Bola fora: Jean Wyllys ataca Jandira Feghali, por Romulus

Bola fora eleitoreira: Jean Wyllys (PSOL) ataca Jandira Feghali (PCdoB) na reta final da campanha pela prefeitura do Rio

Por Romulus

Bola fora do deputado Jean Wyllys, a quem admiro, em seu perfil no Facebook:

(…) A verdade é que a candidatura da Jandira tem como única finalidade disputar parte do eleitorado de esquerda que vota no PSOL e ajudar Pedro Paulo, candidato do PMDB, a passar para o segundo turno.

A infelicidade da declaração é enorme. E não é espontânea: responde ao crescimento da candidatura de Jandira Feghali, do PCdoB (em aliança com o PT), à prefeitura do Rio. Crescimento que conta com apoios capitais: a participação de Dilma em comício na semana passada e, nesta, de Lula.

https://www.youtube.com/watch?v=svHFIZ0SRoA&feature=youtu.be]
Atualização das 21h, já com Lula em Bangu com Jandira.

Dois nomes com peso eleitoral não apenas “orgânico”, oriundo de suas biografias únicas, mas também conjuntural, decorrente da clara identificação de ambos – até na dimensão simbólica e mítica – com a resistência contra o golpe de 2016 e a escalada do arbítrio num Estado de exceção.

O movimento “Fora, Temer!” toma as ruas, não é mesmo?

Sim, e…

– Os dois presidentes são – literalmente – a encarnação da perseguição política que testemunhamos. Todos sabemos (principalmente os especialistas em marketing) como, para além do público politizado da esquerda, o brasileiro médio adora um “coitadinho”. Tem pena e quer ajudar…


Atualização 22h: Lula em comício de Jandira em Bangu, Zona Oeste do Rio. “O perseguido” e aquela que combateu por ele. Compreendem?

Entendo a frustração de Jean Wyllys e dos seus. Com a cabeça na votação obtida na eleição de 2012, achavam que já estariam no segundo turno.

Ora, erro de avaliação político-eleitoral um tanto primário. Primeiramente, a maré virou. O vento que sopra empurra para a direita desde – que ironia, PSOL! – as marchas de junho de 2013. Em segundo lugar, a eleição de 2012 para a prefeitura do Rio foi “plebiscitária”, num contexto de reeleição de um prefeito popular que gozava de ampla projeção, em virtude das Olimpíadas. Projeção até internacional!

O primeiro turno daquela eleição foi já o segundo. Disputado entre Eduardo Paes e…

– … o “não Eduardo Paes”.

Naquele caso específico, sua encarnação foi Marcelo Freixo.

Observou-se, já no primeiro turno, o voto-útil de todo o eleitorado anti-Eduardo Paes / anti-PMDB em sua candidatura. Ninguém há de supor que, em condições normais de temperatura e pressão, uma candidatura reunindo o clã Garotinho e o clã Cesar Maia – na figura de seus dois herdeiros: Rodrigo Maia, cabeça de chapa, e Clarissa Garotinho, vice! – obtivesse apenas 3% (!) dos votos na cidade em que ambos os clãs venceram eleições – para governador e prefeito – em diversas oportunidades. Inclusive em primeiro turno.

Voltando à declaração infeliz de Jean…

A “acusação” não só é indelicada no plano pessoal – com uma “amiga” e companheira de batalhas na Câmara – como também politicamente desleal, diante do acordo de “não agressão” no primeiro turno firmado – formalmente – há 3 meses entre as candidaturas de esquerda na cidade: Freixo (PSOL), Jandira (PCdoB/PT) e Molon (Rede).

A infelicidade de Jean – novamente: que admiro bastante – vai além:

– Sua acusação é falsa.

E essa falsidade é de fácil constatação: PT e PCdoB ofereceram – lá atrás… – não lançarem candidatos e apoiarem Freixo já no primeiro turno de 2012. O candidato e os seus, que se criam já no 2o turno, como mencionado acima, recusaram. “PT e PCdoB eram candidatos ‘do sistema’… um sistema político falido, corrompido… coisa e tal, tal e coisa…”.

Isso, evidentemente, discurso “para fora”.

“Para dentro”, é certo que pesou no cálculo eleitoral, neste 2016 de Lava a Jato em seu (anti?) clímax, o desgaste do PT e a rejeição à sigla no eleitorado médio. Como ambicionar vencer eleição majoritária em um “grande centro” sem a adesão do “centrão político” despolitizado e extremamente permeável à pregação política enviesada diuturna da grande mídia?

