A Valsa Brasileira

Esta semana, de sexta a domingo, o SESC Ipiranga apresentou uma série sobre a valsa brasileira. Tive a honra de ter uma valsa incluída no repertório de Renato Braz, que se apresentará hoje (“Restos de Saudades”, em parceria com Jorge Simas).

A história da valsa brasileira – e latino-americana— é curiosa. O gênero chegou ao Brasil com a Família Real Portuguesa, no início do século 19. Teve como primeiro cultivador o Imperador Dom Pedro I. Quando já tinha desaparecido de outras partes do mundo, começou o século 20 como o gênero romântico por excelência, se impondo sobre a modinha, a toada e a seresta e só perdendo o posto para o samba-canção nos anos 40.

Poucos gêneros produziram tantas obras-primas no século, quanto a valsa.

No CD que gravei em 1995, solando bandolim, selecionei pelo menos quatro valsas clássicas: “Subindo aos Céus” (Aristides Borges), de 1908, “Louca”, (Chico Neto), de 1930, “Feia”, (Jacob do Bandolim) e a venezuelana “El Marabino”, de Antonio Lauro.

No início do século, já era o gênero brasileiro mais avançado ao lado do choro. É só conferir “Subindo aos Céus”, “Revivendo o Passado”, de Freire Júnior, “Ave Maria”, de Erotides Campos, as valsas eruditas de Ernesto Nazareth, alguns anos depois as valsas singelas de Zequinha de Abreu, o “Rapaziada do Braz”, de Marino Júnior, o “Abismo de Rosas”, de Américo Jacomino, “Rosa”, de Pixinguinha, as valsas-serestas de Cândido das Neves. No campo da valsa-seresta, ainda, há o imbatível “Chão de Estrelas” e “Arranha Céu” (ambas de Sïlvio Caldas e Orestes Barbosa). Francisco Mignone compôs um conjunto precioso de valsas-choro, na série Valsas da Esquina.

Na formação clássica dos regionais, é gênero tão cultivado quanto o choro, embora não tenha conseguido se modernizar na forma. Nos anos 40, Garoto (“Desvairada”) e Jacob do Bandolim (“Feia”, “Salões Imperiais”) tentaram injetar ânimo novo no gênero, mas em vão. Mesmo assim surgiram preciosidades modernas, como o “Valsa de uma Cidade” (Ismael Netto e Antonio Maria). Nos anos 70 e 80 foram compostas algumas das mais belas valsas da história, como “Luiza” (Tom Jobim), “Beatriz” (Chico e Edu), mas como produção esporádica, sem ressuscitar o gênero.

O cantor Carlos Galhardo (1913-1985) foi considerado o “rei da valsa” no país, assim como o compositor José Maria de Abreu, autor do clássico “Boa noite, amor”, em parceria com Francisco Matoso, com quem compôs outras 37 músicas.

Matoso morreu jovem, em 1941, com apenas 28 anos. Além desse clássico, em parceria com Lamartine Babo compôs “Eu sonhei que tu estavas tão linda” e uma penca de músicas com o grande pianista Nono, tio dos irmãos Peixoto.

O repertório de valsas de Galhardo foi imbatível. Desde “Cortina de veludo” (Paulo Barbosa e Osvaldo Santiago), “O Destino Desfolhou” (Gastão Lamounier e Mário Rossi), “Nós queremos uma valsa” (Nássara e Frazão) e sua gravação mais famosa, “Fascinação” (versão de Armando Louzada para a valsa de Marchetti).

Todos os grandes cantores até os anos 50 passaram pela valsa, assim como os grandes compositores do século. Lamartine Babo (“Eu sonhei que tu estavas tão linda”, com Francisco Matoso), Ary Barroso (“Canta Maria”), Claudionor Cruz e Pedro Caetano (“Caprichos do Destino”).

Algumas das mais belas valsas brasileiras foram compostas por compositores que ticaram pouquíssimo conhecidos fora dos círculos dos iniciados. É o caso de Jorge Faraj (1901-1963), que, com Newton Teixeira (1916-1990) compôs um de nossos clássicos prediletos, “A Deus da Minha Rua”.

Outros dois, extraordinários, foram Roberto Martins e Mário Rossi, compositores de alta qualidade. Juntos, compuseram uma das mais belas valsas brasileiras, o “Bodas de Prata” (“Beijando teus lindos cabelos / Que a neve do tempo marcou / Eu tenho nos olhos molhados / A imagem que nada mudou / Estavas vestida de noiva Sorrindo e querendo chorar …”)

Aldo Cabral foi outro autor fundamental, parceiro de Benedito Lacerda em “Boneca”. Saint-Clair Senna, de quem não se consegue nada, nem na Internet, compôs “Misterioso Amor”, entre outros clássicos de Galhardo.

J. Cascata e Leonel Azevedo conseguiram maior sucesso. É deles “Lábios que Beijei”, interpretação clássica de Orlando Silva. Sadi Cabral, que cheguei a assistir, já idoso, como ator de novelas da Globo, compôs a valsa predileta do meu avô, “Velho Realejo”, em parceria com Custódio Mesquita.

Enfim, é uma torrente tão imensa de talento e lirismo, que se não parar agora, ficarei escrevendo sobre a valsa brasileira a semana toda. Para alívio do presidente do Banco Central.

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