A saída do impasse passa pelo pacto político com Rodrigo Maia, por Luis Nassif

Em toda essa crise, Maia comportou-se com maturidade, abertura para o diálogo, e visão prática sobre os desafios políticos da crise. É a pessoa ideal, no momento, para cumprir a transição até as próximas eleições.

No final do impeachment de Fernando Collor, tinha-se uma nação extenuada por meses e meses de uma campanha de ódio e das incertezas sobre o destino do país. O Plano Collor 2 tinha sido uma tentativa desesperada do presidente do Banco Central, Ibrahim Eris, em controlar a inflação que voltava. Falhou.

A saída política encontrada foi o pacto que se formou em torno do vice-presidente Itamar Franco. Ele assumiu um mandato tampão. Não havia ainda a reeleição – aprovada apenas no governo de Fernando Henrique Cardoso. Esse fato facilitou a adesão dos diversos partidos políticos, dos demais poderes nstitucionais, sabendo que seriam mantidas as eleições diretas previstas. Todos tornaram-se avalistas do novo governo.

Vive-se agora momento similar, e mais grave.

Jair Bolsonaro tornou-se a maior ameaça da história moderna do país. É um déspota medieval, sem respeito pela vida, pela ciência, sem plano de governo e aliado às milícias e aos porões do regime militar. Qualquer cenário econômico tem que levar em conta o dilema político atual: a cassação ou o golpe miliciano-militar de Jair Bolsonaro.

O cenário com Bolsonaro é previsível:

  1. Acirramento da pandemia.
  2. Ampliação da recessão, pela absoluta inoperância e bloqueios ideológicos de Paulo Guedes.
  3. Explosão do mal-estar geral, abrindo espaço para o aparecimento de milícias armadas e a perda da disciplina das Policiais Militares e das Forças Armadas. Ontem, o ex-Ministro Sérgio Moro explicou, em um tuite, que a intenção de Bolsonaro, armando a população, seria colocar seguidores armados investindo contra os governadores.

Na noite de domingo conversei com um Ministro do Supremo Tribunal Federal. Dele, ouvi duas afirmações relevantes.

A primeira, sentimento geral dos seus pares, o temor de que um grupo de milicianos invada o STF e a Polícia Militar, convocada para defender a casa, não reaja. Fica nítido o sentimento do risco de eclosão da anarquia contaminando as forças policiais.

A segunda, a constatação óbvia de que esse quadro se agravará com o eventual fortalecimento político de Bolsonaro. Daí, a necessidade imperiosa de afastá-lo antes que o quadro de complique mais ainda.

A disputa final será no julgamento da chapa Bolsonaro-Mourão pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Até lá, o STF se empenhará em desconstruir o discurso de Bolsonaro, de que estaria invadindo atribuições do Executivo. E aposta-se na solidez dos argumentos de Alexandre Moraes, no Inquérito 141, levantando provas insofismáveis para legitimar a cassação da chapa.

O roteiro seguinte tem boa probabilidade de dar certo.

Cassada a chapada, haverá um mandato tampão, com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, assumindo a Presidência e preparando as próximas eleições em 60 dia. O vencedor das eleições terá mandato tampão até as próximas eleições gerais

Em toda essa crise, Maia comportou-se com maturidade, abertura para o diálogo, e visão prática sobre os desafios políticos da crise. É a pessoa ideal, no momento, para cumprir a transição até as próximas eleições.

Havendo grandeza de sua parte, tratará de montar um conselho superior com o STF, o Senado, associações empresariais, sindicais, ONGs privadas e movimentos sociais. Contará com uma boa vontade inédita, similar à do governo Itamar, sabendo-se que seu fracasso significará a volta do fantasma das milícias.

E precisará dar garantias de que não retomará o desmonte de políticas sociais e trabalhistas iniciada no governo Temer. Se reformas são necessárias, que se convoquem todos os setores para haver o equilíbrio na busca de soluções.