[A respeito do “centrão político” da sociedade, ver Nota 1 no final]

Todo esse cálculo político-eleitoral é válido! É legítimo! Não o condeno… isso é fazer…

– … política. A “maldita e suja” política.

Mas a necessária hipocrisia e cinismo desse ofício têm limites. Ao menos ao se dirigir a um público com maior discernimento, que constata facilmente fragilidades políticas – e até de ordem lógica – na argumentação que se faz.

Ouso – Oh, orgulho, pior dos pecados! – incluir a mim e aos leitores do blog nesse grupo. Assim…

– … como pretender dizer – agora, caro Jean Wyllys! – que a candidatura de aliados esnobados por si e pelos seus lá atrás é mero instrumento eleitoral do PMDB carioca?

A maior seção do PMDB nacional, diga-se. Seção inclusive que, traindo o PT e Dilma neste ano, contribuiu de forma decisiva para o golpe. Virando definitivamente a balança dentro do PMDB nacional para o lado de Temer/Cunha, traíram Paes, Cabral, Picciani e todos os seus…

Isto é: fora – é digno de nota – o “leal até o fim” Pezão, já sem “caneta” e lutando por sua vida contra um câncer.

Novamente: admiro Jean Wyllys e o seu trabalho. Admiração que já registrei, inclusive, em mais de um artigo aqui no GGN.

[Ver Nota 2 ao final sobre a atuação do deputado]

Mas essa declaração no mínimo infeliz foi bola “foríssima” do deputado.

Desconto para a exacerbação de emoções em reta final de campanha? E pela disputa se dar no próprio terreiro do deputado – o Rio?

Espero que Jandira possa encontrar em si dar esses descontos…

Acredito que encontrará sim. Afinal, ela é da (“maldita”?) política.

[Ver Nota 3 ao final sobre “o que é a política”]

E, também importante, sequer busca como estratégia político-eleitoral demonizá-la e ir, de maneira difusa, contra “isso tudo que está aí”…

*   *   *

Mais informações sobre o episódio em artigo no Blog do Cafezinho:

*   *   *

Nota 1 – o “centrão da sociedade”

Trecho do post “Velha questão Vol. 3: a complicada relação PT x PSOL

(…)
(iii) “Centristas”

Escrevo a palavra “centristas” entre aspas de caso (bem) pensado. Isso porque, em geral, seus membros tendem a pertencer à parcela despolitizada da população. Parcela essa a priori aberta à sedução – seguindo considerações pragmáticas. É, portanto, objeto de disputa e conquista pelos dois polos antagônicos da política. De novo e de novo. A cada rodada eleitoral.
É o fiel da balança, que pende ora para um lado, ora para outro. E o faz muito mais pela conjuntura – aquilo que indicam “os ventos” e as “nuvens no céu” – do que propriamente por convicções político-ideológicas “centristas” (em sentido estrito). Ou seja, não têm nada a ver, por exemplo, com o ideário sintético de uma democracia cristã europeia.
A seu respeito, faço uma provocação:

 Como disse, trata-se de uma “parcela despolitizada, pragmática, aberta à disputa e conquista pelos dois polos antagônicos a cada rodada eleitoral. Fiel da balança, decide-se muito mais pela conjuntura – “ventos e nuvens” – do que propriamente por convicções políticas”.
Soa familiar?
Lógico que sim!

 São os “PMDBistas da sociedade!
[hehehe]
(…)

Alerta de quem entende (muito) do riscado

[Comentário de expert ao post]
Quando você fala em “centrismo” e descreve quem dele faz parte – apolíticos, pendem para um lado ou outro segundo as circunstâncias, mas são o fiel da balança – você vai certeiramente pro PMDB. E tem razão, porque está falando de perfis partidários. Mas o problema é que a sua descrição, não em termos de partido, mas do eleitorado que vota nele, é exatamente aquela do grosso da população que, manipulada pela mídia, sequer percebe o que está acontecendo hoje com o golpe em curso. Por isso não sai à rua pra apoiar o “nosso lado” nas manifestações, mas são os que, embalados pelo moralismo anti-corrupção e a aura mediática da Lava-Jato, correm em defesa da destituição da Dilma e da extinção do PT. No limite, são os que pedem intervenção “constitucional” das FFAA ou são eleitores certos de Bolsonaro ou qualquer outro salvador da pátria estilo Berlusconi que se apresente como candidato.

