Eu, que andava carente de shows musicais envolventes, tive a sorte de ir a dois em um único fim de semana. O primeiro foi o encontro inesquecível de uma das damas da canção brasileira, Áurea Martins, com o mais lírico de nossos compositores-pianistas, Cristóvão Bastos.
Em seu livro sobre a bossa nova, Ruy Castro decretara o fim do samba-canção, reduzindo-o a mero bolerão. Depois se redimiu, com um livro dedicado ao gênero e às boates do Rio de Janeiro — reconhecendo tardiamente o que sempre esteve lá.
No show, na Casa de Francisca, Áurea e Cristóvão revivem os clássicos. Ouvir “Neste Mesmo Lugar”, de Klécio Caldas e Armando Cavalcanti, na voz dela e no piano dele, é um privilégio sem igual. Assim como “Doce de Coco”, o choro de Jacob do Bandolim com letra de Hermínio Bello de Carvalho.
Melhor do que os clássicos, porém, só as composições intemporais de Cristóvão — entre elas uma das mais belas canções da história da MPB: “Todo Sentimento”, parceria com Chico Buarque, que traz do fundo da memória o sentimento mais doce e mais agudo ao mesmo tempo.
Confesso que não consigo ouvir essa música sem pensar nos meus queridos — especialmente no Vinão, meu doce enteado que partiu cedo demais. Ali na Casa de Francisca, a interpretação emocionada de Áurea trouxe à tona os sentimentos individuais de cada um no público, no doce mistério da canção que reúne memórias dispersas no grande coro da saudade.
A voz doce de Áurea, com a fragilidade que a idade lhe conferiu, é emoldurada pela delicadeza do piano de Cristóvão — e juntos trazem à tona todo sentimento.
Das boates do Rio onde Áurea atuou como crooner, a dupla resgatou “Fale Baixinho”, do grande Portinho em parceria com Heitor Carillo. E, mais contemporâneo, “Meus Guardados”, de Cristóvão e Roberto Dídio.
O ponto alto, porém, foi um clássico que não consta do CD Amizade, gravado pelos dois: “Resposta ao Tempo”, outra das composições inesquecíveis de Cristóvão Bastos, desta vez em parceria com Aldir Blanc — e que encerrou a noite como só os grandes momentos da música brasileira sabem fazer.
José de Almeida Bispo
13 de abril de 2026 7:33 amHá um amigo meu, espírita, que tem uma frase, sempre usada para obras musicais catárticas: “É tão leve e profunda, que a gente desencarna e nem percebe”.
Eu, com um pé na frente, outro atrás, prefiro denominar o desencarne de morte. E não romantizá-la, obviamente. Mas, que peças como TODO SENTIMENTO, me conduzem a um estado especial, disso não tenha dúvida.