Lista de Livros: As aventuras de Pi – Yann Martel
Editora: Nova Fronteira
ISBN: 978-85-209-331-07
Tradução: Maria Helena Rouanet
Opinião: bom
Páginas: 424

“A primeira vez que fui a um restaurante indiano no Canadá, comi com as mãos. O garçom me olhou com um ar de crítica e disse: “Acabou de desembarcar, não é mesmo?” Fiquei lívido. Os meus dedos, que, um segundo antes, eram papilas gustativas, saboreando a comida ainda meio longe da boca, ficaram sujos diante daquele olhar. Estancaram como bandidos apanhados em flagrante. Não ousei lambê-los. Culpadíssimo, usei o guardanapo para limpá-los. Aquele garçom não podia imaginar o quanto as suas palavras me magoaram. Elas foram como pregos penetrando na minha carne. Peguei o garfo e a faca. Praticamente nunca tinha usado esses utensílios. As minhas mãos tremiam. O meu sambar ficou completamente sem gosto.”
“Os ateus são meus irmãos de uma outra fé, e cada palavra que eles dizem expressa fé. Como eu, vão até onde as pernas da razão podem levá-los, e, então, pulam.
Vou ser sincero. Não são os ateus que me irritam, são os agnósticos. A dúvida pode ser útil por um instante. Todos devemos atravessar o jardim do Getsêmani. Se Cristo lidava com a dúvida, devemos fazer isso também. Se Ele passou uma noite angustiado, rezando, se, lá na Cruz, exclamou: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?”, com certeza também podemos duvidar. Mas precisamos ultrapassá-la. Escolher a dúvida como filosofia de vida equivale a escolher a imobilidade como meio de transporte.”
“A presença de Deus é a melhor das recompensas.”
“Palavras de uma consciência divina: exaltação moral; sentimentos duradouros de elevação, de elação, de alegria; uma aceleração do sentido moral, que nos causa impacto, parecendo mais importante que um entendimento intelectual das coisas; um alinhamento do Universo e das linhas morais, não das intelectuais; uma percepção de que o princípio básico da existência é aquilo que chamamos de amor, que às vezes se realiza de uma forma nada clara, nada simples, nem imediata e, no entanto, é inelutável.”
“Ravi fez a festa quando ficou sabendo que eu era hindu, cristão e muçulmano.
– E então, swami Jesus, vai fazer o hajj, a sua peregrinação desse ano? – perguntou ele, juntando as mãos diante do rosto, num reverente namaskar. – Meca está chamando por você? – acrescentou, fazendo o sinal da cruz. – Ou será que vamos a Roma para a sua coroação como o próximo Papa Pi…o? – Com a mão, traçou no ar uma letra grega para deixar bem clara a sua gracinha. – Já arranjou tempo para mandar cortarem a ponta do seu pau e virar judeu? Desse jeito, se for ao templo na terça, à mesquita na sexta, à sinagoga no sábado e à igreja no domingo, só precisa se converter a mais três religiões para ficar de folga para o resto da vida.”
“Existem sempre aqueles que se acham na obrigação de defender Deus, como se a Realidade Última ou a estrutura de sustentação da existência fossem algo fraco e desamparado. Essa gente passa por uma viúva deformada pela lepra, mendigando umas poucas paisas; passa por crianças esmolambadas, morando na rua, e pensa: “A vida é assim mesmo.” Se percebem, porém, uma coisinha de nada contra Deus, tudo muda de figura. Ficam com o rosto vermelho, o peito inflado, esbravejam palavras furiosas. O seu grau de indignação é espantoso. A sua transformação, assustadora.
O que essas pessoas não entendem é que é só internamente que Deus precisa ser defendido, não externamente. Deviam dirigir a sua fúria contra si mesmas. Pois o mal exterior nada mais é que o mal interior que conseguiu escapar. O principal campo de batalha para o bem não esta no espaço aberto da arena pública, mas na pequena clareira de cada coração. Nesse meio-tempo, aquele monte de viúvas e crianças sem-teto são um problema sério e é em sua defesa, e não na de Deus, que essa gente moralista devia correr.
Para mim, religião é uma questão de dignidade, não de degradação.”