Se atuar com pragmatismo, poderá superar a ideologia rasteira de Guedes, e promover um plano emergencial de recuperação da economia, recorrendo à emissão de moeda para financiá-lo. Sem dogmatismo, há espaço amplo para uma recuperação rápida da economia, desde que haja garantia de manutenção de parte do poder aquisitivo dos desempregados (através da renda básica), um apoio financeiro a pequenas e micro empresas, um trabalho de fortalecimento do capital dos grandes grupos, em uma ação articulada do BNDES e bancos privados, tendo como foco principal uma recuperação rápida do emprego através de um amplo projeto de obras públicas, priorizando as empresas municipais – tal como a Alemanha com seu plano de recuperação.

Haverá enorme boa vontade do sistema de tecnologia e inovação, da estrutura das universidades públicas e privadas, dos grupos de inovação das associações empresariais, para uma reconversão eficiente da indústria brasileira.

E, principalmente, montando o grande pacto nacional, se terá um caminho para manter acesa a esperança do brasileiro até que apareçam os resultados, impedindo que o desalento leve à busca de soluções violentas.

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15 comentários

  1. “E precisará dar garantias de que não retomará o desmonte de políticas sociais e trabalhistas iniciada no governo Temer”. Mas não é exatamente para levar adiante esta agenda que ele se sentou nos pedidos de impeachment?

    • Estas garantias tem que ser compactuadas com a pressão da esquerda! Pra que serve esquerda? Sem pressão, não vai! Uma coisa eu aprendi nessa polarização esdrúxula: não existe vilão absoluto, aquele de quem sempre você só espera o pior – tudo bem, do Bozo especificamente eu sempre espero o pior mesmo. Mas o Maia, o Alexandre, o Gilmar é o que temos pra hoje. E aí uns querem ter a pureza PSolista que tanto criticaram antes… sinto dizer que não existe mundo perfeito.
      Se é com o Maia, vai com o Maia mesmo. Ou É melhor deixar como está para chegarmos numa guerra civil, só para um lado da esquerda dizer que tinha razão?
      Eu prefiro um Nassif, acusado de poliana e tentando vislumbrar um acordo, do que mil esquerdistas puro-sangue apontando erros, rotulando e sem fazer nada para dar uma solução.

  2. POLIANA em novo acesso de otimismo e inocência.
    Sim, eu fui dos 1os que apostei nessa saída CONSTITUCIONAL, desde 2019, a da anulação da chapa e, pela absoluta falta de liderança, com eleição indireta de RODRIGO MAIA ..mas isso, só se em 2021, pq se antes, teria de haver, em ano de pandemia, eleição direta pela anulação, ou MOURO pelo Impeach ..caso contrário, seria um NOVO GOLPE, tipo do iniciado em 2013 com a CLASSE MEDIA, e que cooptadõ, desaguou em 2016 com Judiciário, Militares e EUA envolvidos até o talo.
    …e afinal, quem pagará o PACTO ? Será mesmo que depois de tudo ainda seremos obrigados a ver S.Moro, FHC e Temer posarem de paladinos e democratas ?
    Penso que é impossível qq armistício enquanto a espada da justiça balançar sobre a cabeça do STF, isso qdo este ainda se nega a reconhecer o GOLPE em DILMA e, principalmente, a CONDENAÇÃO ABSURDA, política, irresponsável e injusta feita contra LUIZ INACIO LULA DA SILVA.
    Evidente que SEM apoio do PT, se BOZO NÃO for retirado, OU FOR, o estrago libertino da política de Paulo Guedes (herdeiro da de Temer) continuará. Já pra ter o PT, é IMPERIOSO que as forças verdadeiramente progressistas se purguem dos GOLPISTAS, e que exijam garantias pra se revisar questões elementares, de fundo, de base, como as privatizações que ainda se pretendem, a reforma tributária e, pq não, um melhor ordenamento às recentes reformas previdenciárias, sindicais e trabalhistas por exemplo.
    Agora, se as forças que estão assando este PACTO (o PIG C/Marina, Ciro, O PSDB e outros menos importantes) se eles acharem que o projeto IMPOSTO ao país, desde 2015-16, deve permanecer, e que só BOZO deveria ser extraído do Poder, então eles que sigam seus instintos, mas que não contém com o PT e os verdadeiramente progressistas como forças avulsas, secundárias, omissas e passivas neste processo ..é o que EU espero.

