A responsabilidade dos generais de Bolsonaro na tragédia brasileira, por Luis Nassif

Ali se deu a virada, do Ministério da Saúde para o general Walter Souza Braga Neto, Ministro-Chefe da Casa Civil. A partir dali, os militares do governo Bolsonaro passaram a comandar e a se tornar responsáveis pelos resultados e fracassos do combate ao Covid-19, que levou o Brasil ao segundo pior surto do mundo, atrás dos Estados Unidos

Uma ampla reportagem da Reuters internacional se constitui no principal documento, até agora, para explicar o rotundo fracasso do país no combate ao Covid-19 e às suas consequências econômicas.

A reportagem diz que, no começo da pandemia, havia determinação no Ministério da Saúde. No dia 13 de março, determinou que cruzeiros fossem cancelados, aconselhou autoridades locais e descartarem eventos de grande escala, e instou os viajantes, de volta ao Brasil, a ficarem isolados por uma semana. Antes que o país relatasse a primeira morte por Covid-19, parecia que o país sairia na frente. Os comunicado foram apenas dois dias após a Organização Mundial da Saúde chamar a doença de pandemia.

Menos de 24 horas depois, o Ministério recuou, alegando críticas e sugestões recebidas. Na verdade, a mudança foi decorrente  da intervenção direta do chefe de gabinete da Presidência.

Ali se deu a virada, do Ministério da Saúde para o general Walter Souza Braga Neto, Ministro-Chefe da Casa Civil. A partir dali, os militares do governo Bolsonaro passaram a comandar e a se tornar responsáveis pelos resultados e fracassos do combate ao Covid-19, que levou o Brasil ao segundo pior surto do mundo, atrás dos Estados Unidos, com mais de 374 mil casos confirmados e 23 mil mortes. E tudo isso em um país que se tornou um case mundial na luta contra a malária, zika e HIV.

Segundo a reportagem, quando o primeiro caso foi confirmado, em 26 de fevereiro, o Ministério da Saúde estava em andamento havia quase dois meses. Mas dois fatores implodiram as políticas públicas.

O primeiro, o boicote de Bolsonaro às medidas de confinamento. O segundo, a incapacidade do governo em aumentar os testes rapidamente.

A tentativa de convencer Bolsonaro a ampliar o isolamento esbarraram em sua convicção de que a pandemia passaria em breve e havia exagero nos alertas sobre ela.

Ao mesmo tempo, a área econômica agiu de forma bastante lenta. Em live, em meados de março, o Ministro da Economia Paulo Guedes chegou à afirmar à CNN Brasil que a economia poderia crescer 2% a 2,5% com a queda da economia global. Em poucas semanas, as projeções viraram pó. Em 15 de maio, o Barclays corou sua previsão de queda de 7,7% no Produto Interno Bruto, pela maneira “ineficaz” do Brasil lidar com a pandemia.

A reportagem cita declarações de Solange Vieira, antiga funcionária pública responsável pela introdução do fator previdenciário, no governo FHC e titulada Superintendência de Seguros Privados. Quando o Ministério da Saúde comentou os riscos de mortes em idosos, sua reação foi chocante: “ É bom que as mortes se concentrem em idosos, porque reduzirá nosso déficit previdenciário”.

No dia 13 de março, o Ministério da Saúde mudou sua orientação por pressão do general Braga Neto. A partir daí,  o país perdeu dois Ministros da Saúde. Dois dias depois, Bolsonaro se misturou a manifestantes, em frente o Palácio, estimulando as aglomerações.

No dia 16 de março criou o chamado “gabinete da crise” liderado por Braga Neto.  Logo depois, o Diretor do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis, Júlio Croda, pediu demissão para não ser responsabilizado “por mortes excessivas”.

Ao final desse pandemônio, a Saúde estava entregue a um outro general, Eduardo Pazuello, sem nenhuma experiência na área de saúde. Pelo menos 13 militares foram nomeados para cargos da Saúde.

Segundo Wildo Araujo, um ex-funcionário do Ministério da Saúde que foi co-autor de um dos primeiros grandes estudos do COVID-19 do país, “eu tenho o maior respeito pelas forças armadas, mas tenho pena dos que estão entrando agora porque não têm ideia do que fazer. Eles não sabem como lidar com o sistema público de saúde brasileiro”.

O grande fracasso na aplicação dos testes deveu-se à falta de planejamento do Ministério da Saúde. Em vez de montar uma rede de laboratórios para ir atrás e testes pelo mundo, concentrou tudo em apenas um laboratório, a Fiocruz, combalida por anos de cortes no orçamento. Mesmo assim, a Fiocruz conseguiu entregar 1,3 milhão de testes na última semana de abril e espera entrega mais 11,7 milhões até setembro.

De qualquer modo, em 12 de maio, o Brasil havia processado apenas 482.743 testes. Dos 10 países com maior número de mortes por Covid-19, apenas a Holanda havia testado menos pessoas que o Brasil, tendo um décimo da população brasileira.

15 Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

luis

- 2020-05-29 19:28:37

O enfrentamento a pandemia é um verdadeiro desastre, mas discordo da culpa recair sobre os generais, o maior culpado é o presidente da Republica, o general Braga Neto nao tomou a frente do Ministerio da Saude, Bolsonaro quis reduzir o protagonismo da Mandetta e passou a fazer as coletivas com um grupo de ministros, foi ai que entrou a figura do general, mas a responsabilidade das açoes pelo Ministerio nunca foram de Braga Neto. O presidente recuou nas açoes iniciais ao combate a pandemia por medo da economia sucumbir(como ira) e isto afetar sua reeleiçao, se alguem o orientou a boicotar o isolamento social, com certeza foi o Paulo Guedes.

