#BrequeDosApps: enfrentando o uberismo, por Marco Aurélio Santana e Ruy Braga

A generalização do uberismo e tudo o que ele significa em termos de precarização da vida e do trabalho não se restringe ou restringirá à categoria dos entregadores

Entregadores em protesto no Centro do Rio de Janeiro. | Foto: Ricardo Moraes/Reuters

do Blog da Boitempo 

#BrequeDosApps: enfrentando o uberismo

por Marco Aurélio Santana* e Ruy Braga**

Os entregadores e as entregadoras de aplicativos realizam hoje sua segunda mobilização em menos de um mês. Ao participarem do movimento de paralisação das entregas, esses trabalhadores e essas trabalhadoras precários transformam-se na ponta de lança da resistência das classes subalternas aos desdobramentos deletérios da difusão do assim chamado “uberismo” no país: um regime de mobilização e controle da força de trabalho que se apoia na espoliação radical dos direitos trabalhistas via a “plataformização” do trabalho, isto é, a submissão dos trabalhadores ao despotismo da “nuvem algorítmica” monopolizada por startups capitalizadas por fundos de investimentos de risco. Em síntese, um modelo de exploração do trabalho que se serve de tecnologias digitais para espoliar direitos trabalhistas. Trata-se de um regime de acumulação que vem amadurecendo há uma década, mas, que ganhou visibilidade com o sucesso de empresas globais como a Uber. E no momento atual marcado pelos riscos e pelas incertezas trazidas pela pandemia do novo coronavírus, os entregadores e as entregadoras decidiram se rebelar contra o despotismo e a exploração inerentes ao uberismo.

De fato, a atual pandemia revelou e agravou um cenário que, mesmo antes da chegada do vírus ao país, já se mostrava sombrio para o mundo do trabalho brasileiro. Esse cenário remete ao processo vertiginoso de desmanche do polo protetivo do trabalho cuja origem remonta ao golpe parlamentar de 2016, seguido pela contrarreforma trabalhista do governo de Michel Temer e que foi coroado pelo neoliberalismo autoritário do governo Bolsonaro. De lá até aqui os interesses capitalistas, em um processo que acompanhava uma dinâmica global reativa à crise iniciada em 2008, conseguiu implantar políticas regressivas na área do trabalho que atingem duramente o sistema de regulação protetiva, tanto em termos trabalhistas quanto previdenciários. Nos dois casos as mudanças serviram para aprofundar a mercantilização do trabalho, deixando a classe trabalhadora descoberta no presente (quando trabalhadores/as estão em atividade, mas desprotegidos de direitos sociais) e no futuro (quando da época do que seria a sua aposentadoria).

Alardeadas como produtoras de emprego, o que, por óbvio não eram, as mudanças da chamada reforma trabalhista e da lei da terceirização, incensadas pelo discurso do empreendedorismo, garantiam ainda mais espaço em vias largas para o avanço da precarização e da informalidade. Junte-se a isso números astronômicos de desemprego para termos uma ideia do contexto explosivo em que já nos encontrávamos. Quando a pandemia bateu à porta, o quadro para a classe trabalhadora brasileira já era dramático. Aqueles setores que ainda se mantiveram nos arranjos minimamente protegidos da formalidade, quando não simplesmente demitidos, foram obrigados a suspensões de contrato, redução de jornadas e de salários. Os desprotegidos, isto é, a parcela mais vulnerável da classe trabalhadora, foram colocados frente a trágica escolha entre o vírus e a fome. Diante da ajuda emergencial do governo, que em muitos casos tiveram dificuldade de receber, ou sequer receberam, precisaram sair às ruas e enfrentar o risco da contaminação e da morte. Como diz o Rap dos informais: “Agora dão duas opções para quem é pobre, morrer na rua de corona ou em casa de fome. Entre morrer em casa e morrer na rua eu prefiro nenhuma das duas”.

