19 de junho de 2026

Com os cigarros, Moro mostra que não entende de segurança pública, por Luis Nassif

Comporta-se como qualquer administrador impetuoso: se não souber o que fazer, crie um grupo de trabalho em cima de uma bobagem qualquer.

Durante muitas décadas o Brasil foi governador por bacharéis, personalidades formadas em direito que só conseguiam enxergar o país sob a ótica das leis – que quase nunca eram cumpridas, saliente-se. Vendiam o peixe que uma lei mudaria a realidade. Faziam nome sem apresentar um resultado concreto, e sem nenhuma capacidade de entender a realidade para, a partir dela, elaborar as leis.

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É o caso do Ministro da Justiça Sérgio Moro. Como já enfatizou o governador do Distrito Federal, Moro não entende nada de segurança pública.

Nem se lhe indague sobre mapeamento de zonas de conflito, trabalho multidisciplinar com outros órgãos de Estado, ação articulada com outras polícias. Aparentemente, ele não domina o bê-a-bá da própria repressão ao crime organizado.

Tome-se sua última decisão, de estudar a redução dos impostos sobre cigarros para inibir a ação do comércio irregular.

De fato, há quadrilhas organizadas atuando em todo o país em cima de produtos muito tributados, dentre os quais os cigarros e os combustíveis. Já existe um vasto acervo na Polícia Federal sobre essas organizações. Elas foram alvos de inúmeras operações da Polícia Federal, mas sempre atuando topicamente, sem uma ação coordenada sobre a estrutura maior, sem um trabalho coordenado com as polícias estaduais.

Mais que isso, o fator Lava Jato e a falta de discernimento da repressão têm sido manobrados pelas próprias organizações criminosas contra o lado formal da economia valendo-se ou da cumplicidade ou da ignorância das autoridades públicas. Prova maior foi uma operação conjunta da Polícia Civil e do Ministério Público Estadual do Paraná, prendendo funcionários de distribuidoras de combustíveis, acusados de atentar contra os princípios da livre concorrência. O caso mereceu amplíssima divulgação pela imprensa paranaense, seguindo o mesmo padrão de falta de discernimento da grande mídia.

O que os funcionários faziam era conferir se os postos da rede estavam vendendo combustível abaixo do preço de aquisição. Se estivessem, era óbvio tratar-se de combustível adulterado ou combustíveis com sonegação de impostos. A polícia gravou uma conversa entre um diretor regional de uma das distribuidoras e um dono de posto, no qual ele alertava que, se continuasse a vender combustível abaixo do preço de aquisição, o posto seria descredenciado.

Em vez de ir atrás dos criminosos, a PC e o MPE resolverem se aliar a eles contra os fiscais das redes distribuidoras, sob silencio geral – aqui no GGN fomos a única voz alertando para esse conluio. Tudo isso ao mesmo mesmo tempo em que a Refinaria de Manguinhos, considerada o ponto central do esquema de sonegação de combustíveis (pois não refina nada) inundava os jornais com publicidade.

Aliás, as denúncias que fiz em relação ao conluio de Eduardo Cunha e Manguinhos só provocou uma reação oficial: uma sentença do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, me condenando a indenizar Cunha pelo fato de ter difamado sua imagem, equiparando-o a sonegadores.

O caminho correto de qualquer Ministro da Justiça eficiente seria montar uma super-operação para desarticular as quadrilhas. Mas o brilhante Moro encontrou a solução bacharelesca: reduzir a tributação do cigarro para aumentar a competitividade da indústria em relação ao produto contrabandeado, “de pior qualidade”, salienta ele. Sua pretensão é que o brasileiro volte a consumir cigarros de boa qualidade produto das quadrilhas. Cáspite!

A tributação de cigarros têm impacto forte sobre a arrecadação fiscal. Além disso, o aumento do consumo de cigarros tem impacto direto na saúde pública. Não há a menor dúvida de que o cigarro foi o mal do século 20, responsável pela redução da expectativa de vida das populações, pela multiplicação das doenças coronárias, respiratórias, pelo câncer, pelo aumento dos custos da saúde. E o Ministro Moro, por absoluta incapacidade de organizar uma operação eficiente contra as quadrilhas, propõe a redução dos tributos do cigarro.