“Não sou do tipo que tem preconceito contra qualquer animal, mas ninguém ignora que a hiena-malhada não é muito bem-dotada em termos de aparência. Ela é feia de doer… Tem o pescoço grosso e os ombros altos que caem na direção do lombo dando a impressão de que saíram de um protótipo de girafa descartado, e a sua pelagem grossa e eriçada parece ter sido feita com remendos de sobras da criação. A sua cor é uma mistura estranha de caramelo, preto, amarelo e cinza, e as manchas não têm nada da ostentação classuda das pintas do leopardo; elas mais parecem sintomas de alguma doença de pele, uma forma virulenta de sarna. A cabeça é grande e excessivamente maciça, com uma testa alta, como a dos ursos, mas com umas entradas bem acentuadas, e aquelas orelhas, ridiculamente semelhantes às de um camundongo, grandes e redondas, quando não foram arrancadas numa briga qualquer. A boca vive aberta e ofegante. As narinas são grandes demais. O rabo é mirrado, sempre imóvel. O andar é arrastado. Juntando tudo, ela acaba ficando parecida com um cachorro, só que um cachorro que ninguém ia querer como bicho de estimação.
Mas eu não tinha esquecido as palavras do meu pai. Aqueles animais não eram uns covardes comedores de carniça. Se o National Geographic os retratava assim era porque as suas equipes filmavam durante o dia. É quando a lua aparece no céu que o dia das hienas começa, e elas demonstram ser caçadoras implacáveis. Atacam em bando qualquer bicho que possa ser capturado, e abrem-lhe o flanco ainda em pleno movimento. Atacam zebras, gnus e búfalos-d’água, e não só os velhos ou os doentes do rebanho, mas também os adultos em pleno vigor. São ousadas em seus ataques, levantando-se imediatamente quando lhes acertam chifradas e coices, nunca desistindo simplesmente por lhes faltar disposição. E são espertas; qualquer coisa que possa ser atraída para longe da mãe serve. O gnu com dez minutos de vida é um dos seus pratos favoritos, mas as hienas também podem perfeitamente comer filhotes de leões e rinocerontes. São diligentes quando os seus esforços são recompensados. Em quinze minutos contados no relógio, tudo o que resta de uma zebra é o crânio, que pode ser arrastado para a toca e mordiscado pelos filhotes como brincadeira. Nada se perde; até o mato respingado de sangue é comido. O estômago das hienas incha visivelmente quando elas engolem grandes nacos de caça. Em dias de sorte, ficam com a barriga tão cheia que mal conseguem andar. Depois de digerirem a presa, cospem umas bolas de pelo bem densas; catam ali dentro tudo o que for comestível e, depois, ficam se rolando em cima delas. Canibalismo acidental é coisa comum durante a empolgação com a comida; tentando alcançar uma zebra, uma hiena pode, sem segundas intenções, acertar a orelha ou uma narina de um dos membros do clã. Mas não vai ficar enojada com esse engano. São tantos os prazeres que não dá para admitir sentir nojo do que quer que seja.
Na verdade, a variedade do paladar da hiena é tão indiscriminada que chega quase a ser admirável. Ela bebe água mesmo que esteja urinando ali dentro. Aliás, esse animal tem outra utilidade bem original para a urina: quando o tempo está quente e seco, eles se refrescam aliviando a bexiga no chão, revolvendo aquela terra molhada com as patas e se deliciando com um refrescante banho de lama. Comem excremento de herbívoros lambendo os lábios de prazer. O difícil é dizer o que as hienas não comem. Devoram a própria espécie (o resto daqueles animais cujas orelhas ou focinhos arrancaram como aperitivo), desde que o bicho esteja morto, e isso depois de um período de luto que dura cerca de um dia. Chegam até a atacar veículos motorizados – faróis, cano de escapamento, espelhos laterais. Não é o suco gástrico das hienas que estabelece o limite da sua alimentação; é o poder das suas mandíbulas, que é formidável.”
“Há uma coisa mais perigosa que um animal saudável: um animal ferido.”
“- Para levar adiante a nossa investigação, gostaríamos de saber o que aconteceu efetivamente?
– O que aconteceu efetivamente?
– É.
– Então, querem que eu conte outra história?
-Hum… Não. Gostaríamos de saber o que aconteceu efetivamente.
– Contar alguma coisa não cria sempre uma história?
– Hum… Em inglês, talvez. Em japonês, uma história teria sempre um elemento de invenção. Não é o que queremos. Queremos que o senhor “se atenha aos fatos”, como se diz.
– Mas contar alguma coisa, usando as palavras, seja em inglês ou em japonês, já não é de certa forma uma invenção? O simples fato de olhar para esse mundo já não é de certa forma uma invenção?
– Hum…
– O mundo não é apenas do jeito que ele é. É também como nós o compreendemos, não é mesmo? E, ao compreender alguma coisa, trazemos alguma contribuição nossa, não é mesmo? Isso não faz da vida uma história?”
