Edvaldo Santana ao vivo. Um show de criatividade, por Carlos Motta

Original e sincero, Edvaldo é um vulcão criativo, e talvez por isso mesmo não seja bem digerido pela indústria cultural, esse sistema que privilegia a indigência intelectual. 

Edvaldo Santana ao vivo. Um show de criatividade, por Carlos Motta

Num país sério, um artista como Edvaldo Santana seria parte do “mainstream”. Afinal, suas canções falam do povo, de suas angústias, suas vitórias e derrotas, seus amores, suas dores e alegrias, e tudo o mais que a vida humana reserva. Original e sincero, Edvaldo é um vulcão criativo, e talvez por isso mesmo não seja bem digerido pela indústria cultural, esse sistema que privilegia a indigência intelectual.

Na estrada há um longo tempo, Edvaldo é daqueles artistas que não têm vergonha de cantar onde quer que seja. E onde for, a sua fusão sonora do samba, xote, jazz, blues, reggae etc etc, proporciona ao público momentos de intenso prazer – afinal, a música serve para isso.

Uma prova dessa sua capacidade de encantar a plateia por meio da qualidade de seu trabalho está no CD recém-lançado, “Edvaldo Santana e Banda Ao Vivo 2”, gravado ao vivo no teatro do Sesc Pompeia, em São Paulo, em dezembro de 2016.

Do disco constam 12 faixas – e que faixas! Edvaldo passeia por canções do CD “Só Vou Chegar Mais Tarde” e acrescenta músicas representativas de sua carreira.

Não há uma faixa apenas regular – e isso é quase inacreditável.

Em compensação, o CD traz pérolas como “Quem é que não quer ser Feliz”, “Só vou Chegar Mais Tarde”, “O Retorno do Cangaço” e “Gelo no Joelho” – essa, uma das mais inspiradas composições da música popular brasileira com temática no futebol.

E as letras, então? Edvaldo é um poeta de mão cheia, um atento observador da vida do homem comum, esse que não vive em salas com ar-condicionado nem dirige carrões de vidros “filmados”, e que faz do dia a dia uma luta incessante para sobreviver.

A banda que formou para a apresentação no Sesc é outro show à parte, com quatro metais, baixo, teclado, bateria, percussão, banjo, guitarra, violão e gaita, além da participação da cantora Alzira E – para quem não sabe, Alzira Espíndola, figura marcante da cena musical paulistana.

“A energia de uma gravação ao vivo está muito ligada ao astral da obra e do público que esteja presente, os sentimentos se afloram e quando encontram ressonância, se cria um ambiente lúdico e solidário, as interpretações ganham em intensidade e criação”, diz Edvaldo, com razão.

Quem escutar o CD vai ter essa mesma impressão, de que um grande artista é aquele que usa o público para melhorar o seu desempenho e como fonte de inspiração para o seu trabalho.

Edvaldo faz isso muito bem – e por isso é tão bom.