No entanto, ao engrossarem o exército dos informais que fazem das ruas seu local de trabalho, muitos desses trabalhadores e trabalhadoras subverteram sua invisibilidade social, seja pela presença física e circulação em cidades praticamente desertas, seja pela clara importância que assumiram em meio ao isolamento social. Os entregadores e as entregadoras de aplicativos destacam-se entre essas categorias. Eles/as já vinham mudando a paisagem dos grandes centros urbanos do país, dada a sua quantidade, seja de moto ou de bicicleta, com suas mochilas coloridas com nomes de empresas de aplicativos. Agora, expondo-se ao risco, eles/elas vêm garantindo que, por exemplo, amplos setores da classe média possam se manter em isolamento social. Essa não é uma categoria nova no mundo do trabalho brasileiro. No entanto, cabe notar que se trata de uma categoria que tem atravessado transformações quantitativas e qualitativas. Junto com outros grupos de precários, os/as entregadores/as de aplicativos são, nos dias atuais, a face mais visível do uberismo.

Trata-se de um regime de acumulação que se alimenta do aumento do setor informal da economia. De acordo com o Instituto Locomotiva, temos hoje no país cerca de cinco milhões e meio de trabalhadores plataformizados. Entre os entregadores, verificamos uma maioria formada por homens, jovens e negros, dos quais cerca de cinco por cento é de mulheres, representando algo em torno de um quarto dos trabalhadores por conta própria no país. Além de estarem descobertos/as de direitos sociais, são submetidos/as a longas jornadas de trabalho, extrema pressão por ritmos, altos índices de acidente e baixa remuneração.

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Apesar de mobilizarem um contingente muito maior do que a maioria dos setores econômicos, as empresas de aplicativos, que realizam lucros fabulosos, não se consideram as empregadoras desses trabalhadores, chamando-os eufemisticamente seus “parceiros”, ou seja, uma plataforma que simplesmente promoveria o encontro entre, por exemplo, restaurantes, entregadores e consumidores. Assim, essas empresas buscam se distanciar de qualquer tipo de vínculo empregatício. Os trabalhadores e as trabalhadoras estão sob sua própria conta e risco, inclusive fornecendo seus instrumentos de trabalho como motos e bicicletas. Com muita frequência, os entregadores e as entregadoras endividam-se para comprar uma moto e poderem trabalhar. Ademais, essa categoria, apesar de supostamente viver circulando livremente pelas cidades, submete-se a formas explícitas de subordinação trabalhista pela via do controle eletrônico, que monitora e define seus acessos, ritmos e movimentos, condicionando seus possíveis ganhos. E que pode aplicar variadas sanções, justificadas ou não, sempre que quiser, bastando, por exemplo, deixar o entregador bloqueado sem enviar-lhe pedidos.

Como em outras áreas, os aplicativos aproveitaram a pandemia para aumentar seus lucros, incrementando seu controle sobre os/as trabalhadores/as. Dado o alto nível de desemprego e informalidade, e com vários setores com atividade paralisada, a categoria, como já vinha ocorrendo nos últimos anos, recebeu um afluxo grande de novos membros o que aumentou o ganho dos aplicativos, aumentando a competição entre os entregadores/as e, consequentemente, reduzindo seus rendimentos. Reativamente, os/as trabalhadores/as passaram a trabalhar por mais horas a fim de mitigar a queda da remuneração. Trata-se de um jogo viciado no qual apenas as empresas ganham.

Assim, o cenário já bastante dramático tornou-se ainda mais sombrio com a chegada da pandemia, engrossando um caldo de conflitividade que acabou convergindo para uma greve geral no dia primeiro de julho, o #BrequeDosApps. Tratou-se de uma primeira mobilização nacional cuja reivindicação, como dizem muitos/as entregadores/as envolvidos/as na paralisação, “pede o básico do básico”. A pauta apresentada publicamente pelo movimento de entregadores e entregadoras traz pontos como o aumento do valor mínimo da corrida, o aumento do valor por quilômetro percorrido, o seguro de vida e contra roubo e acidente, o fornecimento de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) como álcool em gel e máscaras, licença remunerada em caso de afastamento por contaminação pela covid-19 e o fim dos bloqueios indevidos.

Dada a diversificação interna da categoria vários outros pontos surgem aqui e ali, mas esse primeiro conjunto é aquele que tem sido o mais convergente em termos de demandas unitárias possíveis. Olhando as reivindicações e as falas dos entregadores, percebe-se que estamos de diante de um movimento por reconhecimento e dignidade no trabalho. Um tipo de movimento que busca assegurar condições mínimas de subsistência digna para os/as trabalhadores/as que, como afirmam alguns entregadores, chegam a “passar fome entregando comida”.

