De Sinval a Sandoval, os amigos silenciosos do Bar do Alemão, por Luis Nassif

Um bar é seu ambiente, sua história e seus garçons, elementos intrínsecos tanto à história quanto ao ambiente.

O Bar do Alemão teve dois garçons simbólicos, Sinval e Sandoval.

Sinval serviu na época áurea do bar, apenas um garçom dando conta de toda a freguesia, anotando todos os pedidos de cabeça, com um sentido de organização estupendo.

Já Sandoval era a concentração em pessoa. Quando o bar estava cheio, ía até uma mesa, ouvia os pedidos e partia em direção ao caixa sem atender a nenhum pedido pelo caminho, para não se dispersar e confundir as bolas.

Foi nossa grande companhia nos últimos anos. Sempre de cara séria, às vezes a concentração era mal interpretada, como se fosse algo brusco na sua personalidade. Nada disso. Com o tempo, sabia do gosto de cada freguês. Sempre que chegava no bar, vinha imediatamente com o Guaraná Antárctica e um copo americano. Depois, nos petiscos, sabia que ou era batata chips, ou bauru do Ponto Chic ou churrasquinho. E, na saida, nos lembrava sempre da necessidade de carimbar o ticket do estacionamento.

Ontem, às duas horas da manhã, Sandoval partiu, fulminado por um infarto, sinal desses tempos de crise, em que os maiores afetados são os botecos. Há dúvidas sobre o futuro do Alemão. Deve ter batido em uma vida naturalmente tensa pelo ritmo de trabalho da noite.

O Alemão sobreviverá à crise, tenho certeza. E Sandoval, agora, fará parte do panteão das pessoas que ajudaram a construir a historia do bar, o Riolando, o Marchezan, o Murilo, o Zé Grandão, o Tião Cabo Verde, e os que mudaram de boteco, o Baiano, o Negão Almeida. E sua lembrança eterna será do garçom preocupado com os detalhes, concentrado no trabalho e, de vez em quando, se permitindo um sorriso camarada.

Boa viagem, Sandoval.

 

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