21 de maio de 2026

Astrud, a escanteada, por Alceu Nader

Filha de mãe baiana, musicista e cantora , e pai alemão, professor de idiomas - gravou "The Girl from Ipanema" quase que por acaso

Astrud, a escanteada

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por Alceu Nader

Astrud Gilberto era uma menina de 22 anos, quando se tornou a primeira voz (e rosto) da bossa nova em todo o mundo. “Garota de Ipanema”, cantada em inglês, venceu dois totens da música norte-americana – Louis Armstrong e Barbara Streisand – na escolha do Grammy de melhor música daquele 1965. Até os Beatles, no seu primeiro ano de reinado global, ficaram para trás. Eles concorriam com “I wanna hold your hand”. (Esta mesma música mudou o jeito de tocar e compor do então adolescente Djavan, como foi apontado alguns posts abaixo, mas esta é outra história).

Astrud Gilberto venceu os cabeludos de Liverpool nessa, mas perdeu para eles o Grammy de revelação do ano.

Ela ganhou a merreca de 120 dólares pela gravação, porque era coadjuvante dos astros masculinos do álbum “Getz & Gilberto” soma do saxofonista norte-americano Stan Getz e de um dos criadores da Bossa Nova e violonista, João Gilberto, então seu marido.

Stan Getz ficou com a maior parte do dinheiro arrecadado pelos cinco milhões de discos vendidos, apesar do igual destaque na capa dado a João Gilberto.

O álbum que hoje é elevado à categoria de mitológico e disputado a tapa pelos colecionadores de vinil tinha ainda Tom Jobim no piano.

Astrud Evangeline Weinert – filha de mãe baiana, musicista e cantora , e pai alemão, professor de idiomas – gravou “The Girl from Ipanema” quase que por acaso. O produtor Creed Taylor queria uma voz feminina e ela era a única disponível naquele momento, em parte porque grandes cantores e cantoras queriam distância de Stan Getz, naqueles dias um saxofonista de jazz decadente. Mas ela surpreendeu tanto o produtor que o fez cortar o coro masculino da versão original do arranjo.

Uma frase de Stan Getz durante uma entrevista – “ela é uma dona de casa com sorte” – deu início ao estigma que a perseguiu o resto da carreira, principalmente no Brasil, onde a mídia, soberba e ignorante, praticamente apagou Astrud Gilberto – apesar de seus 18 discos depois da estreia improvisada.

O mundo era muitas vezes mais machista e abusivo contra as mulheres do que é hoje. Astrud Gilberto era apenas a ex-mulher de João.

João não reclamou da depreciação de Getz. Dois anos depois, casou-se com Heloísa Buarque de Holanda, Miúcha, irmã do iniciante Chico Buarque. (Jorge Amado foi padrinho e intermediário de João Gilberto, o “Joãozinho”, no pedido da mão da filha de Sérgio Buarque de Holanda em casamento, mas esta também é outra história).

As gravações de Astrud povoaram incontáveis filmes e séries, não raro como musak, música de elevador. Ela voltaria a fazer sucesso na tevê europeia apenas 30 anos depois, em 1996, quando reaparece ao lado do astro pop inglês, George Michael, dividindo com ele “Desafinado”.

Astrud morreu na Filadelfia, Estados Unidos, esquecida e escanteada. Nos últimos anos, usou sua fama no exterior como defensora dos animais. Em seu site modesto, registrou o apagamento numa carta aberta para seus fãs: “Seu amor incondicional tem sido inabalável, pois resistiu ao passar de várias décadas e, felizmente para mim, até desafia algumas das regras rasas do showbiz, de que um artista só é ‘bem-sucedido’ se e enquanto tiver ‘sucesso’ em discos e cobertura da mídia. Eu não tenho isso há muitos anos, mas vocês ainda estão, silenciosamente…”.

Alceu Nader

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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