Mesmo recebendo apoio de diversas categorias profissionais durante o processo de mobilização, o movimento está distante de uma organização sindical mais estrita. Essa é uma categoria bastante capilarizada e que age através de seus grupos e associações, muito articulada através das redes sociais e de grupos no WhatsApp. Isso, por certo, garante potencial e força às mobilizações. De todo modo, o movimento do dia 1o de julho foi um sucesso pela sua própria realização, por tornar públicas as demandas desses/as trabalhadores/as e pela politização alcançada por parte da categoria, bem diversificada nesse sentido, que se organizou em torno do grupo dos “entregadores antifascistas”.

Quando comparamos a atual onda de mobilizações com experiências anteriores de auto-organização da classe trabalhadora no país salta aos olhos que trabalhadores/as submetidos/as a tal nível informalidade e precarização da vida e do trabalho pudessem conseguir sequer tempo de pensar em se organizar coletivamente. E a aceleração dos fluxos da vida pelo neoliberalismo já vinha mesmo afetando bastante as possibilidades de encontro, práticas coletivas, tendo impactos políticos claros. Contudo se deve pensar que em outros momentos históricos a classe trabalhadora também desprotegida e atuando em situação bastante adversa, conseguiu desenvolver formas de organização e luta. Além do que, a juventude trabalhadora precária tem estado presente atualmente em movimentos importantes pelo mundo todo, utilizando variadas formatos para a canalização da conflitualidade social.

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No entanto, vale observar que as empresas também reagiram à mobilização dos entregadores, tentando enfraquecer o movimento. Algumas, dado o sensível impacto negativo de exposição de suas marcas, vieram a público divulgando o que seriam suas supostas boas práticas frente às condições de trabalho, no que foram replicadas pelo movimento nas redes sociais. Espelharam-se notícias sobre as ameaças de um Operador Logístico (OL), subcontratantes que fazem terceirização de trabalhadores/as para as empresas de aplicativos, tentando enfraquecer a participação dos/as terceirizados/as no movimento. Entre os/as entregadores/as mobilizados/as, evidentemente existe uma preocupação com possíveis perseguições e bloqueios, principalmente daqueles que se destacaram na organização da mobilização. Está claro que o avanço do movimento trará não apenas a necessária melhoria das condições de trabalho, mas poderá custar às empresas um preço alto, principalmente em termos políticos e organizativos, que elas buscam frequentemente evitar.

Naturalmente, como em todo movimento dessa natureza, existem riscos para os grevistas. Entretanto, vale destacar que a categoria passou no primeiro grande teste em sua trajetória organizativa. As condições precárias às quais os/as entregadores/as encontram-se submetidos/as é anterior à pandemia, tendo se agravado com ela e, na medida que integra um quadro global, deverá continuar se reproduzindo no contexto pós-pandêmico. O futuro do movimento vai depender também, em parte, da solidariedade social ativa dos/as usuários/as dos aplicativos, alguns/algumas já articulados/as nas redes sociais. É preciso perceber que a garantia do isolamento social não pode se dar, para determinados grupos sociais, sustentado no risco de vida e na precarização do trabalho de outros.

O sucesso da mobilização do dia 1o de julho pode ser medido também pela formação de um novo sujeito coletivo no debate público. Subitamente, trabalhadores/as precários/as “invisíveis” na cena urbana apesar de suas jaquetas e mochilas pintadas em cores extravagantes atraíram a atenção da imprensa, concretamente, afetando o ritmo de entregas ao longo do dia e ampliando-se para várias capitais de Estado. O impacto sobre o ritmo de entregas pode indicar também o apoio de consumidores/as, refletido em uma redução de pedidos ao longo desse dia. As empresas, apesar de minimizarem a ação coletiva, sentiram os reflexos da mobilização. E a marcação de uma nova mobilização para hoje revela a confiança adquirida pela vitória do dia primeiro. Ademais, muitos trabalhadores e trabalhadoras que por uma razão ou por outra não participaram efetivamente do movimento, mostraram posicionamento favorável frente à pauta reivindicativa.