Comporta-se como qualquer administrador impetuoso: se não souber o que fazer, crie um grupo de trabalho em cima de uma bobagem qualquer.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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15 Comentários
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  1. Garibaldi

    27 de março de 2019 7:06 pm

    Setor do agronegócio do fumo agradece, no RS, fortes apoiadores do Bolsonaro

    1. Franci

      27 de março de 2019 10:10 pm

      https://www.bbc.com/portuguese/brasil-37491144

  2. Lúcio Vieira

    27 de março de 2019 7:21 pm

    E das piores quadrilhas, são os falsificadores da Constituição Federal.
    Quero ver quando o ministro tiver pela frente uma verdade como esta que foi dita ao Velez:

    https://twitter.com/i/status/1110985327995437056

  3. WG

    27 de março de 2019 7:53 pm

    Tudo o que Nassif expôs é a mais pura verdade. Seria um exagero ver na iniciativa do aliciado da CIA uma estratégia para ter a indústria do cigarro como aliada para as próximas eleições ? Vai na mesma linha da aliança de Bolsonaro com a indústria das armas. Podemos dizer que ambos buscam parceria com a indústria da morte.

  4. 27 de março de 2019 8:06 pm

    inepto, quis dizer vc

  5. AMORAIZA

    27 de março de 2019 8:26 pm

    Bom, agora o povo vai gastar menos pra levar fumo.

  6. Franci

    27 de março de 2019 8:33 pm

    E ainda vai ajudar a matar trinta mil, ou milhões como prometido pelo presidente satanás

  7. Mancini

    27 de março de 2019 9:44 pm

    Infelizmente, no ano passado, o contrabando superou a receita tributária do cigarro legal(sic)

  8. Jossimar

    27 de março de 2019 10:06 pm

    Como sempre afirmei, este moro não foi escolhido para comandar a lava jato por sua competência e sim por sua canalhice/burrice/banditismo.
    Um juiz que tivesse o mínimo apreço por sua biografia jamais faria o que este bandido togado fez.
    Este sujeito é um dos piores canalhas que já pisaram nestas terras.

  9. Gabriela Godoy

    27 de março de 2019 10:38 pm

    Considerando que hoje falaram na mídia do problema de contrabando não só de cigarros, mas também de agrotóxicos, só falta o genial Moro propor a redução da taxação de agrotóxicos, também. Que o atual go to liberou a rodo. A pulga atrás da orelha é: a quem beneficia a redução da taxação? E quem ganharia colateralmente com isso? As indústrias do tabaco e o câncer de pulmão agradecem, ministro Moro!

  10. João M. Pimentel

    28 de março de 2019 12:46 am

    O Moro é uma besta!
    E o Nassif não entende de muamba.
    Ninguém conseguiria controlar a entrada de cigarros.
    Uma imbecilidade, o aumento do imposto.
    “Com preços bem inferiores aos legalmente praticados, os cigarros contrabandeados se tornam atrativos para a população – prova disto é que já representam 30% de todo o mercado brasileiro. Prejudicam, assim, o crescimento da indústria formal e, consequentemente, a arrecadação tributária. Estima-se que R$ 4,9 bilhões deixam de ser pagos em impostos a cada ano em função da comercialização de cigarros ilegais”.
    Já era, chega a 50%.
    Entre o cigarro nacional e o muambado, o nacional.
    Quem não fuma ou quem nunca fumou um paraguaio “legítimo”, não sabe o que fala.
    Mas o INSS sabe!
    O Moro tem razão, talvez a única!

  11. IVO MIRANDA GOMES

    28 de março de 2019 4:04 am

    Juiz ou inimigo do povo? Patriota ou agente da CIA?
    Alguém que defende diminuir impostos sobre cigarros só pode querer empurrar o fumo no pobre.
    A tropa do exército brancaleone tornou o Brasil um país surrealista.

  12. nilo filho

    28 de março de 2019 8:16 am

    Nem de Direito Penal e de Processo Penal entende Moro

  13. José Trajano

    28 de março de 2019 11:05 am

    Não seria melhor o Moro criar um grupo para liberar a maconha. Produto mais natural não existe. O único problema é que os traficantes desse produto não tem como remunerar que encabeçará o grupo de estudo.

  14. Guimarães Roberto

    28 de março de 2019 7:30 pm

    O objetivo não é combater o contrabando, o objetivo é aumentar a margem de lucro da cadeia produtiva ligada ao tabaco.

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