*

Nota 2 – A distinção da atuação política de Jean Wyllys

Trecho do post “Velha questão Vol. 3: a complicada relação PT x PSOL

Diferença entre exceções e avessos (do avesso): Jean Wyllys, Paulo Pimenta, Tarso & Luciana Genro

Assim como o PT não é monolítico, também não o são as demais forças de esquerda.
Nem mesmo o PSOL!
E isso já sem contar a primeira dissidência: Heloisa Helena.
Não há como comparar, por exemplo, a atuação e a postura de um Jean Wyllys – bendito Big Brother Brasil? Bendita Rede Blogo?! – com as de uma Luciana Genro.
E isso vindo lá de trás… desde as marchas de junho de 2013, passando pela exploração político-eleitoral da Lavajato, pelo posicionamento no segundo turno de 2014 e chegando, finalmente, à tramitação: (i) do impeachment, patrocinado por Eduardo Cunha; e (ii) da cassação da chapa Dilma/Temer no TSE, patrocinada – em estratégico “banho-maria” – por Gilmar Mendes.
E olha que Luciana cresceu na política. Testemunhou – na própria casa! – a frustração com os limites impostos pela – “maldita” mas inexorável – realidade político-administrativo-eleitoral.
E – coisa rara – tem um pai que conseguiu passar razoavelmente bem pela (“maldita”) realidade das urnas e da Administraçao Pública, mantendo-se como uma referência de coerência política, responsabilidade, equilíbrio e integridade.
É, né, Luciana…
Como ensina o Evangelho, “ninguém é profeta na sua própria terra”.
Se nem o messias o foi, não haveria de sê-lo o Tarso Genro, não é mesmo?

Atualização 16h:
Se a atuação de Jean já está bem distante da de Luciana Genro, nada tem a ver com este PSOL (?!) aí:

*

Nota 3 – “o que é política”

Trecho do post “Parábola multi-sincrética de duas tribos em guerra”:

O cacique compreendeu, mas disse que seria difícil explicar isso aos seus na tribo. O filósofo ofereceu então uma tradução metafórica para aquela tal de política: “é a arte de intuir – olhando tudo em volta – quando se está cacifado para meter o dedo no olho do adversário e ganhar terreno e quando se está cacifado apenas para levar dedada no próprio olho e recolher-se ao seu canto. E em silêncio. Inclusive momentos há em que não se furam os olhos de ninguém, porque ambos concordam em amarrar as próprias mãos e a ficar parados no mesmo lugar.

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Atualização 17:30:

Alô, políticos de esquerda: “eles [da direita] querem acabar com a gente”

https://www.youtube.com/watch?v=u5oKFYzeToQ&feature=youtu.be]
Cynara Menezes: “eles [da direita querem acabar com a gente”
(dica de um seguidor do twitter)

A Socialista Morena comenta a “difícil vida do eleitor de esquerda”, que tem de escolher entre: Freixo x Jandira; Haddad x Erundina; Raul Pont x Luciana Genro…

Como ela nota, políticos de esquerda, divididos, parecem não notar que “eles [da direita querem acabar com a gente!”

Alô, pessoal! Se liguem!

– É guerra! E de extermínio!

*

Atualização 21h:

Lula em Bangu com Jandira:

[video:https://www.youtube.com/watch?v=svHFIZ0SRoA&feature=youtu.be

*   *   *

Leia mais sobre o assunto em:

*   *   *

Do Facebook do dep. Jean Wyllys:

Por que Freixo e não Jandira?

[Romulus: foto descontextualizada escolhida para ilustrar o post do deputado. Numa aliança costurada com a participação de Lula, de Brasília, após retratação pública e até em carta manuscrita de Eduardo Paes dirigida à Primeira-Dama, Dona Marisa, por sua atuação virulenta na Câmara durante “Mensalão”, atacando até mesmo seus filhos, acerta-se o apoio da terceira colocada no primeiro turno, Jandira Feghali, a Eduardo Paes no segundo turno das eleições municipais de 2008, na duríssima disputa contra Fernando Gabeira, do PV, apoiado pela direita em bloco: PSDB, DEM e PPS. Na sequência, Jandira torna-se Secretária de Cultura do Rio, num governo de ampla coalizão. Essa é o contexto da foto, deputado Jean Wyllys…

Nas últimas semanas, muita gente do Rio tem me perguntado, tanto pessoalmente quanto aqui, nas redes, por que Freixo e Jandira não estão juntos nessa eleição – e por que as pessoas de esquerda deveriam votar nele e não nela. Eu sei que muitas pessoas de esquerda, que foram contra o golpe e defendem a democracia e os direitos humanos, acham que o campo progressista deveria ter uma única candidatura, para derrotar os golpistas. Até agora, eu adiei a minha resposta, por considerar que a conjuntura nacional de resistência ao governo ilegítimo de Temer nos exigia evitar ataques entre nós; mas, faltando uma semana para as eleições, as perguntas de muitos cidadãos e cidadãs sobre esse ponto se intensificaram, e eu tenho uma responsabilidade com vocês.

Por isso, quero esclarecer por que não foi possível essa unidade que muitos pediam e por que eu acredito que votar no Freixo não é a mesma coisa que votar na a Jandira, mas é bem diferente. Quero falar pra vocês com absoluta sinceridade, como eu sempre faço.

Nas últimas décadas (sim, décadas), inclusive desde muito antes de ser deputado, Marcelo Freixo esteve firme na oposição aos governos da direita no Rio de Janeiro, tanto no estado quanto na cidade, enquanto Jandira era aliada deles. Não se trata apenas de uma escolha pessoal: Jandira e o PCdoB seguiram a lógica política de conciliação de classes e negociação com os partidos da ordem que Lula impôs ao PT à base governista. No Rio, o partido de Jandira foi aliado de Garotinho, de Cabral, de Pezão e de Paes, e fez campanha ao lado de Crivella, de Cunha, de Pedro Paulo, de Índio da Costa, de Osório, de todos eles. Ela foi, inclusive, secretária do governo Paes. No debate da RedeTV, Jandira disse que apoiar os governos estadual e municipal do PMDB foi o “pedágio” que tiveram que pagar para garantir a governabilidade do Lula e da Dilma, mas esse pedágio custou muito caro à população do Rio de Janeiro.

Durante todos esses anos, Freixo estava na oposição, denunciando as milícias, as remoções, a repressão contra os professores com gás lacrimogêneo, a desaparição de Amarildo, as chacinas nas favelas, o aumento da passagem de ônibus, o caos no transporte, as obras superfaturadas, os negócios com as empreiteiras, as alianças com o fundamentalismo religioso, a privatização da saúde, o abandono da educação, etc. Freixo enfrentou os governos do PMDB enquanto Jandira fazia campanha por eles.

Se o PMDB do Rio não tivesse apoiado o impeachment, Jandira não seria candidata e estaria hoje na campanha de Pedro Paulo, como sempre. E isso significa, também, que essa candidatura não representa um projeto diferente para a cidade, mas apenas uma necessidade eleitoral de última hora. Diferentemente, Freixo (que também foi contra o golpe) está se preparando há muitos anos para ser prefeito e construiu um programa de governo para 2016 com a participação de mais de 5 mil pessoas de todos os bairros, categorias e movimentos sociais da cidade.

Eu tenho uma ótima relação com Jandira Feghali e defendemos juntos muitas pautas na Câmara dos Deputados. Não tenho nada pessoal contra ela, que é uma aliada na luta contra o golpe no Congresso, mas também não posso mentir a vocês sobre a situação do Rio, que é muito grave.

A verdade é que a candidatura da Jandira tem como única finalidade disputar parte do eleitorado de esquerda que vota no PSOL e ajudar Pedro Paulo, candidato do PMDB, a passar para o segundo turno. Para fazer isso, inclusive, eles recorreram à difamação contra o PSOL, usando a bandeira do feminismo radical para atacar o Freixo, cuja vice é uma ativista feminista e cujo programa defende todos os direitos das mulheres. Dessa forma, tentando dividir o voto de esquerda, eles continuam ajudando o PMDB de Temer e Cunha!

Por enquanto, felizmente, não deu certo: Freixo continua em segundo lugar em todas as pesquisas, como esteve em segundo lugar em 2012, com 28% dos votos, quando Jandira, Crivella e Paes eram aliados; mas não podemos arriscar. Se a esquerda votar dividida, a direita vai vencer. A unidade da esquerda, então, é votar em Marcelo Freixo (50).

Você já imaginou um segundo turno entre dois golpistas? Você já imaginou ter de escolher entre o candidato de Eduardo Cunha e o candidato da Igreja Universal? Tem uma única forma de impedir isso: é o Freixo!!

E ele vai ser um excelente prefeito!! Confiem em mim!!

*   *   *

(i) Acompanhe-me no Facebook:

Maya Vermelha, a Chihuahua socialista

(perfil da minha brava e fiel escudeirinha)

*

(ii) No Twitter:

@rommulus_

*

(iii) E, claro, aqui no GGN: Blog de Romulus

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Quando perguntei, uma deputada suíça se definiu em um jantar como “uma esquerdista que sabe fazer conta”. Poucas palavras que dizem bastante coisa. Adotei para mim também.

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1 comentário

  1. >> Que Dória que nada! Sr.

    >> Que Dória que nada! Sr. Indiferença e lobbies vencem eleições de 2016, por Romulus

     

     ROMULUS

     SEG, 03/10/2016 – 13:02

    Que Dória que nada! Sr. Indiferença e lobbies vencem eleições de 2016

    Por Romulus

    (I). Centros e grotões

    No Facebook o amigo Ciro d’Araújo constata:

    “Eleição do Rio ganhou o não votar. Abstenção foi maior do que a votação do Crivella. Depois disso veio brancos e nulos, que somaram mais votos que o Freixo”.

    Sim, no Rio… uma das cidades mais politizadas do Brasil, que tantas vitorias deu a Brizola e a Lula (inclusive em 89). Dois líderes do campo popular que ousaram ciscar ali… no terreiro da Globo.

    Em São Paulo não foi diferente: o candidato “Sr. Indiferença” – a soma de abstenção + votos brancos + votos nulos – ganhou a eleição para prefeitura. Ou melhor, “no tapetão” da lei eleitoral, acabou perdendo para o segundo colocado: João Dória. O tucano teve mais de 10 mil votos a menos que o “Sr. Indiferença”.

    Se em São Paulo e no Rio foi assim, imaginem-se os números nos “grotões” – expressão pejorativa infeliz, aliás… celebrizada por colunistas políticos da grande mídia do eixo…

    – … Rio-São Paulo!

    Mais humildade, colunistas das metrópoles…

    Aliás, diante de tal grau de alienação, será ainda adequada essa dicotomização geográfica do voto? Pode-se ainda falar em “grandes centros” e “metrópoles” vs. “grotões”?

    Bem, se os colunistas tiverem apego e quiserem continuar usando a expressão preconceituosa para com os interiores, melhor seria generalizar então a sua abrangência: falemos agora de “grandes grotões” vs. “pequenos grotões”… ou “grotões centrais” vs. “grotões periféricos”…

    Que tal?

    O que preferirem, Srs. colunistas. Sintam-se à vontade: não cobro royalties.

    *

    (II). Critério democrático

    Creio ser mais democrático esse uso generalizado da expressão, não?

    Se bem que… “mais democrático”? Critério um tanto démodé no Brasil de 2016, não? Há até quem o considere subversivo, ora vejam! Bem, melhor deixar a discussão terminológica de lado e seguir adiante na análise, antes que me acusem de saudosista. Ou pior: de “viúva da Constituição”… ou de “viúva da democracia”!

    Tempos brabos! Vai que um japonês “da Federal” – usando tornoseleira eletrônica (!) – bate na minha porta às 6 da manhã e me conduz coercitivamente. Para ser então perguntado, inquisitorialmente:

    – Que tal “democracia” é essa, elemento?
    – Caaaalma, Sr. Juiz! Não precisa de prisão preventiva para arrancar minha delação. Eu falo da democracia livremente: cresci nos anos 80, ouvindo falar muito dessa tal. Costumavam dizer que era “incipiente”… “imatura”… e que precisava ser “aprofundada”. Falavam isso certamente baseados na crença (excessiva?) no processo civilizatório. Na certeza de que esse não anda para trás… acreditavam no tal do “progresso” da bandeira, sabe? Ora, que nada! A tal da “incipiente”, “imatura” e “superficial” morreu ainda menina… assim, virou anjinho! Uma hora bateu suas asinhas e foi-se embora destas paragens…
    – Ah, foi-se embora, elemento? Para onde?
    – Difícil precisar, Sr. Juíz… anda muito discreta hoje em dia: Trump nos EUA, Le Pen na França, Brexit xenófobo no Reino Unido, “não” à paz na Colômbia…
    – E quando é que ela volta para o Brasil, elemento?
    – …

    *

    (III). Como chegamos aqui (1)

    A demonização da política logra pouco a pouco o seu intento: um grau ainda maior da já alarmante alienação da população brasileira, alheia a tudo e a todos nas instâncias do poder.

    A população está:

    (i) Saturada da política e dos políticos, todos “farinha do mesmo saco”; e portanto…
    (ii) dessensibilizada/anestesiada diante dos sucessivos fatos políticos; e portanto…
    (iii) indiferente, cínica.