Uma questão, que será interessante avaliar em termos de passos futuros, se relaciona com as formas organizativas que a categoria lança mão. O movimento pode seguir com as mesmas características apresentadas até aqui. Ou pode se aproximar buscando interlocução com formas tradicionais de organização, produzindo uma tensão criativa entre elas. Lembrando que já existem diversas associações e sindicatos representando parte do contingente do setor. Há perdas e ganhos nessas escolhas. Em termos de mobilização, teremos de ver como (e se…) o movimento buscará incorporar cada vez mais trabalhadores/as nessas lutas, além de verificar de que maneira (e se…) outros setores e categorias, bem como consumidores/as, poderão somar nessa luta contra a precarização do trabalho e da vida.

Há, entre outras, algumas frentes importantes possíveis que podem se associar à pauta já exposta pela categoria, dependendo das escolhas dos caminhos à frente. Um deles, fundamental para essa categoria e outras às voltas com o uberismo, ainda que haja uma diversidade de opiniões sobre isso entre os/as trabalhadores/as, é que “se imponha a lei”, isto é, que a regulação seja restaurada, obrigando, como tem acontecido em outros países, as empresas a reconhecerem os vínculos empregatícios que mantêm com seus/as trabalhadores/as e se responsabilizem por eles/as. Outra possibilidade é o desenvolvimento de mecanismos digitais coletivos, próprios dos/as trabalhadores/as para a gestão de seu trabalho e que já vem sendo experimentado por alguns grupos de trabalhadores/as. Mais difícil de conquistar, mas igualmente importante, é a discussão dos próprios algoritmos utilizados pelas empresas e seu funcionamento. Eles não são neutros, e reside ali o centro do processamento da subordinação, da espoliação e da exploração do trabalho.

Em suma, o segundo ato da mobilização dos/as entregadores/as marcado para acontecer hoje, dia 25 de julho, evidencia uma transição na qual as classes subalternas refazem suas estratégias, adaptando-se às mudanças trazidas pela atual pandemia por meio da formação de novas coalizões entre trabalhadores/as informais, sindicatos e consumidores/as. Cabe lembrar que essas greves, que se multiplicam por iniciativa da própria classe trabalhadora sem uma coordenação previamente centralizada e alcançando uma abrangência nacional, são reiteradamente impulsionadas por redes informais constituídas, muitas vezes, em atrito com as direções dos sindicatos. Não acidentalmente uma das primeiras discussões nos grupos de WhatsApp da categoria era saber como deveriam chamar o movimento do dia 1o de julho: “greve” (remetendo às formas tradicionais de mobilização sindical) ou “breque” (referindo-se ao bloqueio das entregas)?

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Como é possível perceber, trata-se de um tipo de mobilização capaz de encorajar a reflexão sobre a criação de identidades coletivas das classes subalternas e fortalecer suas iniciativas autônomas, ainda que não seja capaz, ao menos a essa altura, de produzir um modelo de organização alternativo às formas tradicionais existentes. Na realidade, mesmo quando bem-sucedidas, essas greves evidenciam a fragilidade política inerente ao atual momento de crise do mundo do trabalho. Afinal, trata-se de uma experiência coletiva ainda em formação e em disputa, plasmando e sendo plasmada pela hegemonia neoliberal. Marcadamente inorgânica, a mobilização dos/as entregadores/as parece evoluir por meio de uma linguagem que pendula frequentemente entre a confiança inspirada na ação direta e a descrença em qualquer tipo de vitória mais duradoura de suas investidas. Não haveria de ser diferente: essa ainda frágil cultura política só poderia mesmo florescer no interior de fronteiras demarcadas pelo colapso da confiança nas formas tradicionais de solidariedade classista.

Independentemente do resultado da mobilização de hoje, cabe verificar a existência de tendências importantes aflorando desse movimento, nem todas necessariamente novas nos repertórios de ação, e que podem auxiliar na construção de caminhos para a luta da classe trabalhadora no país. Assim, a articulação entre formas de organização horizontais e outras mais verticais, entre ações espontâneas e outras mais vertebradas, entre ação no mundo real e ação virtual, o intenso uso de aplicativos de mensagens tanto no sentido organizativo quanto no de agitação e propaganda etc. têm fornecido características interessantes a esse movimento.

