Venho insistindo há tempos que o furor desregulatório do governo Bolsonaro visa abrir espaço para a economia informal, especialmente aquela trabalhada pelo crime organizado, como a indústria de armas e do lixo.

Hoje em dia, a indústria do lixo é considerada a mais propensa a lavagens de dinheiro. E tudo isso devido ao fato de ter emergido uma economia clandestina, a partir do empreendedorismo da Camorra, a máfia napolitana.

A maneira como a Camorra se apropriou do negócio do lixo está bem descrito pelo jornalista Roberto Salviani no livro “Gomorra”, que narra as entranhas do crime organizado italiano. E permite entender os passos da nova política ambiental brasileira, implementada pelo Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles.

Com as exigências ambientais, a reciclagem do lixo, especialmente dos materiais tóxicos, tornou-se bastante onerosa, se tratado corretamente. A máfia passou então a entrar no negócio através de empresas-mãe, cercadas por um arquipélago de stakeholders, formalmente independentes, incumbidos de dar um fim ao lixo, despejando, enterrando ou transportando para locais distantes. Eles trabalham para várias famílias, sem exclusividade. Quando estoura algum escândalo, as famílias ficam blindadas.

A exploração do lixo conquistou todas as famílias da Camorra, os Casalesi, os Mallardo, os Giugliano e se tornou o mercado preferencial para os jovens formados no sul, especialmente depois que a Operação Mãos Limpas destroçou parte da economia formal italiana.

Nas apurações dos crimes da máfia, os procuradores descobriram que os Bidognetti tinham se aliado ao ramo da maçonaria ligado ao P2. Revestiam o lixo tóxico dos empresários ligados à loja maçônica com uma camada irregular de tinta, reduzindo bastante o custo.

Em 2003, a operação “Cassiopeia” descobriu que toda semana partiam do norte para o sul quarenta carretas repletas de detritos ( cádmio , zinco , borra de verniz , lama de depuradores , plásticos diversos , arsênico , produtos de siderurgia , chumbo ) , que eram despejados , jogados ou enterrados.  Muitas empresas do Vêneto e da Lombardia , por intermédio dos stakeholders , adotaram um território na região napolitana ou casertana , transformando-o em um enorme depósito de lixo .

Em 2004, a Operação Houdini demonstrou que um único equipamento, na região do Vêneto, removia ilegalmente 200 mil toneladas de detritos por ano. O custo de mercado, para resíduos tóxicos, era de 21 a 62 centavos o quilo. A máfia oferecia por 9 a 10 centavos o quilo.

Na Campânia, os stkaholders conseguiram tratar 800 toneladas de terra contaminada por hidrocarbonetos, de propriedade de uma empresa química, por 20 centavos o quilo, economia de 80% sobre preços normais.

Em 2003, a operação Rei Midas tomou o nome emprestado de um grampo em um traficante, que dizia:  “ E nós , logo que tocamos a imundície , fazemos com que ela se transforme em ouro ” , mostrando que cada passagem do ciclo do lixo recebia a sua quota de lucro .

O tratamento do lixo tornou-se um negócio tão amplo que criou uma nova geração de jovens formandos, no sul do país.

A internacionalização da indústria

Com o tempo, foram formadas redes de exploração do lixo em vários países, com ramificações entre si. Os italianos ensinaram os stakeholders orientais, prospectando oportunidades por vários páises. Quando os custos da descarga de lixo aumentaram na Inglaterra , apresentaram – se os stakeholders chineses alunos do stakeholders da Campânia.

O negócio tornou-se tão volumoso, que se tornou fator de competitividade para empresas italianas.

A partir dessa descrição da economia clandestina do lixo, analise os seguintes atos do Ministro Ricardo Salles e dos novos empresários que ascendem com o governo Bolsonaro.

  1. Como se conferiu na operação Paraguai, a jogada com a energia foi articulada por três empresários ligados ao PSL e recém entrantes no mercado do lixo, comprovando que o setor se transformou na elite empresarial do governo Bolsonaro.
  2. Salles colocou como prioridade número 1 da sua pasta a reciclagem de lixo, tentando conseguir recursos para as prefeituras financiarem empresas privadas na exploração dos lixões.
  3. Há um desmonte total das leis e da proteção ambiental.

Em passado não muito distante, o Brasil se tornou um entreposto para descarte de pneus usados. Caminha para se tornar o lixão do mundo.

Repito: seria importante que o Ministério Público Federal, Receita, COAF, Polícia Federal passassem a analisar o setor com lupa. É por aí que irão estourar os próximos escândalos nacionais, a exemplo dos escândalos do jogo, quando a disputa pela loteria atraiu máfias de Los Angeles, Itália e Espanha.

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Nassif Em 2002 o sociólogo Martinez Alier no seu livro O Ecologismo dos Pobres levantava este problema e além: há uma exploração dos recursos naturais, da energia e da mão de obra barata dos países pobres a titulo de desenvolvimento mantendo-os na baixa manufatura. Em adição levam o resto do primeiro mundo para lá: pneus, eletrônicos...

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