Edsonmarcon
25 de dezembro de 2013 5:02 pmPlágio
7 milhões de cópias vendidas de “As Aventuras de Pi”: parabéns, Moacyr Scliar!
http://www.diariodocentrodomundo.com.br/7-milhoes-de-copias-vendidas-de-as-aventuras-pi-parabens-moacyr-scliar/
Postado em 28 Feb 2013por : Kiko Nogueira
Uma homenagem ao verdadeiro autor da ideia por trás de um sucesso na literatura e no cinema.
E o Oscar foi para Moacyr Scliar. Ou deveria ter ido.
O filme As Aventuras de Pi, que ganhou quatro estatuetas, uma delas a de melhor diretor para Ang Lee, é adaptado do livro do canadense Yann Martel – que, por sua vez, se “inspirou” no livro Max e os Felinos, do escritor gaúcho Moacyr Scliar. Inspiração é bondade.
Em 2002, Martel agradeceu indiretamente o brasileiro pelo que chamou de “centelha de vida”. Explicou que não havia lido a obra, e sim uma resenha desfavorável de John Updike no New York Times Book Review.
A resenha não existia. Pego com a boca na botija, Martel deu uma de malandro: “Eu devo ter me confundido. Eu não queria ler aquilo. Por que estragar uma premissa brilhante com um escritor menor?”
O tamanho de Moacyr Scliar não vem ao caso. O plágio, sim. Na história de Scliar, Max, judeu alemão, é forçado a deixar seu país por causa dos nazistas. Ele embarca num navio em direção a Santos, com animais de um zoológico a bordo. Acontece um naufrágio e Max vai parar num bote com algumas provisões e uma caixa fechada. Quando ele a abre, lá está ele: um jaguar. Ele e o bicho são obrigados a conviver. É uma bela alegoria sobre morte, vida, violência e maturidade.
E é simplesmente a mesma ideia de As Aventuras de Pi, excetuando-se que aqui o menino é indiano e, ao invés de um jaguar, a fera é um tigre de Bengala.
O romance de Martel ganhou o prestigiado Booker Prize na época de seu lançamento (75 mil dólares) e mais três prêmios literários. Scliar e sua editora entraram com um processo, mas não foram adiante. Ele chegou a escrever uma declaração pública elegantíssima (leia abaixo). O canadense faturou um bom dinheiro com a adaptação para o cinema e está vendendo livros a mancheias. Só na Inglaterra, mais de 3 milhões de cópias; no mundo, calcula-se em 7 milhões. Tem quase 4 mil resenhas na Amazon. Foi traduzido para 41 línguas. Obama escreveu para Martel, dizendo que se tratava de “uma prova elegante de Deus e do poder de uma história bem contada”.
Faz tempo que o Brasil não tem um filme indicado (o que acho, francamente, merecido e, sinceramente, não faz a menor diferença). Mas Scliar nos vingou. Morto em 2011, ele não foi lembrado por ninguém — do plagiador ao diretor, ninguém.
Mas nós dizemos aqui: parabéns, Professor.
(Nesta semana, o poeta malaio Iryimman Thampi acusou de plágio a compositora Jayashri, autora da música tema de As Aventuras de Pi. O filme, diga-se, é bom. Mas, pelo jeito, a originalidade não é uma de suas virtudes).
Abaixo o texto em que Scliar tratou do assunto:
“INTRODUÇÃO
Moacyr Scliar
O Destino ainda bate à porta, claro, mas nesta época de comunicações instantâneas prefere o telefone. Na tarde de 30 de outubro de 2002, voltando para casa cansado de uma viagem, recebi uma ligação. Era uma jornalista do jornal O Globo, dando-me uma notícia que, a princípio, não entendi bem: parece que um escritor tinha ganho, na Europa, um prêmio importante com um livro baseado em um texto meu.
Minha primeira reação foi de estranheza: um escritor, e do chamado Primeiro Mundo, copiando um autor brasileiro? Copiando a mim? Ela se ofereceu para me dar mais detalhes, o que foi feito em telefonemas seguintes, e assim aos poucos fui mergulhando no que se revelaria, nos dias seguintes, um verdadeiro torvelinho, uma experiência pela qual eu nunca havia passado.
Sim, um escritor canadense chamado Yann Martel havia recebido, na Inglaterra, o prestigioso prêmio Booker, no valor de 55 mil libras esterlinas, conferido anualmente a autores do Common wealth britânico ou da República da Irlanda (entre outros: Ian McEwan, Michael Ondaatje, Kingsley Amis, J.M.Coetzee, Salman Rushdie, Iris Mur doch). Sim, ele dizia que havia se baseado em um livro meu, Max e os felinos, publicado no Brasil em 1981, pela L&PM (Porto Alegre), e traduzido poucos anos depois nos Estados Unidos como Max and the Cats (New York, Ballantine Books, 1990) e na França como Max et les Chats (Paris, Presses de la Renais sance, 1991). É uma pequena novela que escrevi com grande prazer – lembro-me de um fim de semana na serra gaúcha em que matraqueava animado a máquina de escrever, em todos os minutos em que não estava cuidando de meu filho, ainda pequeno.
