Como as mudanças climáticas afetam indígenas no RS, estado castigado por ciclones

Renato Santana
Renato Santana é jornalista e escreve para o Jornal GGN desde maio de 2023. Tem passagem pelos portais Infoamazônia, Observatório da Mineração, Le Monde Diplomatique, Brasil de Fato, A Tribuna, além do jornal Porantim, sobre a questão indígena, entre outros. Em 2010, ganhou prêmio Vladimir Herzog por série de reportagens que investigou a atuação de grupos de extermínio em 2006, após ataques do PCC a postos policiais em São Paulo.
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Um novo ciclone se forma na costa da região Sul nesta quarta (27), o que provoca temporais e reforça a instabilidade do tempo no estado

Casa inundada no tekoa Pindo Poty devido às chuvas causadas por ciclone extratropical. Foto: Roberto Liegbott/Cimi

As previsões climáticas para o Rio Grande do Sul são de mais chuvas e tempestades até meados de novembro. A série de ciclones, gerada pela força intermitente do fenômeno El Niño, tem provocado enchentes que até agora mataram 47 pessoas, deixando nove desaparecidas e mais de 20 mil desalojadas, conforme a Defesa Civil. Parte da população afetada é indígena dos povos Guarani, Kaingang e Xokleng.

Ocorre que as comunidades localizadas em acampamentos às margens de rodovias, onde os indígenas já vivem como desalojados, mesmo sem as intempéries climáticas, são as mais dramaticamente afetadas e dobram os resultados trágicos da interferência do homem tanto no clima quanto na negação de direitos territoriais.

Um novo ciclone extratropical se forma na costa da região Sul do Brasil nesta quarta-feira (27), o que provoca temporais e reforça a instabilidade do tempo no Rio Grande do Sul, segundo a MetSul Meteorologia. Povos indígenas já sentem essa nova frente de instabilidade se estabelecer e tentam se precaver de novas perdas em suas comunidades. 

Há três dias as chuvas retornaram à região de um acampamento Guarani Mbya, às margens da BR-116, município Barra do Ribeiro. Esta poderá ser a terceira vez nos últimos meses que os 36 Guarani Mbya, sendo 18 crianças, do tekoha – lugar onde se é – Ka’aguy Porã perdem absolutamente tudo, se tornando dependentes das doações e ajudas da Defesa Civil e Poder Público municipal.   

“Enche tudo de água. Perdemos geladeira, colchão, alimentos, cobertores, roupas. Agora começou a chover de novo. Três dias de chuvas já. Da segunda vez que perdemos, conseguimos de novo. Se perder novamente, não tem nova doação”

Cacique Paulo Xunu Guarani Mbya 

O acampamento está organizado na Comissão Guarani Yvyrupa (CGY), que congrega coletivos do povo Guarani nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. “Era um acampamento, mas virou como aldeia, há oito anos estamos aqui aguardando demarcação. Não tem mais apenas lona (casas de lona preta)”, explica o cacique. 

A aldeia é o tekoha Ka’aguy Porã. Já existe um Grupo de Trabalho para realizar a demarcação da Terra Indígenas. Para o cacique, a falta da demarcação agrava a situação porque atrapalha a recuperação ambiental, serve de motivo para órgãos do Estado justificarem a dificuldade do auxílio e mantém a precariedade da estrutura física do tekoha.  

“Colocamos tudo o que temos, as cestas básicas, na única casa que não enche, a água só vai só até o assoalho, e ela fica um metro e meio mais alta que o resto. Então esperamos pela enxurrada. Em minutos sobre a água pra perto de 1 metro, 1 metro e meio”, conta o cacique.  

Região de Porto Alegre 

Conforme a CGY, neste mês de setembro, as aldeias guarani na região de Porto Alegre foram assoladas pelas tempestades trazidas por um ciclone extratropical que atingiu regiões nordeste e litoral do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, e grandes impactos na serra gaúcha e região metropolitana de Porto Alegre.

As chuvas atingiram várias tekoa (aldeias) guarani, como as de Pindo Poty (Lami, Porto Alegre/RS), Kurity e Yvyã Porã (Canela – RS), Pekurity (Arroio da Divisa, Eldorado do Sul – RS), Yy Rupa (Terra de Areia – RS), Nhu Porã (Torres – RS), Kuaray Rese (Osório – RS) e Nhu Poty e Ka’aguy Porã (Passo Grande, Barra do Ribeira – RS), algumas em situação muito grave até agora.

No tekoha Pindo Poty, localizada na região sul de Porto Alegre, as chuvas inundaram casas, mataram animais domésticos e levaram todos os pertences das famílias. A situação é considerada a mais grave até o momento pelas consequências do evento.

As famílias guarani ilhadas foram resgatadas de botes numa ação conjunta da Força Civil, Brigada Militar e Corpo de Bombeiros, e alojadas em um abrigo em Restinga, onde vão permanecer até as águas baixarem. No abrigo, as famílias sofrem privações, sem alimentos, agasalhos, itens básicos, cobertores e colchões.

Impactados pelo clima 

Roberto Liebgott, coordenador do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Sul, assessora e monitora esses grupos indígenas há um par de décadas. “Esses povos são duramente impactados pelas adversidades do clima. As comunidades que mais sofrem são Guarani Mbya que vivem às margens de rodovias, aquelas muito próximas de rios, córregos e riachos”, diz Liebgott. 

