27 de junho de 2026

Como Serra e Aécio escaparam da Lava Jato, por Luis Nassif

A explicação de Janot é que as duas testemunhas-chaves haviam morrido

Desde a prisão de Mariano Marcondes Ferraz, várias vezes manifestamos estranheza com a falta de preocupação da Lava Jato em se aprofundar nas investigações sobre a Trafigura, uma das 50 maiores empresas do planeta, segundo a lista da Forbes.

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Trata-se de uma comercializadora de petróleo que montou o maior esquema de corrupção da era moderna – conseguindo o monopólio da extração e da importação de petróleo em Angola.

O autor do feito foi justamente Marcondes Ferraz, promovido a membro do board da companhia. A Trafigura tinha contratos vultosos com a Petrobras para transporte e comercialização de derivados, um mercado imensamente maior do que o das obras da empresa. No início da Lava Jato, Paulo Roberto Costa já havia mencionado a Trafigura.

Surpreendentemente, a Lava Jato se restringiu ao lobby que Marcondes Ferraz fazia para a Decal, uma empresa italiana sediada no porto de Suape, praticamente um bico de lobby, perto dos interesses da Trafigura.

[Moro condena Mariano Marcondes e livra a Trafigura]

[A conexão Angola, a condenação de Mariano Ferraz e a Trafigura, por Luis Nassif]

[Affaire Lava Jato: Un ex-trader genevois condamné au Brésil]

O livro de Rodrigo Janot esclarece a dúvida.

No final de 2016, a PGR recebeu um pedido de colaboração da Espanha, referente a Gregório Preciado, casado com uma prima de Serra. Peciado era suspeito de ter pago subornos no valor de 10 milhões de euros a políticos brasileiros, para a obtenção de um contrato pela Defex, uma sociedade de capital misto controlada pelo Estado espanhol. O contrato da Defex foi para um empreendimento para exportação de minério de ferro, sociedade de Eike Batista com a Trafigura. Segundo as autoridades espanholas, as propinas aos políticos brasileiros teriam sido pagas por uma empresa offshore de nome Iderbras, administrada por Preciado e em nome de Vivencia Talan, prima de Serra.

Para atender à colaboração da Espanha, havia a necessidade de uma formalização através do Ministério da Justiça. Serra era o Ministro das Relações Exteriores de Temer, e figura chave no impeachment. O Ministro da Justiça era Alexandre de Moraes que, logo em seguida, foi substituído por Osmar Serraglio e Torquato Jardim. E a cooperação jamais foi formalizada. Não houve vazamentos para a mídia, não houve pressão da mídia, e o caso dormiu nas gaveta da PGR.

Outro caso emblemático foi o não indiciamento do senador Aécio Neves. Na época, um filho de Teori comentou com amigos a estranheza do pai, pelo fato de Janot ter proposto o indiciamento de Lindberg Farias e negado o de Aécio Neves, segundo Teori, tendo indícios muito mais concretos do que o petista.

A explicação de Janot é que as duas testemunhas-chaves haviam morrido – o ex-deputado José Janene, também beneficiário de Furnas, e que havia descrito em detalhes a participação de Aécio no esquema; e Airton Daré, da Bauruense, empresa que lavava o dinheiro da mesada.

Ora, haviam morrido, mas a contabilidade e as movimentações financeiras ainda existiam. E, desde 2010, repousava na PGR o inquérito Norbert, que localizara contas de Aécio em Liechtenstein, provavelmente para as propinas da JBS.

Segundo Janot, ele não indiciou o conterrâneo para não criar um novo Berlusconi. Pouco importa o fato de não haver a menor relação entre poupar Aécio ou criar um Berlusconi brasileiro.

Aécio só entrou novamente quando a JBS apareceu com as gravações de conversas com ele. Ali, não havia como refugar.

 

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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11 Comentários
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  1. Roberto

    1 de outubro de 2019 4:33 am

    Escaparam porque são amigos do marreco, estava claro a perseguição e seletividade de Moro, hoje ministro da justiça, que desmoralização total.

    1. Naldo

      1 de outubro de 2019 8:04 am

      Eu acredito que seja o contrário, o marreco é que foi escolhido para tocar a inquisição caipira …como um investigação de lava rápidos no cu do mundo foi parar na maior empresa da América latina é uma das maiores questões a serem respondidas…. dali virou polícia do Brasil, podendo prender qualquer um, a qualquer tempo e motivo desde o cu de mundo em que estavam entocados….. risível…..