Paulo Lima, o Galo, dos “entregadores antifascistas”, em uma de suas falas públicas indicou, corretamente, que a generalização do uberismo e tudo o que ele significa em termos de precarização da vida e do trabalho, não se restringe ou restringirá à categoria dos entregadores e das entregadoras, ela é o projeto do capital para a classe trabalhadora como um todo. Há muito em jogo nessas dinâmicas. E por essa razão, os entregadores e as entregadoras merecem toda nossa solidariedade ativa.

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*Marco Aurélio Santana é professor associado de sociologia do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autor, entre outros livros, de Bravos Companheiros: comunistas e metalúrgicos no Rio de Janeiro (7Letras, 2012). Na Boitempo, publicou Homens partidos: comunistas e sindicatos no Brasil (2001) e coorganizou a coletânea de ensaios Além da fábrica: trabalhadores, sindicatos e a nova questão social (2003). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

**Ruy Braga, professor titular do Departamento de Sociologia da USP, onde dirige o Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic). É autor, entre outros livros, de Por uma sociologia pública (Alameda, 2009), em coautoria com Michael Burawoy, e A nostalgia do fordismo: modernização e crise na teoria da sociedade salarial (Xamã, 2003). Na Boitempo, publicou A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista (2012) e A rebeldia do precariado: trabalho e neoliberalismo no Sul global (2017). Também coorganizou as coletâneas de ensaios Infoproletários – Degradação real do trabalho virtual (com Ricardo Antunes, 2009) e Hegemonia às avessas (com Francisco de Oliveira e Cibele Rizek, 2010), e é um dos autores dos livros de intervenção Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (Boitempo, Carta Maior, 2013) e Por que gritamos golpe? Para entender o impeachment e a crise política no Brasil (Boitempo, 2016). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

 

