Brasilidade e religiosidade em cantos ancestrais, por Aquiles Rique Reis

Selo Sesc SP lançou Da Nebulosa ao Brilho, álbum das Pastoras do Rosário, grupo formado em 2017 na Igreja do Rosário dos Homens Pretos

Brasilidade e religiosidade em cantos ancestrais

por Aquiles Rique Reis

Atenção, amigas e amigos que acompanham esta coluna: o Selo Sesc SP lançou Da Nebulosa ao Brilho, primeiro álbum das Pastoras do Rosário, grupo formado em 2017 na Igreja do Rosário dos Homens Pretos da Penha de França, Zona Leste de São Paulo. Tombada desde 1982, a igreja é patrimônio da luta das culturas populares e foco de resistência.

As pastoras são oito mulheres idosas, todas pretas e elegantes em suas roupas coloridas. Com seus rostos marcados pela vida, cantam com humor, dignidade e, acima de tudo, consciência plena de seus direitos. E cantam, com alma aberta e vozes altivas, quinze músicas feitas especialmente para elas.

Dentre outras, destaca-se “Lamento” (Renato Gama), à capella: “Chora não Quilumba/ Chora não Quilumba/ Cazumbi há de cuidar/ Cazumbi há de cuidar”.

*“Com Cerveja” (Renato Gama): “Até quebramos pedra/ Até levamos areia/ Mas hoje eu vou sair/ E é pra tomar cerveja/ Ê ê ê/ Conversar é com cerveja/ Até guardamos sonhos/ Andamos em estrelas/ Somos todas do amor/ Mas conversar é com cerveja”.

**“Mulher, Um Fato” (Ronaldo Gama e Renato Gama): “Sou aquela que lê/ Que escreve no barro/ Que luta e que crê/ Que aguenta o fardo (…) De mim nasce o planeta/ Absorvemos o contrário/ O que tiver que ser que seja/ Somos as Pastoras do Rosário”.

Ou ainda ***“Contas do Rosário” (Tita Reis), que tem participação da cantora Fabiana Cozza e cujos versos afirmam: “Uma conta não faz colar/ Duas contas no que que dá/ Três já dá pra enfeitar/ Quatro então faz melhorar (…) Conte comigo irmã/ Vamos juntos fazer a conta/ Sempre mais fica bonito/ Um Rosário de muitas contas (…)”.

Para que as Pastoras do Rosário se façam sentir e ouvir, louve-se Renato Gama, diretor geral e artístico das pastoras. Ele que é também produtor musical do CD, com Ronaldo Gama, responsável pelos arranjos de base e de metais, estes últimos com Mayara Almeida.

De emoção em emoção, os ouvidos registram satisfeitos o amor impregnado nos instrumentistas que gravaram o repertório. Os arranjos expressam a identidade daquelas mulheres que sentem o que cantam, porque são protagonistas dos acordes, das harmonias e das melodias. E como cantam, meu Deus! 

Através de sambas, congadas e moçambiques, dores profundas vêm pelas vozes de Carla Lopes, Dona Margarida, Lara de Jesus, Marlei Margarida, Rainha Neuza, Sandrinha do Rosário, Sol Majestade e Wilma Ayó. Graças ao poder de revelar o que atormenta o povo preto e pobre deste país, elas cantam sentidas e profundamente instigantes o Brasil que lhes deve a justiça de, enfim, reconhecer os direitos ancestrais dos povos afrobrasileiros.

Por tudo o que nele se ouve, Da Nebulosa ao Brilho é um CD a ser percebido em sua contagiante musicalidade.

Aquiles Rique Reis

Nossos protetores nunca desistem de nós.

*Com Cerveja:

**Mulher, Um Fato:

***Contas do Rosário:

Aquiles Rique Reis

Crítico de música.

0 Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador