Urariano Mota
Escritor, jornalista. Autor de "A mais longa duração da juventude", "O filho renegado de Deus" e "Soledad no Recife". Também publicou o "Dicionário Amoroso do Recife".
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A guerreira que amamos e o Dia Internacional da Mulher, por Urariano Mota

Muito bem. Então é justo que, para a mulher e seu dia, venham à luz alguns trechos do nosso livro “Soledad no Recife”

A guerreira que amamos e o Dia Internacional da Mulher*

por Urariano Mota

Para o 8 de março, quando pesquiso os antecedentes desse belo dia,  descubro, não sem espanto, que mesmo na imprensa do capital a origem do 8 de março internacional aparece como resultado das lutas da mulher operária e da mulher socialista.

Primeiro, noticiam que a data só foi formalizada depois de uma greve na Rússia,  durante a guerra em 1917, quando as bravas russas exigiram “pão e paz” — e quatro dias depois da greve, o czar foi forçado a abdicar, e o governo provisório concedeu às mulheres o direito ao voto.

Já na Wikipédia (e na sua esperta censura), não aparecem as guerreiras  russas, mas lemos que a ideia de uma comemoração anual surgiu depois que o Partido Socialista da América organizou o Dia das Mulheres, em 20 de fevereiro de 1909, numa jornada de manifestação pela igualdade de direitos civis e em favor do voto feminino. E vem uma informação importante de passagem: durante a Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, Clara Zetkin propôs, com Alexandra Kollontai a criação do Dia Internacional da Mulher, em 1910.

Muito bem. Então é justo que, para a mulher e seu dia, venham à luz alguns trechos do nosso livro “Soledad no Recife”, em dois momentos:

“Naqueles anos o amor era uma alienação. É claro, disto sabemos agora. Se nos afirmassem isso então, reagiríamos irritados. Sem pensar, haveríamos de dizer, “na ordem do dia, existem ações mais urgentes que namorar e tocar as mãos”. E namorar e tocar as mãos, que púnhamos no lugar do amor, era uma brutalidade para destacar o ridículo de ficar pegando mãos, em lugar do mais prático e forte, foder e foder para toda a vida. Era uma brutalidade que não reconhecia na ternura uma instância legítima.   

– O amor é uma alienação? lembro que ouvi essa pergunta de Soledad, na mesa. Ouvi-a e tive vontade de entrar em mim mesmo, porque me pareceu ser uma pergunta feita diretamente a mim. Pergunta com uma intimidade maior que a minha pessoa ali, porque certeira se dirigia ao sentimento que eu nutria oculto. Baixei os olhos e notei de imediato que esse baixar era uma vexatória confissão. Levantei a seguir o rosto, incapaz de fitá-la, dirigindo meu olhar para a Igreja de São Pedro, que se tornou apenas uma parede lisa, simples e sem forma. Massa escura na noite. Houve um pequeno silêncio, e depois:

– É claro que é, respondeu Daniel.

– Sério? voltou Soledad. Então ela se virou, e pude ver suas pernas grosas, a se baterem, como se represasse coxas em fúria….

‘Eu tomei conhecimento de que seis corpos se encontravam no necrotério…. em um barril estava Soledad Barrett Viedma. Ela estava despida, tinha muito sangue nas coxas, nas pernas. No fundo do barril se encontrava também um feto’.

Quando Mércia Albuquerque declarou essas palavras, não era mais advogada de presos e perseguidos políticos. Estava em 1996, 23 anos depois do inferno. Mércia estava acostumada ao feio e ao terror, ela conhecia há muito a crueldade, porque havia sido defensora de torturados no Recife. Ainda assim, ela, que tanto vira e testemunhara, durante o depoimento na Secretaria de Justiça de Pernambuco falou entre lágrimas, com a pressão sanguínea alterada em suas artérias. Dura e endurecida pela visão de pessoas e corpos desfigurados, o pesadelo de 1973 ainda a perseguia: ‘Soledad estava com os olhos muito abertos, com uma expressão muito grande de terror’ ”.

Tão importante é Soledad Barrett, que em nosso romance da formação dos jovens na ditadura no Recife, “A mais longa duração da juventude”, Soledad volta em mais de uma página. Como aqui, por exemplo:

“Quero dizer, primeiro do que tudo: quarenta e três anos depois, o abraço da filha, o rosto, o calor da filha reacendeu no militante político do Recife,  Marx, a ternura pela mulher que fora destruída no corpo, e passaria o futuro próximo vagando, como se fosse alma de mãe desnaturada e terrorista. Em segundo lugar, na reconstrução da vida, difícil é dizer o que vem primeiro. Soledad está no quintal da casa de Marx em Jaboatão. Da cozinha ela havia ido até o quintal, e conversa com as companheiras de Marx e Lênin, os dois irmãos filhos de corajoso comunista. Sentadas, fazem sapatinhos de tricô para o bebê que Soledad espera. Dizem das mulheres grávidas que elas ficam mais belas. Mas junto ao viço natural das cores, nas mulheres que engravidam sem esperança há uma sombra, um olhar que não se detém adiante, que baixa até o chão. Assim foi com Maria, em um subúrbio do Recife, em 1958. Assim é com Soledad, em dezembro de 1972. Ali em Jaboatão, a finura e delicadeza de Soledad eram tidas pelas mulheres do povo como gestos de ‘moça muito educada’. O que vale dizer, nela existia uma voz que não se elevava, uma atenção absoluta ao que elas lhe diziam, um sorriso à confidência feminina onde se fala solidariedade sem que se pronuncie esse nome. Na beleza daquela estrangeira não viam ameaça, porque Soledad não se insinuava ou se exibia, antes procurava retirar do contato com os homens a coquete da conquista amorosa. Nada de sorrisos descabidos, para se mostrar simpática, o que o vulgo masculino sempre interpreta como um convite. Nada de frases ambíguas, ou de estímulos à corte, ou de se pôr como sexo frágil, para receber tratamento especial. Ali, ainda não sabíamos, mas Soledad vinha de treinamentos pesados de guerrilha em Cuba, onde rejeitara qualquer privilégio, como em 2009 me contaria o ex-guerrilheiro Aton Fon, dentro de um ônibus no Rio de Janeiro. Ele a conhecera em Cuba.

– Como era Soledad? – eu lhe pergunto.

Fon apoia a cabeça no encosto da cadeira e fecha os olhos.

Eu espero, sorrindo íntimo, que ele fale sobre o encanto lírico das formas da mulher. Mas ele me responde, depois de um silêncio:

– Ela era muito, muito séria.

– Como assim? – pergunto.

– Ela rejeitava qualquer ajuda para o equipamento que carregava. Subindo a serra, ela rejeitava. ‘Eu sou igual ao companheiro’, ela dizia. ‘Eu me viro sozinha’.

– Ela era uma das poucas mulheres no treinamento de guerrilha. Você nunca se enamorou dela? – pergunto.

– Eu nem cogitava.

E por me envergonhar da pergunta, me calo”.

Assim foi. Para Soledad Barrett e todas as mulheres eu dedico estas linhas.

*Vermelho https://vermelho.org.br/coluna/a-guerreira-que-amamos-e-o-dia-internacional-da-mulher/

Urariano Mota – Jornalista do Recife. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa duração da juventude”

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