7 de junho de 2026

“Block no Tigrinho”: artistas se mobilizam contra apostas online em meio à crise de endividamento e lavagem de dinheiro

O movimento estreou nas redes sociais com um vídeo-jogral em que nomes como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Djavan
Crédito: Reprodução

Um movimento cultural de peso entrou em campo contra as plataformas de apostas online no Brasil. Lançada no início de junho pela 342 Artes, empresa liderada por Paula Lavigne, esposa de Caetano Veloso, a campanha “Block no Tigrinho” reúne artistas, pede engajamento popular e questiona a regulação frouxa de um setor que cresce sem freios e deixa um rastro crescente de endividamento, dependência e crimes financeiros.

O movimento estreou nas redes sociais com um vídeo-jogral em que nomes como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Djavan, Paulinho da Viola, Emicida, Marieta Severo, Letícia Sabatella, Cláudia Abreu e Camila Pitanga pedem um “block” nas plataformas de apostas. A mensagem é direta: “O Tigrinho promete sorte, diversão, riqueza e mudança de vida, mas só traz dívidas e desespero para milhões de famílias.”

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A repercussão foi imediata. Em apenas 15 horas após a publicação do vídeo, a página do movimento no Instagram saltou de 16 mil para mais de 41 mil seguidores, número que rapidamente ultrapassou 50 mil. Um abaixo-assinado no site da campanha acumulou quase 12 mil assinaturas em poucos dias.

O movimento ganhou ainda mais força com a divulgação de um vídeo enviado pelo caminhoneiro Rael Evangelista à mulher e aos três filhos minutos antes de tirar a própria vida, em outubro, após perder R$ 10 mil no Jogo do Tigrinho. A tragédia, ocorrida em Jardim do Seridó (RN), tornou-se símbolo do que a campanha chama de “epidemia” de apostas no país.

A cantora Anitta, também participante do movimento, resumiu o sentimento coletivo. “Já vimos que não deu certo. É hora de recalcular a rota e proibir propagandas de bets em emissoras de televisão, stories de influenciadores, outdoors, eventos ou qualquer mídia pública. Todo mundo vai perder, se isso continuar.”

Outro lado da influência

A mobilização cultural, no entanto, enfrenta uma disputa desigual. As bets contam com celebridades de peso entre seus garotos-propaganda: o apresentador Luciano Huck anuncia a Bet MGM nos intervalos do Domingão, Neymar e Vini Jr. estrelam campanhas do setor, e o cantor Gusttavo Lima também figura entre os principais rostos das plataformas. No dia de sua polêmica convocação para a Seleção Brasileira, o atacante do Santos aproveitou o engajamento em suas redes para divulgar uma bet.

Outras grandes emissoras aderiram ao setor de forma ainda mais direta: o SBT com o “Todos Querem Jogar” e a Band com a Bandbet. Apenas em 2025, as empresas de apostas investiram R$ 1,4 bilhão em TV aberta, fechada e streaming, segundo o estudo da Tunad. Considerando toda a cadeia de entretenimento, esse gasto chega a R$ 8,8 bilhões, dos quais R$ 3,5 bilhões foram destinados ao futebol.

Números

O crescimento das bets é inegável. Desde a regulamentação do mercado, em janeiro de 2025, o faturamento do setor praticamente dobrou: a arrecadação de impostos saltou de R$ 2,2 bilhões para R$ 4,5 bilhões nos primeiros quatro meses de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior. Em 2025, o faturamento anual do setor chegou a R$ 37 bilhões, em um mercado que já é o quinto maior do mundo e mobiliza quase 30 milhões de apostadores.

O Ministério da Fazenda emitiu 85 licenças desde então, permitindo a operação de 187 sites. Dez marcas concentram quase 70% do mercado, a grega Betano lidera, com 23% da receita, seguida pela britânica Bet365 (15,1%).

A Copa do Mundo deve ampliar ainda mais esse volume. A consultoria H2 Gambling Capital projeta um aumento de R$ 20 bilhões a R$ 25 bilhões nos valores depositados para apostas esportivas durante o torneio.

Dívidas, vício e crime

Por trás dos números expressivos, o setor acumula um passivo social e criminal preocupante. De acordo com o Serasa, 57% dos 81,7 milhões de inadimplentes do país começaram ou ampliaram suas dívidas por causa das apostas. Uma pesquisa da Quaest indica que 29% dos brasileiros apostam regularmente, enquanto estudo da Anbima aponta que 11% dos apostadores são classificados como “problemáticos”.

A relação entre bets e crime organizado também é um problema concreto. Em 2025, a operação “Narco Bet” resultou em 11 prisões e no bloqueio de R$ 630 milhões. Em abril de 2026, a operação Narcofluxo desarticulou um esquema de lavagem de dinheiro que movimentou R$ 1,6 bilhão, envolvendo artistas e influenciadores.

Ainda em 2026, a operação “Falsa Las Vegas” terminou com cinco prisões e R$ 5,2 bilhões bloqueados. O Coaf registrou um salto nas denúncias de movimentações suspeitas ligadas a apostas: de 444 casos em 2018 para 27,5 mil em 2025.

Influenciadores também cruzaram a linha. A advogada Deolane Bezerra foi presa duas vezes, a primeira por envolvimento com um site que teria lavado R$ 30 milhões ligados ao narcotráfico; a segunda, investigada por supostos vínculos com o líder do PCC. Virgínia Fonseca também voltou a ser investigada pela Polícia Federal por lavagem de dinheiro.

Para Daniel Cerqueira, pesquisador do Ipea, há condescendência no Congresso, especialmente na Câmara, em relação ao setor. “É evidente que ainda existe um volume enorme de recursos utilizados pelo setor de apostas para lavar dinheiro do crime organizado, além das situações que envolvem a manipulação de resultados”, afirma.

Legislativo

No Congresso, o debate avança em passos lentos. Em fevereiro, o Senado aprovou na Comissão de Ciência e Tecnologia um projeto que proibiria toda publicidade e patrocínio de bets, de autoria do senador Randolfe Rodrigues e relatado pela senadora Damares Alves. O texto ainda precisa passar pela CCJ, pelo plenário do Senado, pela Câmara e pela sanção presidencial.

No fim de maio, a Frente Parlamentar de Promoção da Saúde Mental apresentou o projeto “Brasil contra as Bets”, que tramitará simultaneamente nas duas casas. A deputada Benedita da Silva, do PT, defende a iniciativa. “É um cenário que leva à dependência, ao endividamento, a conflitos familiares, ansiedade e depressão. Isso exige uma medida de responsabilidade pública voltada para a proteção das famílias.”

O presidente Lula também declarou, há duas semanas, ser “favorável a acabar com todas aquelas bets que não estão prestando nenhum serviço de utilidade a este país”. Nenhum dos projetos em tramitação, porém, tem chances reais de prosperar no curto prazo.

Enquanto isso, o mesmo Ministério da Fazenda que apostou na regulamentação como fonte de arrecadação agora tenta lançar o Desenrola 2, programa de renegociação de dívidas que exige, como condição de adesão, que o beneficiário se autoexclua das bets por pelo menos um ano. A contradição resume bem o impasse em que o país se encontra.

*Com informações da CartaCapital e Meio e Mensagem.

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Redação

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