O encontro histórico de Joel do Nascimento e Jacob do Bandolim

por Jorge Cardoso

O depoimento de Joel Nascimento sobre sua visita a Jacob do bandolim foi transcrito de minha entrevista pertencente à minha pesquisa de doutorado. O vídeo da entrevista consta em meu canal no Youtube.

https://www.youtube.com/user/Jcbandolim

Assista à entrevista na íntegra em três partes acessando o canal do bandolinista Jorge Cardoso

Joel do Nascimento, transcrição de entrevista feita por Jorge Cardoso

 “Encontro com Jacob do Bandolim/1955”

Seguem as lembranças do meu encontro com Jacob do Bandolim.

Fui levado, juntamente com meu irmão Joyr (violão) e Aloisio (pandeiro), pelo cavaquinhista Souza a conhecer Jacob do Bandolim.

Tinha eu nesta época 18 anos, estudava piano clássico e tocava cavaquinho.

Chegamos a sua casa por volta de 10:30hs da manhã de um lindo domingo onde o bandolinista nos recebeu amavelmente, com a camisa enrolada ao pescoço e de short, nos levando a sua varanda onde começamos a fazer música. Eu levei a minha violinha, o cavaquinho e um bandolim que era do Souza. Entre uma conversa e outra Jacob pediu desculpas dizendo que precisaria se ausentar rapidamente pois iria levar um amigo seu ao centro de Jacarepaguá. Após ele sair começamos a tocar tendo seu filho Sergio   a incumbência de gravar, com dois gravadores de rolo, toda a reunião. Entre as músicas tocadas eu solei na violinha o choro de Jacob, recém lançado de nome Nostalgia. O Sergio gravou e quando Jacob voltou ele colocou a fita.

Quem está tocando é o Jacob? Disse ele. Fiquei muito feliz com a intervenção do músico que afinal de contas era um grande elogio. Em seguida pedi a ele que tocasse o seu choro Sempre Teu e o acompanhei ao violão. Em dado momento ele parou e perguntou educadamente. Quem é o solista sou eu ou é você? O motivo era que eu fazia as baixarias, nos intervalos do solo, com certa velocidade partindo na região aguda do violão.

A reunião seguia animadamente quando recebemos a visita do músico Patrocino Gomes autor da polca Pardal Embriagado que Jacob havia gravado. O velho tocava um bandolim de alta qualidade. Entre uma música e outra pedi a Jacob que tocasse a sua valsa Santa Morena. Jacob tocou a primeira parte e na repetição da mesma eu fiz a terça no cavaquinho ensejando a ele uma reação que me assustou. Espera aí! Sergio! Grava que esta vai para o meu arquivo. Diante da intervenção de Jacob cabe afirmar que foi a primeira vez que foi executado daquela forma a sua valsa.

Pedi a ele para me ensinar a segunda parte do seu choro Ciumento e ele respondeu brincando carinhosamente: Você é chato. Em meio um choro e outro aparece no portão o bandolinista Evandro, que já era velho conhecido nosso, Jacob ao vê-lo comentou: Lá vem este cara que toca as minhas músicas todas erradas. Evandro sentou-se isolado, permanecendo calado e não tocou.”

Entre os choros que toquei o Souza me pediu para mostrar a primeira parte de Ecos que foi composta aos 15 anos.

Jacob comentou que eu tocava cavaquinho fantasiado de bandolim. Não sei dizer se o seu comentário era devido à afinação de bandolim que eu usava no cavaquinho ou o estilo Jacob que eu mostrava nos meus solos.

Em dado momento ele fez um comentário precedido de uma demonstração.

A demonstração de Jacob e o comentário sobre o uso da sua mão direita no instrumento, jamais foram esquecidos por mim.

Dizia ele:

“Eu já não dou mais trabalho aos operadores de som das rádios, devido a forma que passei a usar a mão direita no bandolim”.

Ressalvo que na época, os transformadores das rádios eram manipulados manualmente por técnicos que controlavam o nível da saída do som da transmissão.

O perfeccionismo de Jacob:

Jacob segurava a palheta meia obliquada, mantendo-a rigorosamente na mesma posição ao tocar as cordas. Os dedos indicador e polegar manipulavam a palheta para cima e para baixo, com uma eventual ajuda do punho, proporcionando um equilíbrio e uma sonoridade paralela. Esta ação conjunta, resultava em uma perfeita sincronização do peso da mão levado às cordas, que mantinha uma perfeita sintonia e igualdade na sequência do fraseado que o caracterizou. Toda esta ação, era conjugada com o apoio de parte do antebraço atrás do cavalete do instrumento. Fiel às regras que formatou e que se propunha a realizar, o músico concretizava a sua pesquisa. Sua técnica de solar no instrumento consistia em palhetar para cima e para baixo, contudo, prevalecendo o movimento para baixo.

Aproveito o ensejo em estar falando sobre técnicas de execução e faço um relato sobre as minhas próprias técnicas, da minha mão direita:

Apesar de conhecer diversas escolas de execução do bandolim, aderi à minha maneira de usar a mão direita. A posição do meu antebraço direito é reta e perpendicular ao braço do instrumento. Entendo que esta posição, mantém o punho anatomicamente em uma posição normal. Seguro também a palheta de forma bem obliquada, dando uma aproximação maior entre as duas cordas, resultando em uma sonoridade mais encorpada. O uso da minha mão direita consiste em palhetar as cordas primeiramente com os dedos indicador e polegar, depois com o punho, posteriormente com o antebraço, e por fim, com todo o braço. Sendo tal manuseio, primordial nas necessidades técnicas apresentadas dentro de uma composição, como por exemplo: “Concerto para bandolim e orquestra – a Joel Nascimento” (Radamés Gnattali), sendo o acorde inicial executado com todo peso do braço.

Devo dizer que o meu estudo de bandolim foi todo baseado na disciplina do meu estudo de piano clássico.

Entendo que a condução e o estudo de um instrumento, nas devidas proporções, são iguais.

Ao me lembrar de uma reportagem que li em um jornal e que dizia: “Jacob está ficando” maluco. Não perdi a oportunidade de indagar o que teria acontecido. Ele chamou a sua esposa Adília e pediu para ela confirmar o que ele iria relatar:

– Passei um dia e uma noite trancado no quarto só de camisa e cueca para tirar uma música.

Sua esposa confirmou, mas Jacob não disse pra gente qual foi a música

Devo dizer que seu filho Sergio Bittencourt, um menino que se apresentava com a perna engessada, com dois gravadores de rolo gravou toda a reunião.

Os solos de Jacob ao bandolim causou em mim e em meu irmão Joyr uma impressão negativa, devido ele tocar um pouco baixo e sem som, como não poderia deixar de ser, era bem diferente dos mostrados em seus discos.

Todos já um pouco cansados encerramos a reunião por volta de 17:30h

Jacob se mostrou muito entusiasmado com a reunião e eu e o grupo vivemos um sonho que jamais foi esquecido. Passados alguns dias tivemos um novo encontro, eu e meu irmão Joyr, na porta do seu trabalho onde ele nos convidou a voltar a sua casa.

Jacob você gosta de Chopin? Em meio a um certo espanto ele respondeu que adorava. Fiquei muito feliz com a sua resposta.

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