Minha primeira reação não foi de contrariedade.
Ao contrário, de alguma forma senti-me envaidecido por ter alguém se entusiasmado pela idéia tanto quanto eu próprio me entusiasmara. Mas havia, na notícia, um componente desagradável e estranho, tão estranho quanto desagradável. Yann Martel não tinha, segundo suas declarações, lido a novela. Tomara conhecimento dela através de uma resenha do escritor John Updike para o New York Times, resenha desfavorável, segundo ele.
Esta afirmativa me perturbou. Max and the Cats não chegou a ser um best-seller, mas os artigos sobre o livro, que me haviam sido enviados pela editora, eram favoráveis – inclusive o doNew York Times, assinado por Herbert Mitgang. Teria Updike escrito uma outra resenha – para o mesmo jornal? Se era esse o caso, por que eu não a recebera? Será que os editores só mandavam resenhas favoráveis?
Scliar
À afirmativa seguia-se um comentário de Martel. Uma pena, dizia ele, que uma idéia boa tivesse sido estragada por um escritor menor. Mas, em seguida, levantava uma outra hipótese: e se eu não fosse um escritor menor? E se Updike tivesse se enganado? De qualquer maneira a idéia principal do livro serviu-lhe de ponto de partida para sua obra The Life of Pi. E qual é essa idéia?
O Max Schmidt de meu livro é um jovem alemão que está fugindo do nazismo e que embarca para o Brasil. O navio em que viaja, um velho cargueiro, transporta também animais de um zoológico. Há um naufrágio, criminoso, mas Max salva-se em um escaler. E de repente sobe a bordo um sobrevivente inesperado e ameaçador: um jaguar. Começa então a segunda parte da novela, que tem como título O jaguar no escaler.
Esta, a idéia que motivou Martel. O seu personagem, Piscine Molitor Patel, Pi, é um menino hindu cujo pai é dono de um zoológico. A família emigra para o Canadá, levando os animais a bordo. Há, na segunda parte do livro, um naufrágio (que depois será considerado criminoso). Pi salva-se. No mesmo barco estão um tigre de Bengala, um orangotango e uma zebra. O tigre liquida os três e Pi fica à deriva com o felino por mais de duzentos dias.
O texto de Martel é diferente do texto de Max e os felinos. Mas o leitmotiv é, sim, o mesmo. E aí surge o embaraçoso termo: plágio.
Embaraçoso não para mim, devo dizer logo. Na verdade, e como disse antes, o fato de Martel ter usado a idéia não chegava a me incomodar. Incomodava-me a suposta resenha e também a maneira pela qual tomei conhecimento do livro. De fato, não fosse o prêmio, eu talvez nem ficasse sabendo da existência da obra. No lugar de Martel eu procuraria avisar o autor. Aliás, foi o que fiz, em outra circunstância. Meu livro A mulher que escreveu a Bíblia teve como ponto de partida uma hipótese levantada pelo famoso scholar norte-americano Harold Bloom segundo a qual uma parte do Antigo Testamento poderia ter sido escrita por uma mulher, à época do rei Salomão. Tratava-se, contudo, de um trabalho teórico. Mesmo assim, coloquei o trecho de Bloom como epígrafe do livro – que enviei a ele (nunca respondeu – nem sei se recebeu -, mas eu cumpri minha obrigação). Martel agiu de maneira diferente. No prefácio, em que agradece a muitas pessoas, atribui a “fagulha da vida” (“the spark of life”) que o motivou a mim. Mas não entra em detalhes, não fala em Max e os felinos.”
rita scaramuzzi
25 de dezembro de 2013 8:44 pmque historia incrivel! não
que historia incrivel! não sabia disso!
Frederico69
26 de dezembro de 2013 10:32 amé isso aí
pena que o scliar não tenha levado em frente um processo contra o imitador. a coisa foi tão descarada que não tem como não perceber.
pode considerar 5 estrelas no seu comentário.
Assis Ribeiro
25 de dezembro de 2013 5:17 pmLivro muito gostoso de se
Livro muito gostoso de se ler.
CELSO ORRICO
25 de dezembro de 2013 11:02 pmli o livro mas..
li o livro e gostei mas o filme é chato pra caramba Ang Lee nesse não me agradou..glub glub glub (aqui no ES só chove)
Marco St.
26 de dezembro de 2013 12:01 amRelembrando…
Ou para quem não leu:
https://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/moacyr-scliar-e-a-polemica-de-life-of-pi