  3. Sério que Nassif espera “grandeza” de um personagem como Rodrigo Maia? Com todo o histórico que esse cidadão tem nas costas? De fato, seu otimismo chega a ser emocionante, se não ingênuo, Nassif!

  4. Nassif por gentileza, conceitue o que seja “déspota medieval”. Nunca li em obras historiográficas tal alusão a personagens históricos. Se tal expressão for tão somente uma “figura de linguagem”, de certo é inadequada, visto que, no período medieval o poder político era fragmentado e exercido de maneira personalíssima pelo suserano. Mesmo se pensarmos no “poder político” dos Papas – estes também não exerciam o poder como um “déspota medieval”. Por fim, fazer o uso do termo “medieval” como período negativo da História Ocidental é fazer “tabula rasa” da “leitura histórica” enviesada e eivada de “pré-conceitos” que perpassa parte significativa da obra do francês Ernest Renan, bem ao gosto maçônico de então, no afã de desacreditar a Igreja.

    • De fato. Alguns gostam de usar a palavra medieval com sentido depreciativo; como se aquele período do Ocidente tivesse sido um tempo de trevas. Ridículo.
      Agora,” … bem ao gosto maçônico de então, no afã de desacreditar a Igreja.” poderia me explicar sr. César, como ou em que sentido, a maçonaria buscava desacreditar a Igreja?

  5. Deixando as firulas de lado, é sabido que os integrantes das instituições em Brasilia trabalham sob soldo da plutocracia. Pra dar certo é preciso saber para quem trabalha Maia. No golpe trabalhou para os lemanns e setubals. Vem aí mais um pacto como o da anistia. E cem anos de solidão a frente.

  6. Os militares chegaram de novo ao poder e não vão largá-lo docilmente. Logo, cassar a chapa e assim tirar Mourão da possibilidade de ser presidente é algo fora de realidade. Maia só pensará em colocar a mão no vespeiro do impeachment se a popularidade de Bolsonaro for metade que tem hoje. Além do mais, começar um processo de impeachment com grande risco de falhar é dar, na prática, um atestado de idoneidade a Bolsonaro ( erro grosseiro que os democratas fizeram com Trump e que só não terá consequências desastrosas aso democratas por causa do caos da pandemia). E ainda tem a questão do calendário = mesmo que hoje a popularidade de Bolsonaro caísse a zero, o impeachment seria concluída em 1 de janeiro de 21, pra evitar que se façam novas eleições hoje. Pra mim está mais do que claro que as PMS estaduais têm como único comandante Bolsonaro. Portanto, não adianta a cabeça brilhante de Alexandre de Moraes fazer argumento brilhante e do outro lado Bolsonaro citar o camarada Mao Tsé Tung = O poder nasce da ponta de um fuzil” . A única saída factível é tentar uma costura com as forças armadas pra que essa faça uma proposta irrecusável a la Dom Corleone pra Bolsonaro renunciar ( lembrando que o vice dele não é a Manu) e em troca os filhos terem uma anistia informal na justiça.

  7. “E precisará dar garantias de que não retomará o desmonte de políticas sociais e trabalhistas iniciada no governo Temer”. E de que abandonará a política suicida de privatizações das empresas essenciais para a segurança do país, de que ele é partidário fanático.

  8. Maia faria isso tudo em 60 dias ou esta se referindo ao Presidente tampão que pode se reeleger? Quem assumir ainda precisará lidar com o antipetismo intestino alimentado primeiro pela midia golpista e depois pela indústria dos fake news. Não será tarefa fácil, inclusive porque o setor que podia puxar o desenvolvimento criando empregos, a construção civil do MCMV, está repleta de caudilhos do bolsonarismo.

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