    – Tanto faz como tanto fez…

    *

    (IV). Patrimonialismo versão millennial

    E assim, sem o contrapeso mínimo das urnas – magrinhas, magrinhas, coitadas… – e de bases eleitorais atentas, ativas e mobilizadas, fica mais fácil ainda impor a agenda dos lobbies dos diversos setores da economia em prejuízo do todo da sociedade. Trata-se da versão millennial do velhíssimo patrimonialismo… lá do Weber e do Raimundo Faoro, lembram?

    Se o Estado mínimo e a “privataria” não passam no teste das urnas, dá-se golpe, todos (já) sabemos.

    Mas isso não significa que antes, durante e depois do golpe não se possa aproveitar a estrutura existente do Estado em favor de certos interesses particulares, não é mesmo?

    (a) Como?
    – Com a autoridade devidamente “capturada” pelos lobbies (regulatory capture).

    (b) O entrave:
    – O poder político… “essa gente” eleita que “não entende nada da parte técnica”, escolhida de 4 em 4 anos por “gente que entende menos ainda!”. Imaginem: a maioria deles não tem nível superior, não passou por disputados concursos, não tem pós-graduação no exterior… sequer frequenta colóquios bacanas dos stakeholdes todo mês, ora!

    (c) A solução:
    – A busca cada vez maior de independência – em face desse tal “poder político” – dos órgãos do Estado judicantes, com poder de polícia e reguladores.

    Notem que “coincidência”:
    – Não parece muito mais fácil implementar essa agenda independentista num contexto de (i) desgaste da classe política, (ii) vácuo de poder, (iii) déficit de representação e (iv) cinismo da população, culminando numa democracia sem vigor, abatida pela indiferença e caracterizada por baixas taxas de votação?

    Evidente que sim!

    Resistir à sanha independentista quem haverá de?

    (d) Exemplo de captura?
    – A famosa porta-giratória (revolving door), que faz o diretor do Banco Itaú (e antes desse o do Bank Boston e antes desse o do George Soros e antes desse…) virar Presidente do Banco Central do Brasil. Apenas para amanhã voltar ao Itaú (e congêneres…) com o passe ainda mais valorizado.

    (e) Sonho de consumo dos independentistas?
    Escrever “em pedra” a pretendida independência diante da sociedade e de seus representantes eleitos.

    Como?
    Com leis de boa governança que consagrem essa “independência” – aliás, “boa governança” segundo quem mesmo, hein?

    Mandatos fixos de diretores e presidentes… indemissíveis pelo poder político…

    – Oh, glória!

    Sim, “independência”…

    Mas, impertinente que sou, ouso perguntar:

    – “Independência” de quem, cara-pálida? Do Itaú – da ida e da volta da porta-giratória – é que não haverá de ser, não é mesmo?

    O Banco Central é apenas o exemplo mais evidente, em um Estado cuja metade do orçamento foi capturada por rentistas. Mas isso se repete em todos os segmentos econômicos regulados pelo Estado: CVM, CADE, SUSEP, ANVISA, ANP, ANA, ANAC, ANTAQ, ANATEL, ANEEL, ANS, ANTT… ou nos segmentos em que o Estado atua através de estatais (Petrobras, BB, CEF, Eletrobrás…).

    E não apenas…

    O Supremo não autorizou juízes (!) a embolsar cachês pagos por palestras sem que o seu valor tenha de ser tornado público? Aliás, bota – caché – nisso… nunca uma denominação foi tão adequada!

    Para além de “cachês” – escondidos – por “palestras”, que dizer de cursos no exterior pagos por “terceiros generosos” (quem?)? Dentre os quais até mesmo interesses estrangeiros, incluindo governos que não o nosso?

    Algo a ver com essas observações aterradoras do Miguel do Rosário, no Blog do Cafezinho?

    – Captura do regulador?
    – Conflito de interesse?
    – Risco moral do regulado (moral hazard)?
    – Abuso de poder de mercado dos regulados?
    – Ineficiência do mercado viciado?
    – Busca de renda por quem é “amigo do rei” (rent seeking)?

    Será tudo isso preocupação de marxista radical?

    Ou até de quem leu os manuais de Economia (bastante) ortodoxos e que crê – de coração – no capitalismo?

    Digo, o capitalismo verdadeiro: com seus “mercados competitivos”, livre entrada de novos competidores e livre saída de empresas ineficientes.

    Está aí a telefônica “Oi” para não nos deixar esquecer de como o “capitalismo” (entre aspas mesmo) e seus “riscos” (novas aspas…) “funcionam” (mais ainda…) no Brasil.