      Ainda vamos nos perguntar como permitiram sujeitos tão despreparados destruírem o país e auxiliarem uma quadrilha violenta assumir o poder…

  2. fabricio coyote

    1 de outubro de 2019 5:10 am

    qual a surpresa de uma orcrim que se esconde no aparato do estado e se enverniza com a legalidade dos tribunais? e nesse balaio de gato, o papel conciliador é o da nossa “imprensa”. vê-se o caso de Brumadinho, uma das inúmeras cidades destruídas pela sanha de uma multinacional irresponsável e que, só pela destruição de um rio inteiro, o Rio Doce, ensejaria uma encampação da empresa para o ativo nacional. o que faz o jornal nazional: concentra-se em suposta fraude de cidadãos que acorrem à esmola que a Vale deixou aos afetados pelos enormes desastres ambientais. e a globo a importar-se com suposta fraude. isso é ou não uma fraude processual disfarçada de “imprensa”? só no Brasil, um conglomerado irresponsável faz esse tipo de acusação, sem provas, ilações de inquéritos e condena uma população condenada sem o direito de defesa…
    Há de se destacar que as grandes inteligências e suas vozes poéticas sempre cantaram os seus rios: Volga, Mississipi, Nilo, São Francisco, Tâmisa, Sena, Tejo, Eufrates, etc…
    e boçalnaro a dizer que encara a globo… macho man!

  3. Ma

    1 de outubro de 2019 6:32 am

    E eh, no minimo curioso, como morrem de repente todas as pessoas que podem ser testemunhas contra Aécio…

  4. Anônimo

    1 de outubro de 2019 7:29 am

    O jogo é simples. Se o PT, PT, PT foi o partido que mais contratou obras, como os principais partidos gastaram praticamente a mesma coisa (declarada) nas campanhas eleitorais?

    Chegava a ser engraçado, todos deixando para o último momento o registro da estimativa de gastos no TSE… Todos esperando para ver quanto o PT, PT, PT ia gastar, para aí registrarem as suas, principalmente os tucanos.

  5. Maria Luisa

    1 de outubro de 2019 9:29 am

    Eh… a morte de Teori Zavaski “caiu do céu” para muita gente… E que pena que o Intercept so tem as conversas do FT em Curitiba. Se tivesse de Brasilia, muita coisa ja estaria melhor explicada.

  6. Zé Sérgio

    1 de outubro de 2019 12:51 pm

    “…E se for jogo de cena?, Janot não só revelou o inconfessável, mas deu detalhes hediondos,…” Neste mesmo Veículo, no mesmo dia. O inacreditável é ver os Partidos de Oposição, Políticos contrários a estas Figuras e estes Partidos, o Poder Judiciário, a OAB e outras Entidades Civis em absurdo silêncio. As gravações com o Senador Aécio Neves são inimagináveis. As acusações, provas e gravações com José Serra são de absurdas revelações. Onde estão as consequências? Onde está o Estado Brasileiro exigindo a origem dos milhões no ‘bunker’ de Geddel? Onde está o Brasil? Mas o que é mais inexplicável e impensável. Aécio Neves é o neto de Tancredo Neves. Um tal Patrono da Redemocratização. José Serra era o Estadista com estatura que a Nação merecia. Obra da Redemocracia e da Constituição Cidadã, da luta contra o Governo Militar, expoente do Progressismo, do Socialismo, do AntiCapitalismo. 40 anos depois, era isto REDEMOCRACIA? Era isto Constituição Cidadã? Eram estas as Forças Progressistas e Democratas que defenderiam os Interesses da Nação Brasileira? 40 anos depois, descobrimos Criminosos e Canalhice abjeta que construíram estas décadas todas !!!! E alguns querem tal continuidade? Pobre país rico. No mínimo Crime de Lesa Pátria. Mas de muito fácil explicação. A podridão não tem similares na Nossa História.

  7. Duarte Rosa Filho

    1 de outubro de 2019 1:37 pm

    Confissão de prevaricação?

  8. Carla

    1 de outubro de 2019 6:05 pm

    Não encontrei menção sobre a suspensão das investigações contra o senador Flávio Bolsonaro no caso Queiroz.

  9. José Carlos Lima

    1 de outubro de 2019 7:53 pm

    No processo fraudulento do triplex, pra condenar Lula bastou a palavra de um delator condenado a prisão perpétua e que recebeu promessa de ser libertado e ainda de ganhar alguns milhões de reais em prêmios se falasse qualquer coisa contra Lula : sem precisar provar…….vem logo meteorito!

  10. Alex

    4 de outubro de 2019 10:49 am

    Minha única esperança é que esse povo deixe de ser vaca de presépio e passem a levar na memória os nomes envolvidos com essas falcatruas e nunca mais dar-lhes lugar na política brasileira. Como pode Renan Calheiros e seu filho serem eleitos? E os Sarney, Collors, Maias, etc? Nós temos que aprender a lição de uma vez por todas.

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