O avanço do caso Master sobre personagens do universo evangélico, como o ex-pastor e dono da Lagoinha Belvedere, Fabiano Zettel, lança luz sobre uma transformação mais ampla que vem ocorrendo no campo religioso brasileiro. Segundo a pesquisadora Magali Cunha, que estuda Comunicação, Religiões e Política, trata-se da consolidação de um modelo de igreja que opera como corporação, com forte inserção no mercado e crescente interface com o sistema financeiro.
Em entrevista ao programa TVGGN 20 Horas [confira abaixo], Cunha resgata a origem da Igreja Batista da Lagoinha para mostrar que sua trajetória ajuda a explicar o presente.
“A Lagoinha é uma igreja batista, parte das chamadas igrejas históricas que vieram ao Brasil com missionários no século XIX, como presbiterianas, metodistas e luteranas. Ela foi fundada nos anos 1950, em Belo Horizonte, mas passa por uma mudança importante nos anos 1970, quando o pastor Márcio Valadão assume e incorpora elementos da renovação carismática. Era o momento do chamado avivamento do Espírito Santo, que atravessou várias denominações e tensionou estruturas tradicionais. A Lagoinha não rompe formalmente com a tradição batista, mas se torna uma igreja ‘pentecostalizada’, o que leva à sua expulsão da Convenção Batista Brasileira e à adesão a outra convenção, dos chamados renovados”, explica.
Essa inflexão teológica, no entanto, é apenas o primeiro passo de uma mudança mais profunda. O ponto de virada, destaca Cunha, ocorre no final dos anos 1990, quando a igreja se projeta nacionalmente por meio da música gospel.
“É nesse momento que a gente precisa distinguir o que é uma igreja tradicional e o que passa a ser uma corporação religiosa. Com o surgimento do grupo Diante do Trono, liderado por membros da família Valadão, a Lagoinha entra no mercado da música em um período de explosão do segmento gospel. Esse grupo mobilizava multidões, shows com centenas de milhares, chegando a um milhão de pessoas, vendia discos em larga escala e firmou parcerias com grandes gravadoras. Depois, mesmo independente, já operava como uma grande empresa. Esse sucesso impulsiona a igreja para além do campo religioso estrito”, afirma.
A partir daí, a Lagoinha amplia sua estrutura e passa a atuar em múltiplas frentes, assumindo um formato corporativo, e se transforma em uma corporação religiosa, com vários braços: escolas, seminários teológicos, projetos sociais e iniciativas financeiras. “Não é algo recente. Já houve, por exemplo, cartão de crédito ligado à igreja e outras experiências no campo das finanças. A fintech criada em 2024, em parceria com o Banco Master, é só mais um elemento de um processo que vem de antes”, pontua Cunha.
É nesse ambiente que se insere a relação com o banqueiro Daniel Vorcaro e a ascensão de figuras como Zettel, cunhado de Vorcaro. Embora não pertença ao núcleo familiar que historicamente comanda a igreja, ele ganha projeção a partir dessas conexões. “Há um núcleo familiar que concentra poder, mas também há pastores que se destacam porque essa é uma igreja midiática, ligada ao mercado da música. No caso do Zettel, a visibilidade recente está associada à relação com o banqueiro, inclusive por vínculos familiares. O pai de Vorcaro se converteu à Lagoinha e passou a investir na igreja, contribuindo para construção de templos e outras iniciativas”, relata.
Para Cunha, o caso não pode ser analisado de forma isolada. Ele se insere em um contexto mais amplo de mudanças no campo evangélico e no próprio ambiente econômico brasileiro. “Nós estamos diante de um terreno fértil para esse tipo de negócio. O crescimento das fintechs, das plataformas digitais, das bets e de outras formas de circulação de dinheiro com pouca regulação cria oportunidades enormes. Não é um fenômeno exclusivo desse caso. Há uma lógica mais ampla que facilita a atuação de empresários que buscam lucros muito além do sistema financeiro tradicional”, observa.
Essa dinâmica, segundo a pesquisadora, dialoga com um modelo já consolidado em outras experiências religiosas no Brasil. Ela cita estudos clássicos que analisam a transformação de igrejas em empresas, com estruturas semelhantes às de franquias e oferta de produtos que extrapolam o campo espiritual. “Existe uma parcela do universo evangélico que se organiza como corporação, um modelo inaugurado no país por igrejas como a Igreja Universal do Reino de Deus. São instituições que operam com lógica de mercado, com produtos, serviços e expansão territorial, inclusive internacional. Isso abre caminho não só para a instrumentalização política da religião, mas também para sua instrumentalização por interesses econômicos e, em alguns casos, até pelo crime”, afirma.
Nesse cenário, a internacionalização da Lagoinha aparece como mais um vetor de expansão e complexidade. “A chamada Lagoinha Global já tem presença fora do Brasil, especialmente nos Estados Unidos, com várias congregações, e projetos de expansão para outros países. No Brasil, segue crescendo com o modelo de megachurch, reunindo milhares de pessoas e oferecendo uma ampla gama de produtos e serviços. Alguns estudiosos, inclusive, questionam o uso do nome ‘batista’, porque a estrutura adotada está completamente fora do modelo tradicional de organização dessas igrejas, que não comporta conglomerados com filiais como esse”, conclui.
Evandro Condé
20 de março de 2026 9:40 pmE pior, uma desgraça puxa outra. Olha o Digimais também na espreita.
https://piaui.uol.com.br/digimais-edir-macedo-fgc/?utm_source=home_uol
Rui Ribeiro
21 de março de 2026 8:07 amFazem do que deveria ser uma casa de oração, uma casa de lavagem de dinheiro de crimes. A religião é um negócio, e um negócio bem lucrativo, com baixo investimento e grandes retornos.
Se alguém duvida, olha isso aqui: “O empresário Fabiano Campos Zettel era pastor e presidente do quadro de sócios da igreja Lagoinha em Belo Horizonte”.
Igreja virou sociedade comercial?
Pikenas inpresas, grandes negóços
Rui Ribeiro
21 de março de 2026 12:32 pmBotar o $enador que não se emenda para presidir a CPMI do INSS é como botar uma raposa para administrar um galinheiro. Só no Bananistão ocorre uma coisa dessas.
emerson57
22 de março de 2026 11:10 amO phim está próximo.
Só São Lula pode postergar!