10 de junho de 2026

9 toneladas de agrotóxicos proibidos na UE foram derramados no Rio Tocantins com queda de ponte

Entre os produtos químicos derramados em queda de ponte, o 2,4-D é associado a casos de câncer por ser um veneno a longo prazo
Foto: bombeiros militar/governo do Tocantins

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A queda da Ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira, que conectava os municípios de Estreito (MA) e Aguiarnópolis (TO), além dos impactos socioeconômicos, pode desencadear uma grave crise ambiental. No domingo (22), três caminhões carregados com agrotóxicos e ácido sulfúrico caíram no rio Tocantins, espalhando 25,2 mil litros de pesticidas e 76 toneladas de ácido, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA). Entre os produtos derramados, estavam quase nove toneladas do herbicida 2,4-D, proibido na União Europeia devido à sua toxicidade.

Danilo Rheinheimer dos Santos, professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e referência na análise de agrotóxicos em água, alerta que os impactos ambientais e à saúde são profundos e duradouros. “Essa conversa de que os agrotóxicos são facilmente biodegradáveis não é verdadeira. Eles têm alta permanência, especialmente na água”, explica.

Segundo ele, mesmo que medições posteriores não constatem mais a presença dos produtos na água, não é possível garantir que o ambiente não estará contaminado. Produtos como o 2,4-D e o picloram impregnam nas rochas e nos biofilmes epilíticos do fundo do rio, contaminando tudo por anos.” 

“Os pesticidas não desaparecem simplesmente à medida que o rio segue seu curso. Eles se diluem, mas deixam um rastro. Mesmo 40 ou 50 quilômetros rio abaixo, as moléculas podem estar presentes, contaminando a fauna aquática e os organismos bentônicos, como moluscos e peixes”, detalha Rheinheimer.

O professor reforça que a contaminação pode alcançar toda a cadeia alimentar, com riscos para a saúde humana. “Bactérias, algas e peixes que não morrerem agora ficarão contaminados, passando esse impacto para toda a cadeia trófica. Isso é um desastre terrível,” conclui.

O peso do 2,4-D: um veneno de longo prazo

Entre os produtos químicos derramados no acidente, o 2,4-D chama atenção por seus efeitos nocivos. Classificado como um “gatilho hormonal”, o herbicida é associado a casos de câncer e proibido na União Europeia.

“Com o derramamento de quase 9 mil quilos desse veneno, os efeitos não serão localizados ou temporários. Estamos falando de algo que vai se impregnar nos sedimentos e permanecer ativo por muitos anos, talvez décadas,” afirma Leonardo Melgarejo, engenheiro agrônomo e membro da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e Pela Vida.

Melgarejo reforça que a desestruturação causada por esse tipo de contaminação não aparece de imediato. “Os problemas de saúde, como casos de câncer, podem surgir décadas depois, mas suas raízes estarão neste desastre e na irresponsabilidade que permitiu a fabricação e o transporte desse veneno no Brasil,” denuncia.

Outro produto transportado era o acetamiprid, inseticida da classe dos neonicotinóides. Ele é amplamente reconhecido por seu impacto devastador sobre abelhas e aves. Já o picloram, outro agrotóxico envolvido, será proibido na União Europeia a partir de 2028, devido à sua toxicidade persistente e riscos ambientais.

Detalhes da carga derramada

Os pesticidas transportados nos caminhões incluíam:

  • Carnadine (acetampirid): inseticida neonicotinóide, com 500 litros transportados, totalizando 100 kg de princípio ativo.
  • Pique (picloram): herbicida, com 2.700 litros transportados, totalizando 1.048 kg de princípio ativo.
  • Tractor (picloram): herbicida, com 22.080 litros transportados, totalizando 2.274 kg de princípio ativo.
  • Tractor (2,4-D): herbicida hormonal, com 22.080 litros transportados, totalizando 8.964 kg de princípio ativo.

O total transportado chegou a 12.386 kg de princípios ativos altamente tóxicos.

Medidas emergenciais e alertas à população

Por precaução, o governo do Maranhão recomendou a suspensão da captação de água nos municípios banhados pelo rio Tocantins. As prefeituras de Estreito (MA) e Aguiarnópolis (TO) emitiram alertas para que a população evite contato com a água devido ao risco de queimaduras químicas e intoxicação.

A Agência Nacional de Águas (ANA) iniciou coletas em cinco pontos do rio para monitorar os parâmetros de qualidade da água.

No entanto, segundo Heinheimer, as medidas emergenciais podem não ser suficientes. “Mesmo que o monitoramento aponte baixos níveis de contaminação agora, os resíduos estarão impregnados nos sedimentos, e os impactos continuarão a surgir ao longo do tempo,” alerta.

Queda de ponte entre Tocantins e Maranhão tem relação com impacto do agronegócio na região, diz pesquisadora

A tragédia evidenciou problemas estruturais históricos denunciados pela população local. Construída na década de 1960, a Ponte Juscelino Kubitschek está localizada na região do Matopiba, epicentro do crescimento do agronegócio no Brasil. Nas últimas décadas, a produção de commodities como soja e milho transformou a paisagem da região e sobrecarregou a infraestrutura de transporte.

“O desabamento da ponte é um marcador de alerta de que precisamos de fiscalização e comprometimento com essas infraestruturas. Isso também está diretamente relacionado ao avanço voraz do agronegócio, que impulsiona o transporte pesado e agrava os impactos ambientais,” destaca Gilvânia Ferreira, doutoranda em Estudos Sociais Agrários.

