, é de génio, é de quem do velho opera o milagre do rejuvenescimento), ficará, para sempre, a marca de divina criatividade. Depois vem a introdução do “Bate o Pé” y do “Arrebita”, o Vira acusticamente trespassado por todas as sonoridades de instrumentos inusuais, delícia, magia, que presentão, senhores. Y depois nada de tão epicamente surreal do que uma Maria & um Manel, portugueses,  surumbeiros. Que coisa maravilhosa y divina, esse vira tão generoso, mágico, divino. Qual filosofia, qual ciência, qual espesso tecido intelectual a arrotar a vazio balofo de intelectualóides afectados, qual nada … O Mamonas, com o seu Vira, operaram magia, y daquela  que é da ordem do divino. Eternamente grata.

    Me espanta que tanto intelectual, tão cheio de si, não se questione no seguinte: Mamonas assassinas? Não! Mamonas Assassinadas … Pensem nisso.

  7. Diogo de F. Bagliuso

    18 de outubro de 2015 6:04 am

    Antes e depois da Internet

    Antes nao se tinha internet, hoje essas letras a gente ve nos comentarios e posts com muita frequencia. Parabens pela materia! voce ouvindo a musica e lendo a letra com calma tem um paradoxo enorme. Cabe até um estudo mais profundo mesmo, e voce chegou bem perto de desvendar a malicia. mais uma vez parabens!

  8. Rodrigues

    21 de abril de 2016 8:13 pm

    Mentes paupérrimas, galgaram

    Mentes paupérrimas, galgaram rápido, mas cairão ainda mais rápido, pois amaram o mundo, porquanto éram do mundo “quem entenderá?”.

  9. Andre Santos da Paz

    29 de maio de 2016 8:02 pm

    Cara essa foi a maior banda
    Cara essa foi a maior banda que já existiu no Brasil.. Fez muita gente feliz..

    Já o crítico lá de cima… Que disse q foi uma cultura inútil, para você escrever produziu com “L” da pra perceber que o inútil é você..

  10. Bia Andrade

    2 de outubro de 2016 12:32 am

    cada um tem sua opinião
    É triste ver que algumas pessoas ainda não sabem que em cada música eles interpretam um personagem, não importa se a música trás melancolia ou não, é bonito ver que mesmo em músicas melancólicas eles faziam milhares de pessoas sorrirem e passavam felicidade. O que mais encanta é a melodia de cada música e a quebra de preconceito. Ao autor, encare a vida com menos seriedade. Gostei do texto 🙂

  11. Vinicius

    6 de novembro de 2022 3:37 pm

    Os Mamonas são/foram geniais. Aqueles que torcem o nariz pra eles, com certeza são os broxas,os ranzinzas, os que vêem a vida sempre com mau humor. Quer queiram ou não, os Mamonas deixaram o seu legado na MPB.

  12. Alan

    22 de fevereiro de 2023 12:22 am

    Eu lendo essa crítica das letras dos Mamonas em 2023, queria muito se possível uma crítica às letras de hoje em dia que carregam muito mais em apologia ao sexo desenfreado ostentação e drogas.

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