A financeirização espúria da economia verde, por Luis Nassif

Em outra subcategoria, de fundos com tema climático, identificou 130 com mais de US$ 67 bilhões em ativos totais. Nas pontuações, para identificar o alinhamento das carteiras com o Acordo de Paris, o desempenho variou de -42% a +90%. Dos 130 fundos analisados, 72% estavam desalinhados, com pontuações negativas.

No mundo neoliberal pós anos 70 tudo é financeirizado, a saúde, as padarias, do menor varejo ao oligopólio mais potente. Nesse mundo em que trabalho, economia real, relações sociais, espaços públicos são jogados para terceiro plano, uma das maiores hipocrisias são os mecanismos de reforço à economia verde.

No auge da era do etanol, Otto Reich veio ao Brasil. Tratava-se de um diplomata americano especialista em América Latina, estreitamente ligado à família Bush, e organizador de uma tentativa de golpe contra Hugo Chávez na Venezuela. Vinha atrás de negócios da economia verde e embalado pelas conclusões de cientistas sobre o aquecimento do planeta. Em um encontro em um hotel em São Paulo foi mordaz:

  • Nenhum de nós acredita no aquecimento do planeta. Mas temos de aproveitar os bons negócios.

Hoje em dia, a questão do aquecimento venceu o debate científico, especialmente em função das grandes tragédias climáticas que explodem em vários cantos do planeta.

É aí que ganha espaço a hipocrisia, através do chamado “mercado de carbono”. Trata-se de um modelo pelo qual alguém economiza carbono e coloca sua cota à venda. Alguém compra e pode compensar com a própria poluição que gera. Ou seja, ganha o direito de continuar explorando o planeta, mediante a compra de direitos de alguém que economizou recursos

As tais compensações de carbono passam por cima da conclusão lógica de que estamos todos no mesmo planeta e às vésperas de um desastre climático. Mesmo assim, a economia marrom (dos poluidores) continua em seu trabalho, meramente adquirindo direitos sobre conquistas da economia verde.

As consequências são óbvias:

  1. Não substitui ativos verdes por ativos marrons, mas simplesmente dá sobrevida aos ativos marrons para prosseguir em seu trabalho de destruição do planeta.
  2. Facilita a vida para os detentores de capital para persistir em seu trabalho de exaurir o planeta.
  3. Desobriga os governos nacionais de sua responsabilidade pela preservação.
  4. Impede a implementação de políticas de conservação socialmente justas e equânimes.

Depois, basta montar um trust ou um fundo de ação especializado em ESG para comercializar os ativos verdes e monetizar a poluição.

Segundo estudo recente do InfluenceMap, em 2020 foram oferecidos produtos financeiros com o tema ESG no valor total de US$ 1,7 trilhão. O estudo levantou 723 fundos de ações, em um total de mais de US $330 bilhões em ativos líquidos totais. Analisou-os sob dois critérios: alinhamento com metas do Acordo de Paris e intensidade de combustível fóssil.

Através de pesquisas por palavras-chaves, identificou 593 fundos de ações, com mais de US $265 bilhões em ativos líquidos. 421 deles, ou 71%, têm uma pontuação negativa em relação ao item Alinhamento de Paris.

Em outra subcategoria, de fundos com tema climático, identificou 130 com mais de US$ 67 bilhões em ativos totais. Nas pontuações, para identificar o alinhamento das carteiras com o Acordo de Paris, o desempenho variou de -42% a +90%. Dos 130 fundos analisados, 72% estavam desalinhados, com pontuações negativas.

Além disso, mantinham em carteira US $153 milhões em ações de empresas de produção de combustíveis fósseis, como a TotalEnergies, Kinder Morgan, Enbridge, Neste, Halliburton, Chevron e ExxonMobil.

Outro ponto chama atenção. Antes do pré-sal, a Petrobras preparava-se para se transformar em uma empresa de energia, inclusive com programas ambiciosos na área do etanol e do biodiesel.

O pré-sal nublou os planos. Depois do impeachment, os governos univitelinos, Temer-Bolsonaro usam a Petrobras apenas para os grandes negócios da privatização. E ela continua sendo peça essencial em qualquer plano futuro de reindustrialização do país.

Em vez de preparar seu futuro, e transformá-la em uma âncora central para a nova economia verde, a inacreditável elite de poder no país – mídia, Supremo, Congresso, todos a reboque do mercado – apenas pensam nos ganhos imediatos de picotar a empresa e abrir espaço para os grandes negócios da privatização.

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1 comentário

  1. Tudo é uma questão de ser capaz de vender, seja o que for, seja do jeito que for.
    Toda essa presepada de criar nomes chamativos e originais, bitcoin, operações estruturadas de crédito, credit default swaps, hedge funds, mercado futuro de terras agriculturáveis opcionais, crédito opcional estruturado de reflorestáveis, plano opcional de dejetos preferenciais sólidos, o diabo, tudo isso é a mesma coisa: entrega-se dinheiro, recebe-se um papel – ou seria uma garantia virtual preferencial ao portador, já que é um gasto inútil imprimir papel, ou coisa que o valha – e resgata-se o dinheiro lá na frente, com a sobra – merreca, como é a expressão algorítmica equivalente? – do que o Mercado faturou com a papelada virtual, às custas da cada vez mais combalida economia real.
    Ou seja, dinheiro que não existe, transformado em títulos virtuais que não existem, que geram juros contábeis igualmente virtuais, mas que asseguram a aquisição de bens móveis e imóveis, por um número cada vez menor de pessoas, ou entidades. Tanto faz, nos EUA, por exemplo, são a mesma coisa.
    Tudo isso graças ao Algoritmo ( creio que já é tempo de escrever com inicial maiúscula, a exemplo de um outro Ser Supremo, igualmente invisível e todo-poderoso), que, como o caviar do Zeca Pagodinho, ninguém sabe, ninguém viu, só ouvimos falar.
    Tudo é uma questão de ser capaz de vender, seja o que for, seja do jeito que for.
    Tô cansado disso.

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