Eliseu Leão

- 2020-05-28 11:31:59

E ainda aparece um tal de prof Fornazeiro, da Usp, afirmando que esse governo humilha os militares. Esse tal de Fornaziere é pior de outro prof. que ensina em Harvard, chamado Baboseira Unger.

Leo

- 2020-05-28 04:48:38

Rodrigo, se você leu a matéria, o que eu duvido muito, vai perceber que ela foi só reproduzida. Originalmente o assunto foi abordado pela Reuters, aliás com muito pertinência. Você é tipo o pior cego, ou seja, não quer enxergar.

Jossimar

- 2020-05-27 13:41:22

"E tudo isso em um país que se tornou um case mundial na luta contra a malária, zika e HIV." Nessa época o país não era comandado por militares toscos, incompetentes e criminosos lesa pátria. O Brasil vai ser destruído por estes animais fardados.

C.Poivre

- 2020-05-27 11:55:16

Depois da tragédia certamente os milicos vão tirar o corpo fora e a mídia tradicional vai acobertá-los. Não nos esqueçamos que negam o golpe de 64, a atroz ditadura que se seguiu, com milhares de assassinatos por questões ideológicas e negam também que deram o aval para que os golpistas de 2016 agissem, "com o supremo, com tudo".

JD

- 2020-05-27 11:22:19

Sendo que são pagos pelo estado, com recursos de todos os brasileiros, todos já estamos pagando caro !

Ricardo Lacerda deLlacerda

- 2020-05-27 11:06:36

Agiram como generais alemães na segunda guerra. Sem encararem a logística necessária para vencer guerra. Um conhecido jargão militar diz: "Os bons estudam táticas e estratégias, os profissionais, estudam logística". Os nossos orbitam o ex capitão doido, como aqueles orbitaram o ex cabo de então em troca de ganhos pessoais, promoções e medalhas. No final, quando o desastre se estabelecer jogarão toda a culpa no chefe, isso se não tentarem se "livrar" dele antes. A guerra já estará perdida.

Rodrigo

- 2020-05-27 10:36:56

Quem manchete pelêga! A irresponsabilidade dos generais na tragédia brasileira. A tragédia brasileira e a irresponsabilidade dos generais. A tragédia brasileira, os generais são responsáveis por ela. É óbvio que o Nassif sabe fazer manchetes. Ele quis fazer essa manchete covarde.Mais uma vez escrevendo reportagens para um exército técnico e comprometido com o Brasil que não existe!

José Oliveira de Araújo

- 2020-05-27 10:31:30

Agora que o ministério da saúde está lotado de militares para combater o Coronavid-19, o próximo passo é adquirir nano metralhadoras e outro nano apetrechos, e começar o combate.

joel lima

- 2020-05-27 10:21:58

Se militares da ativa implantaram uma ditadura de 21 anos que resultou, em termos sociais, em uma concentração de renda absurda e o início de uma urbanização totalmente caótica ( e que é um terreno fértil pra propagação do coronavírus), imagina o que esses militares da PASSIVA vão deixar de terra arrasada - isso é, caso a terra não passe para mãos estrangeiras.

Marcos K

- 2020-05-27 10:05:02

E ainda existe alguma dúvida de que tudo que acontece no Brasil desde 2013 teve a bênção e culpa das FFAA? TUDO! O que chama a atenção é a baixíssima qualificação intelectual desses generais. Não podem nem ser chamados de gorilas. Gorilas são animais com QI altíssimo perto desses imbecis. Mas vou dar a eles o benefício da dúvida: tenho fortíssima suspeita que esses generais de m*** fazem tanta estupidez porque receberam alguma ameaça dos USA. Sabem de alguma coisa que não veio a público. Se for isso, não são burros, são covardes mesmo.

jcordeiro

- 2020-05-27 09:48:05

Nassif: um apoiador disso que tá ai (des)governando disse que os VerdeSauvas sempre tiveram boas intenções. É porque não sabe que de boas intenções o inferno está lotadinho... PS: que me perdoe o Sr. Diabo a comparação. Não tive intenção de ofendê-lo.

Flavio Martins e Nascimento

- 2020-05-27 08:29:17

Como repetimos, desta vez os milicos vão pagar muito caro pelo patrocínio e adesão ao desgoverno extremista. Não esqueceremos.

Marcos Videira

- 2020-05-27 08:06:05

Os militares entreguistas ocuparam o Ministério da Saúde e muitos outros departamentos federais. São 3.000 (três mil) militares ocupando cargos federais. É uma retribuição pelo apoio decisivo na eleição de Bolsonaro. O general Villas Boas ganhou uma teta no GSI e sua filha virou assessora da Damares. Portanto, esse é um governo de militares entreguistas, responsáveis pela tragédia sanitária, econômica e política.

euclides de oliveira pinto neto

- 2020-05-27 07:42:56

Com certeza, a administração da pandemia não é a praia deles... mas criarão milhares de "boquinhas" para atender ao imenso número de militares que se dispõem ao "sacrificio" de ocupar cargos públicos, na intenção de "trabalhar para o bem do povo"...

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador