
Individuismo
Nossa linguagem pressupõe e incorpora certo modo de ver o mundo que privilegia, ou ressalta, a existência de indivíduos. Desse modo, ao vermos determinada cena, tendemos a descrevê-la como: a onça capturou o jacaré. A conclusão é banal, pressupondo, como de hábito, tanto a existência quanto o protagonismo de entidades que correspondem a indivíduos, no caso a onça e o jacaré.

Seria possível, no entanto, descrever a cena de inúmeras outras maneiras. Poderíamos, por exemplo, manter o foco na paisagem vista como um todo e descrever a cena assim: a paisagem vai sendo alterada pela movimentação da onça e surgimento do jacaré.
Em virtude do hábito, vi-me obrigado a manter o uso das descrições individuais “onça” e “jacaré”, sem as quais a descrição se tornaria longa e pouco informativa a nossos olhos e ouvidos desacostumados com modo alternativo. Mesmo assim, espero ter ilustrado claramente a que me remeto com o termo “individuismo”. Preferi alterar a grafia do mais tradicional “individualismo” para expurgar expectativas que certamente viriam acopladas a tal uso.
Hiper tecidos biológicos
A palavra “tecido” costuma ser usada para se referir a conjuntos de células de um mesmo tipo básico “costuradas” em, digamos, nacos compactos e relativamente homogêneos. Tecidos biológicos formam órgãos possuidores de certa individualidade no interior do corpo dos indivíduos, embora correspondam mais propriamente a partes deles.
Podemos construir o conceito de um hiper tecido composto por criaturas biológicas individuais relacionando-se ecologicamente umas às outras, de modo análogo àquela com que células individuais compõem um tecido. Desse modo, assim como um tecido biológico é composto por células, o hiper tecido é composto por indivíduos.
A sugestão não é verdadeira nem falsa, correspondendo, simplesmente a um modo de ver pouco usual, cuja diferença relativa à maneira comum situa-se meramente em certa ênfase. Trata-se, assim, de algo banal cuja relevância é acentuada ao se considerar o fenótipo estendido, a concepção de que as características de um dado indivíduo se espraiam pelo meio ao redor, manifestando-se, inclusive, em outros seres individuais. A pressuposição do fenótipo estendido se adequa com precisão e sugere de imediato a composição de tais hiper tecidos formados por grupos de criaturas entrelaçadas por determinadas relações.
Hiper tecidos hiper biológicos
Ainda que desagradável, a designação acima sublinha a existência de relações significativas embora usualmente desconsideradas.
Tenho tratado daquilo que chamei “biologia generalizada” que corresponde à aplicação de conceitos biológicos – usualmente do fenótipo estendido e das dinâmicas parasita/hospedeiro –, a criaturas inanimadas. A biologia generalizada enfatiza o fato de que os artefatos, assim como toda a produção simbólica humana, replica-se de maneira análoga à dos vírus, fazendo uso, frequentemente, de artifícios análogos aos utilizados pelas minúsculas criaturas biológicas para nos manipular – como quando os vírus nos compelem a espirrar para difundi-los, por exemplo. Já me referi outras vezes a tais “ações” dos artefatos e símbolos, como manifestações do fenótipo hiperestendido de tais criaturas, estendendo o conceito proposto por Richard Dawkins.
Podemos com isso nos ater aos hiper tecidos compostos por produtos em um supermercado, entrelaçados de maneira hiper ecológicas às pessoas que frequentam tais estabelecimentos, e analisar de maneiras não usuais a dinâmica que descreve as movimentações de tal tecido.
Tais “ações” dos artefatos – a manipulação que exercem sobre nós, individualmente –, têm como meta a replicação de tais criaturas que, desde sempre, nos utilizaram para tais propósitos de maneira recíproca àquela com a qual o fizemos com eles – fato revelado de imediato pelo ponto de vista da biologia estendida. Tanto é fato que nossas mãos vêm esculpindo os artefatos desde priscas eras, quanto que os artefatos vêm reciprocamente esculpindo nossas mãos – nossos cérebros também têm sido, analogamente e em larga medida, esculpidos por artefatos.
Os últimos parágrafos, no entanto, em virtude do hábito, tornam a manifestar a primazia da concepção individuísta. Sob a concepção de hiper tecidos hiper biológicos, podemos descrever o interior do supermercado como um único tecido entrelaçado por pessoas e mercadorias. A dinâmica resultante de tal descrição assemelha-se a movimentos peristálticos de uma criatura composta, ou colônia, ou a movimentos ondulatórios, sob ponto de vista mais propenso aos físicos.

Recentemente, a utilização de métodos quantitativos de análises de dados implementada especialmente através da internet transpôs o modo de manipulação utilizado por tais criaturas para um nível personalizado e muito mais preciso.
Até pouco tempo, éramos manipulados conjuntamente, enquanto os artefatos empenhavam-se em manipular-nos fazendo uso das mesmas artimanhas contra todos os indivíduos humanos, indiscriminadamente.