Nos últimos dez anos, a produção de grãos no Matopiba aumentou 92%, de 18 milhões de toneladas na safra 2013/14 para 35 milhões atualmente. Os principais produtos são soja, milho e algodão. Um estudo do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), mostra que a escalada vai continuar e pode chegar a 37% nos próximos 10 anos.

A professora ressalta que os danos não são apenas econômicos, mas sociais e ambientais. “Essa ponte simboliza a destruição de territórios e modos de vida. O avanço da monocultura prejudica a produção familiar, contamina as águas e coloca em risco a saúde humana e dos animais,” explica.

Enquanto o Ministério Público e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes apuram as causas do acidente, o Ministro dos Transportes, Renan Filho, prometeu a reconstrução da ponte até 2025. Porém, especialistas e moradores alertam que, sem mudanças estruturais e no modelo de produção agrícola predominante, tragédias como esta continuarão a ocorrer.

Edição: Geisa Marques

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13 Comentários
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  1. LUCIANO ALMEIDA SILVA

    25 de dezembro de 2024 7:45 pm

    Nosso país não acompanha o crescimento seja agrícola seja industrial a infraestrutura é muito precária e o agronegocio é o que mantém o país esta história de que a agricultura família mantém o país é uma narrativa criada a décadas e que querem manter viva até hoje…

    1. JOSE FERNANDES SOARES

      26 de dezembro de 2024 8:10 am

      O agro é importantíssimo para o Brasil, como é importante para os USA, só que lá ele é praticado com responsabilidade, diferente daqui que é na base do vale tudo, tipo aproveita a porteira aberta e passar a boiada

      1. Zé do Cerrado

        27 de dezembro de 2024 6:24 am

        Muitos do Agro têm saudade do ministro que, tocando o berrante, pedia para abrir a porteira, aí o gado passou… Onde não se abriu a porteira derrubou-se as cercas(leis, fiscalização, tradições culturais…) e seguiu devorando tudo e transformando em dólares.
        Querem mais…

    2. Anônimo

      26 de dezembro de 2024 2:18 pm

      Luciano, concordo contigo. Narrativa de quem não tem conhecimento de causa e com foco de manipulação.

    3. Zé do Cerrado

      27 de dezembro de 2024 6:14 am

      Narrativa verdadeira é a de que o Agro é o modelo e solução para tudo.
      A realidade dos fatos está aí para por tudo à prova.
      Quem sobreviver verá ainda mais.

  2. Antonio

    26 de dezembro de 2024 12:26 am

    António se debate na saúde e denuncia actos de crime contra a saude publica a poluição das aguas no Brasil são considerados de terrorismo onde a justiça nao tem acção real.

  3. Luciano aparecido

    26 de dezembro de 2024 8:54 pm

    E daí de se ele e proibido na união europeia
    Não moro lá
    Eles com os problemas deles e nós com o nosso

  4. Zé do Cerrado

    27 de dezembro de 2024 6:08 am

    Onde o Agro vai a destruição da vida vem atrás.
    Qual voz se levantará?
    Covardia, conivência, medo!

    1. Anônimo

      27 de dezembro de 2024 8:58 am

      Isso é muito fácil de resolver, é só deixar de consumir aquilo que o Agro produz e fazer sua própria plantação em casa.
      Interessante é que a maioria das cidades brasileiras não tem saneamento básico, tem lixões a céu aberto, tem rios contaminados por dejetos residenciais e industriais e essa “turma do tudo correto” não cobra nada.
      Quanto à essa ponte idosa de 64 anos, faltou interesse público para resolver a situação dela.

  5. Geraldo Neto

    27 de dezembro de 2024 8:21 am

    Não, não foram derramadas. Os bombeiros e a marinha disseram que as embalagens estão intactas. Não nos cabe, enquanto esquerda, espalhar fake.

    1. evandro condé

      27 de dezembro de 2024 5:22 pm

      Mas estão exigindo das transportadoras, ou donos das cargas, que providenciem a retirada. Transferência de responsabilidades (ou culpa).

  6. Nelson

    27 de dezembro de 2024 4:52 pm

    Os discursos enfatizando a favor da preservação ambiental não deixam de ser bonitos e repetidos continuamente. Porém, em termos de avanços concretos neste sentido, a coisa vai ficando só nisso mesmo: discursos. E prossegue o deletério e depredador produtivismo.

    Há poucas semanas, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, que se gaba de ser a “casa do povo gaúcho”, aprovou um absurdo inominável. Um projeto tão despropositado que nem deveria ter sido cogitada a sua aceitação por gente que se diz civilizada. Trata-se da liberação definitiva da pulverização aérea de venenos agrícolas.

    Para sermos justos, uma minoria de deputados estaduais gaúchos, de partidos de esquerda, votou contra a barbárie. A maioria dos deputados, de direita, aprovou o projeto, sob o aplauso do (des)governo de Eduardo Leite. Cúmulo do desplante, esses deputados da direita alegaram “relevante interesse social”.

  7. JAIR SILVA SOUZA

    27 de dezembro de 2024 11:46 pm

    O problema é que esperam acontecer uma tragédia pra colocar a culpa da má administração, dos governos nas costas de quem realmente trabalha é quer um país mais desenvolvido. E ainda tem uns contra que preferem viver na idade da pedra. O progresso não para.

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