Além do Brasil, Israel vendeu material de espionagem a outros países com a democracia fragilizada

Sudão, Mianmar e Marrocos adquiriram apps de monitoramento; países têm histórico de violação contra direitos humanos

Foto: Getty Images

O Brasil não foi o primeiro país a enfrentar problemas com a aquisição de softwares de espionagem e monitoramento de Israel. Um mês antes de um violento golpe de Estado em Mianmar, a Cognyte, mesma empresa a vender o FirstMile para a ABIN (Agência Brasileira de Inteligência), exportou o sistema também para o país da Ásia, que enfrenta uma ditadura desde 2021.

Israel também forneceu equipamento de espionagem para o Sudão, que usou a ferramenta como forma de repressão à liberdade de imprensa e de expressão, além de perseguir e violar direitos de opositores do governo.

Além da ABIN, os estados de Mato Grosso, São Paulo, Amazonas, Goiás, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Pará, Espírito Santo e Alagoas também contrataram serviços de monitoramento da Cognyte, como mostra investigação feita pela Agência Pública.

A relação entre Israel e Mianmar

De acordo com o portal israelense Haaretz, a Cognyte venceu, em dezembro de 2020, uma licitação de uma empresa estatal (Correios e Telecomunicações de Myanmar) para fornecer equipamentos avançados de monitoramento, que foram instalados nas redes do país asiático a fim de espionar os seus usuários. Um mês depois, os militares efetuaram um golpe de Estado. 

Israel se recusou a parar de vender armas à junta militar que agora controla do Mianmar e que promovia um genocídio contra a minoria Ronygia, entre 2016 e 2017. Os Estados Unidos e União Europeia, nessa época, impuseram embargos para as vendas de material bélico ao país. Só após ampla cobertura midiática e pressão pública, Israel interrompeu as vendas, no início de 2018.

Foto: Reprodução de charge do relatório “These Walls Have Ears”, da Anistia Internacional

Os documentos, obtidos pela Organização Não Governamental (ONG) Justice For Myanmar, mostram que o regime militar tinha planos de implementar o software de monitoramento em todas as redes de comunicação do país. O sistema espião permite ouvir telefonemas, acessar mensagens de texto e e-mails e rastrear usuários sem aval ou assistência das empresas privadas de internet e telecomunicações.

Não fica claro, no entanto, se o sistema foi entregue ou se estaria funcionando. Um relatório do Departamento de Estado dos EUA divulgou que os militares do regime “monitoravam regularmente as comunicações eletrônicas privadas através de vigilância online; houve numerosos relatos de que o regime espionava opositores pró-democracia”. 

Violação da privacidade no Sudão do Sul

De acordo com o relatório apresentado pela Anistia Internacional, o Sudão do Sul, principalmente através do Serviço de Segurança Nacional (NSS), vigia o sistema de telecomunicações do país, provavelmente com o apoio das próprias empresas, através de um software também comprado de Israel.

Entre março de 2015 e fevereiro de 2017, a empresa israelita Verint Systems forneceu às autoridades do Sudão do Sul equipamentos de interceptação dos meios de comunicação que não estão em conformidade com as normas internacionais de direitos humanos.

O relatório foi realizado a partir de 63 entrevistas com membros da sociedade civil do Sudão do Sul, incluindo defensores dos direitos humanos, jornalistas e líderes religiosos, bem como advogados e juízes, acadêmicos e ex-detentos, além de antigos funcionários da segurança privada e empresas de telecomunicações que operam no Sudão do Sul com conhecimento especializado e experiência em primeira mão de infra-estrutura de vigilância. 

A Anistia ainda reforça que o governo do Sudão utiliza os equipamentos de monitoramento para prender arbitrariamente e deter ilegalmente indivíduos, infringir a liberdade de imprensa, a liberdade de opinião e expressão e reafirma a ilegalidade das ações do NSS e a violação dos direitos à privacidade dos cidadãos.

Israel e a espionagem no Marrocos

Israel também vendeu um app de espionagem para o Marrocos, na Saara Ocidental, última região do norte da África pendente de descolonização. A Anistia Internacional publicou o relatório em sua página oficial em 2019. O Marrocos teria adquirido de Israel o aplicativo ‘Pegasus’, na empresa NSO Group. 

O app foi utilizado pelo governo marroquino para espionar dois defensores dos direitos humanos do país, que tem um histórico de perseguição por falarem abertamente das violações cometidas pelo governo. 

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Isadora Costa

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