    E isso não é tudo:

    Trata-se apenas de uma das modalidades de captura das autoridades, na classificação proposta por Engstrom. No caso, a captura material. Além (a) da porta giratória e (b) da propina, essa modalidade engloba também (c) os “célebres” financiamentos de campanha e (d) a ameaça de boicote econômico-financeiro ao Estado em caso de “desacordo” com o lobby.

    Soa familiar?

    Pois é…

    Segundo o autor, todas essas sub-modalidades equivalem em alguma medida a corrupção política. Ou melhor: corrupção da política.

    Já a captura não material é mais sofisticada: pode ser também denominada “captura cognitiva” ou “cultural”, na qual o regulador – e/ou o juiz e/ou o procurador! – começam a pensar da mesma maneira que o lobby!

    – “Lobby”?
    – Seria esse apenas o privado?
    – Por que não se incluiriam aí também governos estrangeiros?
    – Ou terceiros “generosos” querendo iluminar o pobre Brasil de sabedoria?

    A assimilação da catequese advém (i) da proximidade (indevida?) entre lobby e autoridades; bem como (ii) da embalagem bonita do “presente” que “generosamente” é dado.

    – Aliás, “presente”… será presente de grego a troianos ávidos e ambiciosos?
    – Troianos antes circunscritos por uma fronteira, digo, muralha, que impedia o ato de generosidade de se realizar?
    – Hmmm…

    Saga homérica ou não, chega-se finalmente ao ponto em que as autoridades são pautadas – agora já involuntariamente, na fronteira entre o seu consciente e inconsciente – pelo lobby catequizador.

    Exemplo 1:
    O lobby já entrega o trabalho pronto – bonitinho e até com grife de banca chique! Assim, como não haverá de prevalecer a lei do menor esforço, tão bem resumida por dois comandos: “Ctrl + C” / “Ctrl + V”?

    Algo a ver?

    E aqui?

    Exemplo 2:
    Em tática mais sofisticada ainda, e de longo prazo, o lobby, através do financiamento de pesquisas, colóquios entre pares e lisonjas – tais como premiações – consegue estabelecer – não a sofridas marretadas mas a deleitáveis queijos, vinhos e “verdinhas” – o “consenso científico” em determinado domínio técnico.

    Mas notem bem: não qualquer consenso científico, aleatório… trata-se de um consenso científico específico: aquele que o lobby tem por “certo”… aquele para chamar de seu.

    Aliás, como acadêmico não posso deixar de me perguntar:
    – Se o ponto de chegada já é pré-estabelecido na saída, há que se falar ainda em “cientificidade” para esse “consenso” (olha as aspas aí de novo…).

    Pois é… também digo que não.

    A maneira como o credo neoliberal impregnou – mediante generosos financiamentos – os maiores centros do conhecimento econômico, do final dos anos 70 até a primeira década do século XXI, é o exemplo de manual (textbook case) dessa tese.

    Para quem comungava do credo: dinheiro, fama e glória.
    Para quem o criticava: penúria, opróbio e ridicularização.

    Fácil chegar a um “consenso” (aspas) “científico” (de novo…) assim, não é mesmo?

    Foi preciso a maior crise econômica e a maior recessão desde os anos 30 para que esse “santo graal” caísse no chão e se estilhaçasse. Mas não sem deixar profetas atrasados na Periferia do mundo, ignorantes da (nova) “Boa Nova” do Centro.
    [Ver “Trem-bala para o abismo – a política econômica da recessão, de André Araújo, aqui no GGN]

    Lisonjas… lobby… captura não material… corrupção da política…

    Algo a ver?

    (exemplos – infelizmente – não exaustivos)

    *

    (V). Como chegamos aqui (2): correias de transmissão

    Voltando ao início do artigo, falávamos de:

    (i) Saturação com a política e com os políticos; e portanto…
    (ii) dessensibilização/anestesia; e portanto…
    (iii) indiferença, cinismo, que levou a…
    – Número recorde de abstenções, votos brancos e nulos. O tal “tanto faz como tanto fez”…

    Mas atenção para as correias de transmissão que nos trouxeram até aqui:

    (a) Noticiário mundo-cão na (e da) política na grande mídia; e portanto…
    (b) Demonização da política em geral e de certas forças políticas e certas correntes de pensamento em particular; e portanto…
    (c) Dessensibilização / indiferença, desprezo e cinismo; e portanto…
    (c) Alta taxa de abstenção e de votos brancos e nulos; o que reflete…
    (d) “Bases” (com aspas…) eleitorais alienadas, indiferentes, e políticos eleitos fracos, sem o respaldo de urnas “gordas”; o que cria um vácuo de poder suscetível à…
    (e) Busca de independência das autoridades não eleitas.