Dada as condições de profunda degradação ambiental, quando as tempestades acontecem e os córregos concentram grandes volumes de água, transbordam o excedente em inundações devastadoras que varrem casas, barracos de lona e o materiais usados para a confecção de artesanatos – meio de vida dos grupos, que vendem a produção no acostamento das estradas e cidades próximas. 

“Não há da parte do Estado qualquer preocupação ou medidas que ajudem na prevenção e enfrentamento a essas situações. São lembrados (os grupos), exclusivamente, quando há a enchente e o vendaval e os barracos alagados e destruídos. As autoridades ligam o sinal de alerta, mas já é tarde”

Roberto Liebgott, Cimi

Ausência do Estado

O outro problema apontado por Liebgott são as mitigações pós-destruição: elas não chegam por parte do Poder Público, estando os povos amparados apenas pelas entidades de apoio à causa indígena, as organizações dos próprios indígenas, caso da CGY e a solidariedade de integrantes da sociedade civil compadecidos com a situação. 

“São e estão marginalizadas (as comunidades). O Poder Público não as atende. Há acampamentos que existem há 50 anos e não há infraestrutura adequada, atenção diferenciada. Nada. (Nas) retomadas é mais grave porque o Estado se ausenta totalmente. Trata como ação de ilegalidade, ilegítimas. São discriminadas e contam basicamente com o apoio das entidades”, diz Liebgott.  

Esse apoio vem do Cimi, da CGY, também do Centro de Trabalho Indigenista (CTI), Articulação dos Povos Indígenas da região Sul (ArpinSul), que buscam suprir a ausência do Estado na medida do que podem. Por isso mesmo as retomadas são dramaticamente afetadas. Sem o mínimo de infraestrutura e capacidade de recuperar ambientalmente os territórios que reivindicam, os indígenas acabam tendo de lidar com consequências devastadoras. 

Entre as retomadas afetadas estão a de São Francisco de Paula, na Serra do Rio Grande do Sul, do povo Xokleng, a retomada Garé, no Morro Santana, em Porto Alegre, e a retomada do Arado, em Maquiné, além da retomada de Terra de Areia. Como o Estado não garante a demarcação, os indígenas vivem em áreas degradadas pelo monocultivo ou outras atividades privadas predadoras ambientais. 

Mais pobres afetados

Os estragos promovidos pelos ciclones no Sul do país foram mais afetam os mais de maneira mais violenta. “Aqueles que menos tem, no âmbito da sociedade, são brutalmente afetados. Perdem tudo, quando conseguem manter a vida. Acontece que agora a intensidade está cada vez maior e essa frente de tempestades alagou municípios inteiros, ampliou o impacto”, explica Liebgott.  

Então o Estado passa a agir diretamente, mesmo porque a cadeia econômica se interessa mais por um fazenda de monocultivos, entre outras atividades agropecuárias, do que por uma Terra Indígena em recuperação ambiental. 

“O que se percebe, olhando para a questão dos povos indígenas, é que o Estado se ausenta ou manifesta qualquer tipo de solidariedade concreta. Há discursos, mas ações efetivas não existem. Não se libera recursos para esses mais pobres. Então atuamos numa rede de solidariedade, além da pauta pela demarcação das terras, arrumando colchões, roupas, alimentos, materiais de higiene e limpeza, lonas para refazer os barracos”, diz o missionário. 

Efeitos das mudanças climáticas

Fator não menos importante, é que no Sul do país as comunidades indígenas vivem em espaços pequenos e as terras demarcadas estão em lugares degradados, onde não há interesse econômico. Os efeitos das mudanças no clima costumam ser mais atrozes nesses locais. “Então, em geral, as comunidades nessas regiões elas se encontram em ambientes devastados, que demandam recursos e tempo para recuperar, convivendo com a contaminação de rios e lagos, dada a proximidade dos centros urbanos, a utilização de agrotóxicos pelos fazendeiros”, conta. 

Conforme tem declarado a ministra Sônia Guajajara, as demarcações territoriais asseguram perspectivas ambientais onde se possa desacelerar o cronômetro regressivo das mudanças climáticas.

O que para Liebgott significa garantir o  acesso dos indígenas à água potável, preservando rios e córregos, e de produção de alimentos saudáveis, garantia de renda. “É uma luta de longo prazo por terra boa, mato bom, água boa, como os indígenas dizem. O impacto de agora não se reverte, mas para o futuro, e não tem como escapar”, sentencia. 

Liebgott afirma o que povos indígenas reiteram todos os dias, desde que ele começou a atuar junto a eles, no final da década de 1980: terra é vida. A terra é mãe. “Mas essa terra está muito atacada, é uma mãe violentada. Então temos as mudanças climáticas e todos esses graves e mortíferos problemas. A luta dos povos indígenas por demarcação de terra é mais profunda do que somente a terra”, afirma. 

Liebgott diz que é possível perceber isso nas falas dos pajés, que o presente é o de resgatar a vida, “salvar a mãe terra da brutalidade das mãos dos especuladores e da exploração econômica. Essa perspectiva de tornar a mãe terra novamente fértil, com capacidade de gerar e proteger novas vidas. Demarcar território indígena (no Sul e no Brasil) significa compor a defesa, a proteção da terra, e devolver a ela a dignidade de mãe”, conclui.

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