A hipocrisia da defesa da democracia com Lula preso, por Luis Nassif

Mas um evento que impede o slogan “Lula livre” e abre espaço para um ator político, FHC, que por disputa pessoal endossou todas as arbitrariedades contra Lula, no mínimo incorre no pecado da hipocrisia e da instrumentalização da bandeira dos direitos.

É paradoxal o que está ocorrendo, hoje em dia, com as chamadas forças democráticas.

O estado de exceção nasceu da prática reiterada do chamado direito penal do inimigo – utilizado politicamente contra Lula e o PT desde, pelo menos, 2005.

Foi a flexibilização da democracia, a criminalização de qualquer gesto, o atropelo das normas jurídicas, a permissividade com os abusos, o estímulo à perseguição judicial contra os “inimigos” que geraram o monstro Bolsonaro.

Agora, o chamado campo democrático cai na real. Antigos defensores do arbítrio contra os inimigos revisam sua posição e se tornam novos campeões da democracia, com escritos indignados contra os abusos de Bolsonaro e seus templários.

Tudo muito bem, tudo muito bom. O momento exige tolerância em nome da grande frente democrática. Por isso mesmo, não se exige autocrítica, apenas sinceridade de propósitos.

Mas o que está ocorrendo, com muitos deles, não é a defesa intransigente da democracia, mas apenas a tentativa de se retornar à semidemocracia em vigor antes da ascensão dos Bolsonaro. Ou seja, condenamos todos os abusos, mas pragmaticamente queremos manter os abusos contra Lula, para não abrir mão da mais eficiente arma eleitoral de que dispomos.

É o que leva a manifestos e declarações em defesa do estado de direito, mas silenciando em relação à prisão de Lula.

Não dá. Já se tem, à vista de todos, as consequências da relativização da democracia. Hoje em dia há a formação de uma frente internacional em defesa da democracia brasileira. E o ponto de honra é a libertação de Lula. Há consenso de que se trata de uma prisão política.

A grande frente exigirá desprendimento do PT, abrindo mão do protagonismo central. Mas um evento – como o recente “direitos-já”- que impede o slogan “Lula livre” e abre espaço para um ator político, Fernando Henrique Cardoso, que por disputa pessoal endossou todas as arbitrariedades contra Lula, no mínimo incorre no pecado da hipocrisia e da instrumentalização da bandeira dos direitos.

Para ser eficaz, o pacto não poderá comportar espertezas ou interesses individuais.

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A meu ver isso chama golpe, caro Nassif, golpe da iniciativa privada sobre o estado democrático de direito. A percepção de hipocrisia vem da corrupção fundamental: a coisa pública tocada pela iniciativa privada. Parece que tudo é dissimulação, mentira, simulacro, falso... "fake news". Parece incoerência mas é porque, ao nosso sentir, coerência seria que o estado cuidasse da coisa pública, que houvesse democracia em lugar de autoritarismo, que houvesse lei em vez de casuísmos, que a Justiça fosse mesmo cega. Os estados são assim mas a iniciativa privada nem que quisesse poderia: já diz o nome, "privada"; tem um dono ou algum preposto do dono, não é de todos, como é o estado. A sensação de que as coisas estão incoerentes some na medida em que a gente se conscientiza de que quem está à frente dos cofres e das decisões públicas é a iniciativa privada. Na minha desimportante opinião, querendo se livrar da angústia que essa percepção, a pessoa tem duas opções: ou aceitam que não há mais democracia e se dispõem a lutar pelos seus próprios rabos, contra todos os outros, ou trabalham, no máximo e como der, para expulsar privatistas da gestão estatal. Tanto o primeiro (conformismo) quanto o segundo (trabalho) diminuem a angústia. (***) Pode haver iniciativa privada, não precisa que absolutamente todo trabalho pertença ao estado. Há milionários na China comunista; há até bilionários. Mas como dizem os próprios empresários privados chineses, não há a menor possibilidade de um grupo de bilionários interferir nas decisões do estado.

Renato Lazzari

Longe de querer demonizar qualquer iniciativa em nome da democracia - ô palavra sofrida e abusada - mas, como o perdão do trocadilho, já nascendo torto, não vai ter santo que indireite.

Pois é, Nassif! Agora sim. Fiquei um tanto espantado com a sua empolgação inicial com esse "Direitos-Já" que, ao menos para mim, soava mais como "Direita-Já", mas depois você foi relativizando essa posição ao longo da semana e chegamos aqui neste texto. De fato, defesa da democracia com Lula preso e, como dizem ter lembrado Flávio Dino no evento, todos os presos políticos e as prisões arbitrárias já ocorridas sob o atual estado de exceção, é uma baita hipocrisia. Mas você ainda insiste nessa tese do desprendimento do PT, embora também já mais relativizada, pois não mais abrindo mão do protagonismo do campo progressista mas de seu protagonismo central. Tendo a concordar com você, com uma pequena ressalva. Creio que o PT deva mesmo cultivar este desprendimento, desde que outros partidos e suas lideranças, democráticos e progressistas, também se façam capazes de disputar esse protagonismo. Penso que não é culpa do PT e de Lula ocupar uma posição hegemônica, mas também é responsabilidade daqueles que não se colocaram à altura para fazer essa disputa. Ao pedir para que PT e Lula saiam de cena, o que nos sobra? Ciro e o PDT, ou outro partido que lhe aprouver, por exemplo? O que lhe garante que irão "abrir mão da mais eficiente arma eleitoral de que dispomos"?

André-Kees Schouten