    I.e., “independência” do poder político, bem entendido! Não do segmento econômico regulado e de “terceiros generosos”, no Brasil ou fora dele.

    – E quem é que fornece a graxa que faz as polias da grande mídia girarem, girarem e girarem…? Mídia que: (1) produz o noticiário mundo-cão da política; e (2) vende aqueles tais “consensos” (aspas) “científicos” (de novo…) como “a verdade revelada”?

    Ora, quem fornece a graxa à mídia são eles mesmos: os lobbies!

    Atenção para o “plim-plim”! Num oferecimento de Itaú, Bradesco, Vale, Ambev, seguradoras, indústria farmacêutica, Shell, Gol/Tam, Vivo/Claro…

    E assim se fecha o círculo de captura das autoridades não-eleitas pelos lobbies, que passam a buscar independência do poder político para melhor corresponder às expectativas dos patrocinadores. E por que não dizer captura também do eleitorado, nesse caso por omissão (induzida)?

    O resultado – de hoje – está aí embaixo, descrito pelo amigo Ciro.

    Urnas vazias… cinismo e indiferença… demonização da política… lobbies… captura das autoridades e dos eleitores… tudo isso num círculo infernal.

    Nada é “coincidência”.

    E as correias de transmissão de que falamos seguiram rodando enquanto você lia este texto.

    Como perguntei acima: resistir quem haverá de?

    *   *   *

    Da série “quer que eu desenhe?”

    *   *   *

    Rapidinha: o temor que a direita tem de Dilma enquanto mito político em construção

    Presidenta Dilma vota em Porto Alegre. Apoiadores e imprensa são impedidos pela Justiça e pela truculência da Brigada Militar de registrar o momento do seu voto.

    O que temem tanto?

    [video:https://youtu.be/8hRnuB5I1uY%5D

    Entenda:

    “Temer, o PSDB, aliados – e Marina! – terão de aceitar: Dilma continuará sua trajetória rumo a construção de um mito político.
    Que ironia!
    Mas nada original:
    Não foi o julgamento injusto e a pena de morte que tornaram Sócrates maior como figura?
    Sem entrar em debate teológico / histórico: não foi o julgamento injusto e o sacrifício de Jesus de Nazaré (Deus e/ou homem) que fundou uma fé?
    Pois é…
    O mito do homem (e da mulher!) justo, injustiçado por poderes corrompidos ou por uma democracia já degenerada pela demagogia, cala fundo na psique humana. Existe desde que o mundo é mundo.
    No golpe contra Dilma Rousseff de 2016 temos os dois: poderes corrompidos aliando-se a demagogos (i) nas corporações do Estado – STF/Justiça, PGR/Janot, PF; (ii) nos grandes grupos de imprensa familiar; e (iii) nas instituições da sociedade civil organizada – OAB, FIESP, CNA, FEBRABAN, igrejas, etc., para julgar – e condenar! – alguém unanimemente reconhecida como justa.
    Dessa perspectiva, os algozes de Dilma “fizeram a sua fama”. Da mesma forma que, a seu tempo, o Sinédrio e os Romanos – secundados também por populares em frenesi, não é mesmo? – aumentaram a de Jesus de Nazaré, homem e/ou Deus. E ainda, o tribunal popular ateniense aumentou a dimensão da figura do filósofo Sócrates, ao condená-lo de forma iníqua à morte por envenenamento com cicuta.
    Quantos outros exemplos não haverá desse mito?
    Joana D’Arc queimada na fogueira da inquisição, Tiradentes enforcado e esquartejado como bode expiatório, Dreyfus, vítima do antissemitismo e de uma armação, o suicídio de Vargas, instado pelas mesmas forças que agora golpearam, novamente, a democracia no Brasil…
    Deve-se ter cuidado ao brincar de feiticeiro. O caldeirão pode transbordar e queimar quem se supunha mais esperto do que de fato era.
    Como disse uma certa justa tratada com iniquidade atroz:
    – A vida é dura, Senador!”

    *   *   *

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    Romulus e Maya Vermelha, a Chihuahua socialista

    (perfil que divido com a minha brava e fiel escudeirinha)

    *

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    *

    (iii) E, claro, aqui no GGN: Blog de Romulus

    *

    Quando perguntei, uma deputada suíça se definiu em um jantar como “uma esquerdista que sabe fazer conta”. Poucas palavras que dizem bastante coisa. Adotei para mim também.

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