5 de junho de 2026

EXCLUSIVO: Como vacina contra Covid-19 no Brasil foi parar no mercado internacional de capital de risco

Depoimento de hoje terá que esclarecer documentos obtidos pelo GGN, que revelam empresa atravessadora e, na última ponta, uma de capital aberto de investimentos de risco

Jornal GGN – A primeira pergunta que a CPI da Covid deve fazer a Cristiano Carvalho é como a Davati Medical Supply, uma empresa sem registro no Brasil, com sede no Texas, Estados Unidos, pode atuar como atravessadora na venda de vacinas em nome de laboratórios estrangeiros?

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O GGN fez uma ampla investigação sobre a origem dessa empresa que se apresentou como potencial revendedora do imunizante AstraZeneca, que articulou junto a membros do governo de Jair Bolsonaro, participando de reuniões e negociações para essa venda, acusando inclusive o pedido de propina pelo ex-diretor de Logística do governo, Roberto Ferreira Dias.

Atravessadores são empresas ou agentes comercializadores que intermediam a venda de determinado produto ou serviço, mas, para isso, precisa comprovar a capacidade jurídica e sua regularidade fiscal. No Brasil, a Davati não possui CNPJ, atuando em nome dela pessoas que se dizem vendedores autônomos, como o cabo da Polícia Militar, Luiz Paulo Dominguetti Pereira, ou representantes, neste caso Cristiano Carvalho.

Na reportagem “Registros da Davati são controversos e já teve certificado negado“, mostramos uma série de polêmicas envolvendo os documentos da empresa que se diz habilitada para vender vacinas no Brasil. Com destaque, o fato de a Davati Medical Supply já ter sido desacreditada por uma agência internacional que verifica a confiança de empresas, o BBB (Better Business Bureau).

O principal questionamento na revisão da agência era o fato de a Davati informar datas de operação e criação controversos. Em sua apresentação oficial, a empresa informava que “operava em seu setor por mais de 22 anos e que tinha uma parceria com um fabricante farmacêutico de longa data estabelecido em 1961”.

Entretanto, havia registros que constavam a criação da empresa em 2013.

O GGN aprofundou essa busca diretamente junto à Controladoria de Contas Públicas do Texas e ao Secretário do Estado do Texas e obteve os documentos oficiais de seu registro.

Nos registros da Secretaria de Estado do Texas, a Davati Supply aparece como “ativa”, com data original de registro desde 15 de junho de 2020, não consta nomes de pessoas associadas à empresa e tampouco de outras empresas. Solicitamos, então, um pedido do certificado de formação da companhia, assinado naquela data.

Nele, consta que a empresa “é uma sociedade de responsabilidade limitada”, formada pelo empresário Herman Cardenas, com sede na cidade de Round Rock, no Texas, e administrada por gerentes e não empresas. Ou seja, não consta que a Davati Medical Supply forma parte de um grupo econômico.

Não consta no certificado de criação da empresa a atividade ligada a insumos médicos, como se definia a Davati Medical Supply. Apresenta como “o propósito de criação” dessa companhia funções completamente generalizadas: “para a transação de qualquer negócio legal pelo qual companhias de responsabilidade limitada podem operar de acordo com o Código de Organização de Negócios do Texas.”

Como “declarante” testemunha da confiabilidade da operação da empresa, aparece o nome de Sharon Cardenas, um provável familiar do sócio.

Junto à Controladoria, o GGN solicitou uma cópia do Relatório que a empresa Davati Medical Supply é obrigada a entregar ao Texas, por meio do seu número de contribuinte.

Ao GGN, o agente da Controladoria de Contas Públicas do Texas, Kevin Lyons, respondeu que a empresa “inciou sua franquia em 15/06/2020”. E que o primeiro relatório anual deveria ser entregue até o dia 15 de junho deste ano, mas que até hoje “eles ainda não apresentaram esse relatório”.

Constatamos, ainda, que o endereço nos registros da Davati Medical Supply é o mesmo de funcionamento da Davati Group:

Buscamos, então, os documentos do grupo Davati.

Ao contrário da Davati Medical Supply, a Davati Group enviou o seu Relatório de Impostos ao estado do Texas, somente uma vez, no ano de 2018, constando informações rasas e muitos espaços em branco:

No certificado de criação, a empresa consta como criada no dia 4 de agosto de 2017. E o agente de registro não é Cardenas, mas uma empresa, a Capital City Ventures LLC, uma investidora de capital de risco, criada em março de 2015.

A City Capital Ventures iniciou seus negócios investindo em empresas pequenas e em estágio inicial de criação, ampliando seus negócios, chegando a comprar participação de grandes redes, como as franquias de restaurantes Burger King, Pizza Hut e outras.

A empresa de capital de risco assumiu o controle da Davati Group no dia 4 de dezembro de 2018.

E apesar de não figurar nenhuma pessoa física nos dados de registro, o certificado de formação da Davati Group traz o nome do empresário Adam Clark, ao lado da Capital City Venures.

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

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3 Comentários
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  1. ALMIR SILVEIRA RAMALHO

    15 de julho de 2021 12:37 pm

    O GGN merece mais do que ninguém o nome de “Jornal” com JOTA maiúsculo, Parabéns GGN por mais essa reportagem investigativa. O Brasil terá muito a agradecer a seus profissionais.

  2. adriano rezende

    16 de julho de 2021 1:38 pm

    se ha estes esquemas pra roubar com a vacina, como serão os esquemas da privataria

  3. Marcos Lima

    17 de julho de 2021 4:52 pm

    O Sen Humberto Costa acredita que a Davati iria usar a carta de intenção de compra das vacinas fornecida pelo Ministério da Saude, como garantia para pegar empréstimo. Mas provavelmente não iria fechar a venda. Ele diz que isso é um tipo de golpe comum desse tipo de empresa. Ou seja, a Davati queria dar outro tipo de golpe.
    Mas pode ser que eles quisessem fazer venda mesmo, com o superfaturamento de 1 dólar por dose, mas alguma coisa deu errado, e eles resolveram delatar.

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