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1 comentário

  1. Trabalhadores de aplicativos são proletários, não precariados nem classes subalternas.
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    Quando acadêmicos procuram explicar o que ocorre vão na sua caixa de ferramentas e procuram a primeira que possa torcer o parafuso que se encontra solto, se a cabeça sextavada do parafuso está em unidade métrica e as chaves são em unidades inglesas, não faz mal, se enjambra um pouco e torce a cabeça do parafuso que vai ficar completamente danificada, mas o parafuso será torcido.
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    Se Gramsci cria uma categoria das classes subalternas e ela explica, ou diria melhor estigmatiza, uma classe dos entregadores de moto e bicicleta como uma “classe subalterna”, fantástico, puxamos o que Gramsci falou e adaptamos a realidade, mesmo que essa não se encaixe perfeitamente no que queremos explicar.
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    Não chamar os entregadores ou melhor os transportadores da produção de operários ou simplesmente de proletários é um reducionismo na explicação notável, faz-se textões mostrando o que são essas “classes intermediárias” e nem se volta as explicações marxistas das diversas formas que aparece a venda do trabalho que transforma um pessoa não em capitalista, mas sim um operário ou proletário, afinal quem não utilizou um motoboy para transportar o seu trabalho intelectual para um comprador desse e não ficou com a maior parte do pagamento, ou seja, há uma espécie de vergonha em dizer que a parte do leão da mais valia não extraída ficou com o trabalhador intelectual. Dá vergonha e talvez por isso merece o nome de uma “classe subalterna”.
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    Qual é o motivo da minha revolta da qualificação de todos esses trabalhadores que participam diretamente na criação de riqueza e vendem a sua força de trabalho e merecem ser classificados como proletários? Exatamente porque com essa classificação de “classe subalterna” está se minimizando a função desses trabalhadores na sociedade moderna.
    .O meu primeiro contato real e no mesmo nível que tive com esses trabalhadores foi quando depois de velho procurei tirar uma carteira modelo A, para passar no exame tive que o repetir um número significativo de vezes e durante as horas que esperava a minha vês para fazer o exame me deparei com uma realidade que nem tinha nenhum conhecimento, as angústia e a necessidade desses trabalhadores. Nessa época há quase vinte anos e não existia o conceito de Uberização, mas vi um desses meus colegas de exame de chorar porque rodara no exame, pois ele comprara financiado uma moto e esperava ter a carteira para ser “contratado” por uma empresa de entregas e conseguir com isso pagar o financiamento da moto e se sustentar.
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    Esses rapazes, que na época eram chamados de motoqueiros e não de motoristas de aplicativos, que apesar de já eram explorados na época participavam da produção como transportadores e pelo que eu saiba se alguém numa linha de produção curta ou longa participa dessa transportando algo de um lado para outro, Marx o definiria como proletário e não como uma “classe subalterna” na produção.
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    A visão dos acadêmicos é tão míope que compram o próprio discurso da economia “moderna” de uma diferenciação desses trabalhadores de quem faz a pizza ou de quem produz outro produto qualquer que será entregue por esse trabalhador.
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    Essa visão míope dos acadêmicos, procuram textos em autores marxistas para encaixarem proletários que trabalham numa linha de produção espacialmente difusa diferente das grandes fábricas dos séculos passados. Não compreender que simplesmente um trabalho contratado e executado longe do capitalista que retira a mais valia dos seus empregados, não significa que eles deixam de ser proletários vinculados a uma rede de produção.
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    A não caracterização desses operários como tal é simplesmente um discurso ideológico das classes burguesas para não visibilizar as relações de produção, ou seja, há um conceito marxista que dá um nome tradicional para isso, a alienação do trabalho. Para mostrar que o termo alienação do trabalho vamos a um dos principais reclames dos entregadores de comida, eles entregam as refeições com fome, ou seja, o produto que entregam não lhes pertence e nem direito de pensar em utilizá-los não é lhes permitido.
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    Outra característica que mostra a alienação do trabalho prevista por Marx é que o trabalho não é uma “satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio para satisfazer necessidades externas a ele” e isso é agudizado pela chamada “escala móvel de horas de trabalho” que o mesmo é submetido através dos algoritmos que lhes obrigam a trabalhar nos horários mais convenientes para os consumidores finais, que no caso de entregas comuns é num horário comercial e no caso de refeições é exatamente no momento que os trabalhadores deveriam estar com suas famílias. Assim sendo o trabalho deixa totalmente de ser uma satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio para satisfazer as necessidades dos usuários e dos capitalistas que lucram com isso.
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    Poderia passear sobre a definição marxista do que venha a ser a alienação do trabalho, e em todas as condições que Marx prevê na sua definição estão cobertas no trabalho desses “trabalhadores de aplicativos”. Porém isso seria simples demais e não necessitaria escrever um artigo inédito correlacionando com o que disse Gramsci ou outro marxista mais atual, até chamar de precariado ou proletário de trabalho precário como se essa forma de trabalho já não existisse desde o início da revolução industrial.
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    A tentativa de criação dessa nova “categoria social” o precariado, é a única forma dos teóricos de bula do marxismo em não achando possível em classificar os trabalhadores de aplicativos como proletários restariam classificá-los como “proletariado lumpen”, mas como isso seria depreciativo, para isso é criado a definição de precariado, porém quando começam a tentar mostrar a diferença do precariado do proletariado caem em fossos teóricos que induzem a imensos erros, um desse fossos é dizer que um operário trabalhando como um precariado tem como característica principal a baixa qualificação. .
    Para não ficar numa simples afirmação vou colocar um exemplo que tenho visto a tempo, a contratação de engenheiros pejotizados, que deixam de ser profissionais liberais, pois não trabalhão diretamente para o consumidor final que caso isso ocorresse os retiraria da categoria de proletários, começando a trabalhar para empresas de serviços que simplesmente vendem seus serviços retirando a mais valia do seu trabalho. .
    Em resumo, dentro da realidade das relações de trabalho atuais, engenheiros pejotizados são verdadeiros proletários na concepção da palavra que num passado remoto eram ou feitores de trabalhadores braçais ou empregados com remuneração mais elevada em empresas de construção, por exemplo. Alguém pode achar um pouco de exagero, pois segundo as leis sociais um engenheiro deveria trabalhar com salários muito acima do salário mínimo, porém além de definir classes sociais por nível de renda ser um erro, os engenheiros mais jovens são contratados ou como pejotizados ou quando empregados como auxiliares de engenharia, mas esse assunto já é outro problema.
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    O que resulta enxergar um trabalhador de aplicativo como um proletário? Essa pergunta é a resposta da ação tão rápida que esses trabalhadores estão fazendo, pulando etapas no nível de consciência de classe, pois como os mesmos pertencem a classe proletária, apesar da novidade da seu movimento de reivindicações caminha a passos largos diferentemente do que movimentos de classes proletárias convencionais que se escondem atrás de sindicatos com ação completamente inadaptadas a atual situação.

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