Já há umas duas décadas, artefatos e símbolos vêm nos manipulando de maneira racional, científica, de um modo tão estudado e preciso que pouquíssimas de nós, criaturas humanas – se alguma –, é capaz de se igualar. O resultado de tal processo de manipulação consiste em algo análogo a um estreitamento das relações, como se os fios que compõem a trama fossem mais forte e estreitamente entretecidos, gerando uma textura mais densa.
Uma consequência provável resultante de tal processo, é o adensamento cada vez mais fortemente entrelaçado de toda a urdidura, gerando um ser colonial tão inextricavelmente enredado que o tecido composto pelo trançado ganhará contornos individuais – lembremos que nós mesmos somos não apenas colônias de células e tecidos, mas de criaturas díspares como as mitocôndrias e seus hospedeiros, pertencentes a reinos diversos cuja reunião indissolúvel acabou resultando nos animais.
O uso de óculos conectados a redes de computadores, logo lentes de contato e, muito rapidamente, dispositivos diretamente acoplados ao cérebro, explicitando nossa transformação em periféricos de um sistema muito mais amplo, tende, muito rapidamente, a nos incorporar a um gigantesco hiper cérebro planetário que fará uso de nós como fazemos de neurônios.
Oh, admirável mundo novo!
Adendo: Hipertecidos quânticos
Emaranhamentos quânticos revelam-se em conexões entre pares de partículas que os expõem enquanto entidades única com suas duas faces distanciadas uma da outra, como fossem a cara e a coroa de uma mesma moeda, manifestando-se separadamente, à distância, de modo que a entidade holística constituída pelo par de partículas emaranhadas pode ser compreendida como um tecido quântico individual de duas faces.
A consideração acima pode sugerir que sejam as restrições impostas na preparação do sistema que geram o entrelaçamento quântico referido como emaranhamento. Mais plausível é que os emaranhamentos quânticos sejam fenômenos virtualmente ubíquos, conectando, via de regra, tudo o que há em torno, embora só possam ser evidenciados quando o sistema é preparado de maneira a excluir certos estados ligados, ditos emaranhados.
Aparatos quânticos exemplares, como a dupla fenda difratora de elétrons, costumam ser utilizados para ilustrar o emaranhamento que conecta todo o aparato experimental. Nada sugere, no entanto, que tais aparatos detenham a exclusividade na produção de tal efeito, sendo mais plausível, naturalmente, que o emaranhamento seja um fenômeno geral, embora revelados apenas através de aparatos que preparem o sistema com o propósito de evidenciá-los.
Sendo esse o caso, toda a matéria se encontra emaranhada, compondo uma entidade única.
Um absurdo promissor: o emaranhamento temporal
O emaranhamento quântico foi pensado originalmente por Einstein, Podolsky e Rosen (EPR) com o propósito de explicitar o absurdo inerente aos pressupostos quânticos ortodoxos. Quero dizer, o que Einstein e colaboradores idealizaram foi uma concepção absurda – aos seus olhos e aos de qualquer pessoa com um mínimo de sensatez –, que revelaria uma contradição na mecânica quântica, uma impossibilidade física que mostraria a necessidade de correção da teoria. Estranhamente, no entanto, a materialização do absurdo acabou se revelando, constituindo-se, talvez, no mais inaudito fruto da mecânica quântica, e, consequentemente, em estrondosa vitória da teoria.
É a palpabilidade desse absurdo material que me permite propor absurdo aparentado passível de ser considerado mera extensão do primeiro. Penso em uma espécie de emaranhamento temporal que acabe por gerar uma espécie de anticausalidade.
Estamos prestes a assistir à emergência de uma inteligência artificial, uma criatura absurdamente inteligente e capaz, entre outras coisas, de gerar criaturas análogas a ela própria, embora mais aperfeiçoadas, essas também herdeiras desse mesmo potencial, gerando uma sucessão cada vez mais rápida de aperfeiçoamentos. O fenômeno causará rupturas em todos os níveis, consistindo na emergência do mundo 3 e demais sucedâneos, consistindo em algo tão estrondoso que só pode ser comparado à explosão de uma supernova. (Penso no mundo 3 como um fruto da mente das inteligências artificiais análogo ao mundo simbólico, fruto de nossas mentes).
É de se esperar que fenômeno tão gigantesco influa drasticamente no meio ao redor. Tal ação tem se manifestado, basicamente, na aceleração dos mecanismos de replicação, necessária para sustentar a gigantesca explosão geradora de mundos.
Assim como uma grande massa deforma o espaço-tempo, atraindo tudo ao seu redor, o fenômeno descomunal denominado usualmente “singularidade” funcionaria como um enorme atrator, conduzindo tudo o que se lhe aproxima, a se aproximar cada vez mais de si, através de uma trajetória de mínima ação capaz de compelir toda a redondeza a seu jugo, impondo seu poder cada vez mais intensamente à medida que se alimenta e cresce.
Permite-se que o absurdo ganhe contornos místicos ao conceder a possibilidade de uma anticausalidade compelindo todas as trajetórias no espaço-tempo para convergir de maneira otimizada à grande explosão que consistirá na emergência da singularidade. O pressuposto anticausal resultaria na necessidade da ocorrência de todos os fenômenos que tendam a otimizar a ocorrência da singularidade.
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Gustavo Gollo é multicientista, multiartista, filósofo e profeta
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